Presidente do ICMBio se demite após Salles ameaçar processar agentes

Pronunciamento intimidatório em reunião com ruralistas foi ‘gota d’água’ para saída, afirmou funcionário do MMA.


MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Segunda-feira, 15 de abril de 2019, 18h59.

Sem completar três meses no cargo, o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Adalberto Eberhard, pediu exoneração nesta segunda-feira (15) alegando “motivos pessoais” em ofício ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A decisão foi tomada dois dias após Eberhard ter presenciado o ministro, em uma reunião com ruralistas na cidade de Tavares (RS), ter afirmado que instauraria processo administrativo contra servidores do órgão por eles não terem comparecido ao encontro.

Confira o pedido de exoneração do presidente do ICMBio, Adalberto Eberhard.

Ao lado do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), presidente da Frente Nacional da Agropecuária, e do senador Luis Carlos Heinze (PP-RS), também ruralista, Salles é mostrado nessa reunião, afirmando:

Vocês vêm a diferença de mudança de atitude: “tá” aqui o presidente do ICMBio, Adalberto Eberhard, que, embora seja um ambientalista histórico, uma pessoa respeitada no setor, é uma pessoa que veio aqui ouvir a opinião de todos vocês, ouvir as experiências. E, na presença do ministro do Meio Ambiente e do presidente do ICMBio, não há nenhum funcionário aqui.

Sob aplausos da plateia, o ministro continuou:

Eu determino a abertura de processo administrativo disciplinar contra todos os funcionários por desrespeito à figura do ministro, do presidente do ICMBio e do povo do Rio Grande do Sul com essa atitude. O momento da perseguição às pessoas de bem neste País acabou. Foi com a eleição de nosso presidente, Jair Bolsonaro. Com restabelecimento da segurança jurídica, do devido processo legal, do respeito a quem produz e quem trabalha, nós vamos recolocar o Brasil no caminho certo.

Saída esperada

Vários cargos de direção e de assessoramento superior do ICMBio estão vagos desde o início do ano. Eberhard, que no final do ano passado trabalhou na equipe de transição que finalizou a proposta de gestão para Meio Ambiente para o então presidente Jair Bolsonaro, sabe que o governo trabalha com a ideia de fundir o ICMBio com o Ibama.

A saída de Eberhard era esperada por ambientalistas e foi se tornando mais previsível após a ingerência de Salles no Ibama para a liberação de leilões para exploração de petróleo na região marítima de Abrolhos. “Foi a gota d’água”, disse, referindo-se ao pronunciamento de Salles no evento na cidade gaúcha, um funcionário do Ministério do Meio Ambiente (MMA) sob condição de anonimato.

Veterinário pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele fundou em 1989 a Fundação Ecotrópica e foi diretor do Departamento de Zoneamento Territorial do MMA de 2011 a 2016 e diretor da Fundação de Desenvolvimento do Pantanal.

Durante sua gestão, a Ecotrópica ganhou os prêmios Henry Ford de Conservação Ambiental 1998, Unesco 2000, Von Martius e o Mundial de Meio Ambiente recebido em Toronto no Canadá em 2007.

Direto da Ciência não conseguiu contato com o ministro Ricardo Salles nem com Adalberto Eberhard.

Na imagem acima, o presidente demissionário do ICMBio, Adalberto Eberhard. Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados.

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