Sem reajuste há 6 anos, bolsas de pós-graduação estão fora da realidade

Bióloga estudante de mestrado estuda células de câncer de pele em laboratório da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Viçosa (MG). Na imagem, um microscópio invertido para estudo das células dentro do frasco. Foto: Mateus Fiqueiredo, sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International.

Comprometidos com dedicação exclusiva, mestrandos e doutorandos enfrentam dificuldades para se manter com valores que recebem.


FLAVIA CALÉ
especial para Direto da Ciência*

Entre os imensos desafios que o país precisa enfrentar, o de resgatar o papel da ciência e tecnologia como área estratégica para o desenvolvimento soberano da Nação talvez seja um dos mais importantes. Para fazê-lo será preciso enfrentar uma intensa disputa política.

Como se sabe, estamos imersos em uma crise econômica prolongada, com efeitos devastadores nas contas públicas que se refletem na insolvência de estados e municípios, no corte de salários e serviços públicos essenciais. Nesse contexto, a saída única apresentada pela equipe econômica do novo governo consiste em reduzir o déficit fiscal por meio do enxugamento da máquina, do corte em políticas sociais e direitos, desinvestimentos, privatizações e contingenciamentos ou cortes drásticos no orçamento de ministérios.

Obviamente, diante de tal quadro, fica mais difícil fazer o debate político sobre as prioridades estratégicas, sobre a urgência da recomposição de investimentos em ciência, tecnologia, pesquisa, inovação. Afinal, como convencer alguém que não tem como pagar as contas imediatas a não cortar da área cujo resultado é futuro? Pois é esse o desafio que precisa ser enfrentado.

É inadmissível que um país com as dimensões do Brasil naturalize a não realização de suas potencialidades, que aceite a “fuga de cérebros” brasileiros para desenvolver outras nações, que assista passivamente a carreira científica deixar de ser opção viável para as novas gerações. Tal escolha ou inação equivale a eternizar o subdesenvolvimento, tornando-o política de Estado.

A situação internacional aponta para uma guerra comercial entre EUA e China, que disputam o protagonismo global no próximo período. Está em andamento a chamada quarta revolução tecnológica, um salto gigantesco no sistema produtivo, que já está substituindo o trabalho humano em muitas áreas, criando novas e extinguindo antigas profissões, propiciando imensa acumulação de riquezas nos países dinâmicos e trazendo ameaças neocoloniais aos países periféricos.

A pergunta é: como vai se portar o Brasil diante disso? Buscaremos nosso lugar nesse cenário ou ficaremos inertes, esperando que as grandes potências decidam qual o nosso lugar no sistema de produção mundial? Sem valorizar a ciência, a pesquisa e o pesquisador, estaremos condenados à segunda opção.

 

Precarização e desestímulo

Estima-se que 90% da pesquisa científica nacional seja proveniente da pós-graduação. É um capital humano de alto nível, qualificado, que deveria ser valorizado. No entanto, as bolsas de mestrado e doutorado oferecidas no Brasil giram entre R$ 1.500 e R$ 2.200, respectivamente, e não são reajustadas há seis anos  –  é uma verdadeira calamidade.

Para efeitos de comparação, segundo dados disponíveis no Secovi, o aluguel de um apartamento de 50 m2 e um dormitório no centro de São Paulo fica em torno de R$ 1.400, sem contar o condomínio. A tarifa de ônibus custa R$ 4,30 a viagem, mesmo valor do metrô. O valor médio da refeição na capital paulista fica na faixa de R$ 30. Ou seja: o mestrando tem de escolher se mora, almoça ou se transporta com o recurso da bolsa, que é destinada para dedicação exclusiva.

À precarização, somam-se a estafa própria da rotina de pesquisa e as dificuldades posteriores de absorção no mercado, cada vez mais restrito diante das privatizações, da falta de investimentos para contratação de trabalhadores em institutos de pesquisa e universidades públicas e do baixo investimento da iniciativa privada em pesquisa e inovação.

A resultante é o desestímulo à carreira científica para muitos jovens, que acabam migrando para outras áreas. Outros tantos se veem obrigados a buscar oportunidades no exterior. Além de perdermos talentos, ainda financiamos indiretamente o incremento tecnológico de outros países, dos quais depois importaremos produtos de alto valor agregado.

Em busca de alternativas para essa situação, a Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG) lançou a campanha nacional Pelo Reajuste de Bolsas Já! A bolsa deveria ser compreendida como a remuneração de um trabalho de extrema relevância para o país e, como tal, precisaria ter uma política de reajuste anual de acordo com a variação da inflação, além da recuperação das perdas dos últimos seis anos em que ficou estagnada.

Não há desenvolvimento e redução de desigualdades que prescindam de ciência e tecnologia e, consequentemente, da pesquisa científica. Por isso, valorizar o pesquisador é condição precípua para uma reinserção soberana do país no mundo.

FLÁVIA CALÉ DA SILVA é mestranda em História Econômica na Universidade de São Paulo e presidenta da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG).

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, bióloga estudante de mestrado estuda células de câncer de pele em laboratório da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Viçosa (MG). Foto: Mateus Figueiredo, sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International.

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17 Comentários

  1. Rafael Morais said:

    Olá Flávia, parabéns pelo texto, levantou questões importantes a serem discutidas no projeto de Brasil que queremos desenvolver para o futuro. Fui bolsista de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doc, por isso conheço bem a importância do investimento no jovem pesquisador para o desenvolvimento regional e nacional. Embora concorde que as bolsas devem ser reajustadas para valores mais dignos, acredito que outro grande problema é a falta de inserção no mercado de trabalho após todo o investimento público em nós. Acredito que um grande passo para corrigir estes problema seria criar institutos de pesquisas especializados para resolução de problemas de utilidade pública, como desenvolvimento de vacinas para dengue e outras doenças, tratamento para cancêres mais comuns em nossa população, tecnologia agropecuária, novos compostos farmacêuticos com base em nosso rico bioma (já que temos uma das maiores riquezas naturais do mundo a ser pesquisada e desenvolvida), isso só na parte de biológicas. Seria interessante também profissionalizar o pesquisador, assim desde a pós-graduação poderíamos contribuir para previdência, ter 13° salário, férias, pagar impostos e ser reconhecido como profissional. De todo modo, temos que primeiramente votar em políticos que pensem a longo prazo e queiram criar um país melhor para as futuras gerações. Enfim, estes são meus pensamentos a respeito do assunto. Parabéns novamente pelo texto
    e continue assim! Um abraço! Rafael

    • Alexandre Valiatti Do Prado said:

      Mas esses centros de pesquisa já existem (FIOCRUZ, EMBRAPA, CETENE, BUTANTAN, INSA, INPA, etc…). Só que estão mal das pernas, alguns a 10 anos ou mais sem fazer concursos, como a EMBRAPA. Eles precisam ser fortalecidos para absorver a massa de mestres e doutores, só as universidades e institutos federais não dão conta de fazer isso.

      • Rafael Morais said:

        Exatamente Alexandre, esses centros de pesquisa já existem mas devem ser ampliados e extendidos para absorver os pesquisadores mais capazes. Como o governo está atolado em dívidas e não consegue investir, talvez a solução seja fazer parcerias com iniciativas privadas. Tanto as empresas quanto a sociedade podem ganhar com isso. Eu sei que é mais fácil apontar soluções do que ir lá e fazer, mas se não tentarmos algo novo estaremos fadados a ser eternos compradores de tecnologia de outros países, infelizmente.

        • Alexandre Valiatti Do Prado said:

          Concordo Rafael, a iniciativa privada poderia ajudar mais. O poder executivo diz que tá sem dinheiro, porém o mesmo parece não ocorrer com o judiciário. Qual o tribunal que passa mais de 10 anos sem fazer um concurso?

  2. Giovanni dos Santos said:

    Creio que o objetivo deva ser a priorização das ciências exatas e biológicas, o Japão recentemente promulgou uma lei onde praticamente extingue as bolsas para as ciências humanas. Aqui no Brasil as Humanidades sugam a maior parte do investimento publico na educação e em troca não agregam em nada no desenvolvimento do país, muito pelo contrario. Creio que o dialogo com o atual governo deva ser nesse tom, acredito que seria a maneira mais fácil de solucionar o problema.

    • Regiane said:

      Queria entender como você afirma que as Ciências Humanas “não agregam nada no desenvolvimento do país, pelo contrário”. Baseado em quê esse seu argumento? E como pode a maior parte do investimento na educação ser nas ciências humanas, como afirmastes acima, se estas não contribuem com nada? Caro colega, desfazer assim dos profissionais de humanas é muito medíocre! Sou professora, faço doutorado em Literatura e não concordo com sua afirmação porque a importância de uma coisa não suprime a importância de outra. O governo não quer investir na educação como um todo porque um povo que estuda e questiona não interessa a ninguém!

    • Sofia said:

      Não achei notícia nenhuma sobre isso.

      As ciências são diversas e cada uma tem sua importância. Crer que apenas as ciências exatas trazem desenvolvimento para o país é desconsiderar que somos uma sociedade humana acima de tudo, inclusive acima do sistema de governo que estamos imersos. Ciências humanas são imprescindíveis para o desenvolvimento humano, o bem estar social e para que tenhamos um futuro digno. Senão só nos restará ser engrenagens desse sistema que nos massacra.

  3. Gabriel said:

    Terminei meu doutorado a alguns meses em Curitiba e sempre acreditei que as bolsas são justas e até acima do necessário… esse discurso de desvaloriçao é muito exagerado, principalmente porque vi dezenas de colegas morarem no exterior por anos, laboratorios milionários e pesquisas milionarias (meu projeto foi financiado pela iniciativa privada) então acho que falta muita lógica em tudo isso que esta escrito e o mais importante, se você acredita que não esta sendo valorizado saia da faculdade e procure algo que te satisfaça.

    • Augusto Torres said:

      Gabriel, sua argumentação é falha por diversos motivos. Em primeiro lugar, um salário não reajustado nos últimos seis anos tem uma defasagem de 30%. Por exemplo, se a bolsa de mestrado federal (R$ 1.500,00) tivesse sido reajustada nesse periodo pelo índice IGP-M, hoje valeria R$ 2.067,21, e a de doutorado R$ 3.031,91. Você acha justo essa falta de reajuste? Talvez seja acima do necessário para quem mora com os pais ou com parentes, o que não é o caso da maioria dos alunos. Ou seja, os pontos do texto da Flavia Calé não são exagerados de forma alguma. Tenho família em Curitiba e seique o custo de vida não é baixo – pelo contrário. Laboratórios milionários certamente não são abundantes no Paraná, pois eu conheço a realidade das instituições de pesquisa paranaenses. Por fim, seu argumento final é muito cruel. Então os pesquisadores não tem direito de se sentirem desvalorizados? Como assim?

  4. Sandro Cabral said:

    O apoio e a valorização da Ciência, Pesquisa e Inovação, colocando-a como indispensável para o desenvolvimento e emancipação de um país e seu povo, foi um dos motivos pelos quais votei em Ciro Gomes.
    Em suas palestras, que boa parte do povo não se preocupou em assistir, ele cansou de falar sobre o assunto e do quão importante ele é para o país.
    Mas o povo preferiu eleger uma besta quadrada que deve achar que ciências é só uma matéria do ensino médio.
    Paciência, o país pagará um preço bem alto por isso.
    Quem sabe em 2022 o povo procure saber melhor sobre cada candidato.
    Eu continuarei apoiando quem dá o devido valor à Ciência ! #Ciro2022 !!!

  5. Dimas said:

    Muito bom e esclarecedor o texto. Sou bolsista de doutorado mas, diante da situação catastrófica que temos, com cortes de gastos e etc, corremos o risco de perder nossas bolsas, o que seria ainda pior. Essa é uma realidade que não pode ser descartada dada a política econômica deste governo. A essa altura, já nem luto pelo aumento no valor da bolsa, mas sim em não perdê-la. Abandonei meu emprego em uma escola particular para me dedicar ao doutorado. Então, que o aumento não venha. O que não podemos perder é a bolsa e deixemos os aumentos para mais tarde. Mas sou solidário àqueles que dependem dela para sobreviver. Não me sobra nada somando aluguel, comida, livros que tenho que adquirir e transporte. Minha família ainda tem que me ajudar. Mas imagina se cortam as bolsas? Daí sim estaremos perdidos. Abraços!!!

  6. Cícero Santos said:

    Fui mestrando em 2015 (ano de crise, inflação nas alturas) e morando no Recife (uma das cidades mais caras do país). Não sei como superei aquela fase.

  7. Adélcio Carlos de Oliveira said:

    E o governador de Minas, o Zema, cancelou todas bolsas de iniciação científica. São os ex alunos de iniciação que viram alunos de pós graduação.

  8. Mateus Figueiredo said:

    Obrigado pelos créditos na foto! Só um detalhe: meu nome é Mateus Figueiredo (e não Fiqueiredo, com Q, como está atualmente).

    • Maurício Tuffani said:

      Caro Mateus, agradeço pelo aviso e peço desculpas pelo erro de digitação. Feita a correção. Abraço!

      • Mateus Figueiredo said:

        Muito obrigado, Maurício! Obrigado por cobrirem esse tema tão importante!

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