Regeneração de floresta tropical é rápida, mas perde maioria das espécies

Matas recuperadas alcançam 80% do número original de espécies arbóreas, mas só um terço delas corresponde à vegetação primitiva.


FÁBIO DE CASTRO

As florestas secundárias – aquelas que se formam naturalmente quando uma área desmatada para uso agropecuário é abandonada – são importantes para reduzir a perda de áreas florestais, mas não são capazes de trazer de volta a maior parte das espécies de árvores nativas, segundo um estudo publicado na revista Science Advances.

Essa perda de espécies é uma limitação importante da capacidade das florestas secundárias para reverter a perda de biodiversidade e deve ser levada em conta nas políticas públicas de conservação,  segundo os autores do artigo “Biodiversity recovery of Neotropical secondary forests”.

Para realizar a pesquisa, um grupo de 86 cientistas da América Latina, Estados Unidos e Europa mapeou árvores de 1.800 trechos de florestas tropicais em 56 regiões de 10 países latino-americanos. Os dados de campo de matas secundárias de diferentes idades foram comparados com os de florestas maduras bem conservadas nas áreas adjacentes.

De acordo com o estudo, quando uma área usada para a agropecuária é abandonada, o número original de espécies é totalmente restabelecido em cerca de 50 anos. A regeneração é bastante rápida: após apenas 20 anos de regeneração, o número de espécies na floresta secundária já chega a 80% do número original.

Mas, em sua maioria, as espécies que aparecem na nova floresta não correspondem às que existiam originalmente. Após duas décadas de regeneração, apenas 34% das espécies são as mesmas encontradas nas florestas antigas.

 

Perda do ambiente ideal

“Nosso estudo mostra que, quando se interrompe o uso da terra para a agropecuária, a floresta pode se regenerar com rapidez, com um número muito grande de espécies”, disse a Direto da Ciência um dos autores do estudo, Pedro Brancalion, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP).

“O problema é que as numerosas espécies que surgem nessa rápida recuperação não são as mesmas que encontramos nas matas mais conservadas. Muitas das espécies presentes nas florestas que têm centenas de anos são mais sensíveis às perturbações. E o ambiente ideal para seu desenvolvimento é mesmo o das florestas primárias. É importante levar isso em conta para entender as limitações das florestas secundárias na mitigação da perda de espécies no planeta”, explicou Brancalion.

Segundo o cientista, as florestas tropicais abrigam mais de 53 mil espécies de árvores, o que representa 96% da diversidade de árvores do mundo. Sabe-se que as florestas secundárias têm um papel importante para a recuperação da biodiversidade

As florestas tropicais são um imenso reservatório de espécies de árvores e, em sua maioria, elas são secundárias, que têm aumentado ano a ano, disse Brancalion. “No entanto, mesmo nas áreas onde temos aumento das florestas secundárias, continuamos perdendo as florestas primárias, especialmente aquelas que se situam em áreas consideradas boas para a agricultura”, informou o pesquisador.

 

Falsa equivalência

Uma das consequências dessa dinâmica, segundo Brancalion, é que as estatísticas sobre perda e regeneração de áreas de florestas podem dar uma impressão distorcida da realidade no que diz respeito à recuperação da biodiversidade. A respeito disso, ele afirmou:

O problema é que em geral os gestores públicos enxergam apenas a perda e ganho de áreas de florestas, pressupondo que elas são todas equivalentes. E não são. Nosso estudo mostra que, mesmo com a recuperação rápida e o grande número de espécies da floresta secundária, a remoção da floresta primária leva à perda repentina de muitas outras espécies.

Questionado sobre a relação do estudo com as práticas de compensação ambiental propostas em estudos de impacto ambiental, Brancalion afirmou:

Nosso estudo tem impacto direto nas políticas de compensação ambiental – nas quais áreas de vegetação nativa são recuperadas para compensar outras áreas desmatadas com autorização do poder público –, pois as espécies que se perdem em um lugar não necessariamente serão recuperadas em outro, implicando perdas diretas de biodiversidade. A política de compensação precisa ir além do paradigma de equivalência de área e considerar de forma mais objetiva a biodiversidade e serviços ecossistêmicos perdidos com o desmatamento de florestas maduras.

 

Rede de pesquisadores

Além de ajudar a entender como ocorre a recuperação da diversidade de árvores e como isso se compara às florestas mais conservadas, o estudo também avaliou como as variações ambientais interferem nesse processo. “Isso é importante para que possamos desenvolver modelos preditivos de onde a recuperação da floresta pode ser mais eficiente do ponto de vista da biodiversidade”, disse o cientista.

Os pesquisadores que fizeram parte do estudo formam uma rede internacional de ecólogos latino-americanos, norte-americanos e europeus, sob a liderança de cientistas da Universidade de Wageningen, na Holanda.

Por várias décadas, segundo Brancalion, muitos pesquisadores independentes da América Latina realizaram trabalhos de avaliação da regeneração de vegetação secundária a partir de amostras de florestas de diferentes idades. Mas são raros os estudos que mostram como a mesma mata se desenvolve ao longo do tempo.

“Esses diferentes pesquisadores realizaram inúmeros estudos e, quando surgiu a rede, todos esses dados foram agregados, de forma que pudemos ter uma visão de escala continental”, explicou Brancalion.

Na imagem acima, floresta secundária. Foto: Adam Ronan/Embrapa/Divulgação.

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