Cientistas apontam ‘preconceito’ do CNPq na avaliação de projetos de pesquisa

Borboletas em poça de lama. Foto: Rahans, sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International.

Órgão federal não responde a carta de 44 estudiosos de comportamento animal que tiveram propostas rejeitadas na área de zoologia.


FÁBIO DE CASTRO

Desde o dia 13 de fevereiro o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) não responde a uma carta aberta de 44 cientistas que questionam os critérios dessa agência federal para avaliar seus projetos de pesquisa.

Os autores do manifesto são pesquisadores que estudam o comportamento animal, campo conhecido como etologia. Eles afirmam no documento que os critérios do Comitê de Assessoramento (CA) de Zoologia do CNPq para avaliar seus projetos de pesquisa “refletem uma visão enviesada e preconceituosa”, que tende a rejeitar propostas com foco em áreas como comportamento animal e conservação das espécies.

Encaminhada ao CNPq pela Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt), a carta aberta afirma que os critérios adotados pelo órgão favorecem outras áreas da zoologia, em especial os projetos relacionados à área da taxonomia. Segundo os signatários, há um viés que está impedindo pesquisadores da área de etologia de avançar no cenário acadêmico.

A carta, endereçada à Presidência do CNPq e à Coordenação do Programa de Pesquisa em Gestão de Ecossistemas do órgão, foi divulgada há seis semanas. Mas a SBEt afirma que até agora não recebeu nenhuma resposta do órgão.

O documento aponta que as propostas de estudos sobre comportamento animal têm sido repetidamente desenquadrados pelo comitê, especialmente na Chamada Universal e nos editais de Bolsa de Produtividade – duas das principais modalidades de fomento do CNPq.

 

‘Falta de aderência’

Nos pareceres do CA, a explicação para rejeitar os projetos sobre comportamento animal é de “falta de aderência” à área de zoologia. “O critério é totalmente subjetivo, uma vez que a área de comportamento animal faz parte do CA de Zoologia. A falta de aderência somente seria justificada caso o projeto não fosse pertinente à área de zoologia, o que não é o caso da etologia”, disse a Direto da Ciência a presidente da SBEt, Selene Nogueira.

“O que mais nos preocupa é a validade desta avaliação: pesquisadores com expressiva produtividade, tanto em quantidade quanto qualidade, estão sendo descartados do processo, o que prejudica a carreira dos mesmos e o desenvolvimento da ciência no país”, afirmou Selene.

Na carta, os signatários argumentam que muitos pesquisadores das áreas de comportamento animal e biologia da conservação, entre outras, têm suas propostas rejeitadas automaticamente apesar do “elevado perfil acadêmico”, o que “elimina uma boa parte da competição entre pares”, usando para isso ”critérios arbitrários e incoerentes que contrariam o exposto nos editais.”

 

Definição divergente

Para Fausto Nomura, pesquisador do Departamento de Ecologia da Universidade Federal de Goiás, o problema revela que pode haver uma divergência na própria definição de zoologia adotada por pesquisadores e pelo CNPq.

“Pela frequência do uso desse critério de ‘não aderência’ para desqualificar propostas, não me parece que a comunidade científica e o comitê têm a mesma visão do que é zoologia”, disse Nomura, que estuda ecologia comportamental e é um dos signatários da carta.

A divergência, segundo Nomura, parece clara quando o comitê desclassifica, por exemplo, propostas sobre comportamento animal que não envolvem aspectos evolutivos.

“Se nem comportamento animal, que é listado como sub-área de zoologia pelo próprio CNPq, é considerado zoologia, isso dá a entender que o comitê está restringindo o entendimento às áreas de taxonomia, sistemática e filogenia. Restringir o perfil da pesquisa ou do pesquisador em editais que são ditos Universais não parece fazer muito sentido.”

Para Nomura, uma possível solução para o problema pode ser a realização de uma etapa prévia de enquadramento das propostas. “Se o comitê considera que a proposta não é de zoologia, deveria encaminhar ao comitê adequado e não simplesmente desclassificar a proposta.”

Questionados por Direto da Ciência, a direção do CNPq e a Coordenação do Programa de Pesquisa em Gestão de Ecossistemas do órgão não responderam até o fechamento desta reportagem.

Confira a carta aberta dos 44 pesquisadores encaminhada pela Sociedade Brasileira de Etologia (SBEt) ao CNPq.

Na imagem acima, borboletas em poça de lama. Foto: Rahans, sob licença Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International.

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4 Comentários

  1. Osmar said:

    Mestrado e doutorado em zoologia, pesquisador com bolsa PD na área de zoologia há mais de 20 anos, com mais de uma centena de artigos, tive minha bolsa denegada, inclusive o pedido de reconsideração, por falta de aderência na área. Ainda não acreditando no resultado.

  2. Wanderley Dantás dos Santos said:

    Sou pesquisador na área de botânica. Minha bolsa produtividade e meu projeto submetido ao edital universal do CNPq foram avaliados como tendo mérito científico, mas também descartados por falta de aderência, porque envolvem epigenética.. Interessantemente, ambos pretendem promover avanços em resultados de projetos que já haviam sido contemplados anteriormente tanto no edital universal quanto na bolsa produtividade na mesma área. Além disso, geraram patente, investimentos privados e um crescimento significativo no número de orientações e qualidade de minhas publicações. Meu “prêmio” por minha pesquisa em botânica gerar uma tecnologia foi ser excluído da botânica ficando sem bolsa e sem financiamento. Algo precisa mudar.

  3. otavio augusto vuolo marques said:

    Sou um dos que teve a bolsa negada. Sou bolsista do CNPq há quase 20 anos e sempre submeti projeto similar de história natural, que sempre foi aceito. Minha bolsa sempre foi renovada! Meu currículo está acessível para que quiser examinar. Nesse pedido recusado tive três pareceres altamente positivos, recomendando a concessão da bolsa! Mas o comitê alegou a tal falta de aderência! No meu caso é pior, porque minha área (história natural) nunca esteve como subárea. Assim, sempre assinalei “comportamento animal” (já que estudos de história natural incluem comportamento) . Todos comitês anteriores aceitaram sem qualquer problema! O CNPq está anunciando que os pedidos de reconsideração serão avaliados até 30 de abril. Eu espero que o CNPq reconheça o equivoco e contemple aqueles que têm mérito científico. Porém, como vão fazer? Obter mais verba para bolsas? Afinal a verba já foi destinada!

    • Eliane Ayres said:

      Também era e da área de engenharia de materiais. Também não me responderam. Aliás acho que nem lêem. No meu caso o projeto passou por dois consultores ad hoc que avaliaram como excelente. Resultado final: reprovado!

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