A agricultura brasileira e seu perigoso vício por agrotóxicos

Base de dados dos 152 produtos liberados nos 100 primeiros dias do atual governo mostra o Brasil como lixeira química de produtos indesejados no resto do mundo.

MARCOS PEDLOWSKI,
especial para Direto da Ciência.*
Quarta-feira, 17 de abril de 2019, 6h54.

Tivemos recentemente a notícia da liberação de 152 agrotóxicos nos primeiros cem dias do atual governo. Como venho estudando o uso desses produtos na agricultura brasileira há quase duas décadas, essa avalanche de autorizações me levou a acessar atos e registros governamentais dos respectivos processos de aprovação. Desse modo, construí uma base de dados sobre esses 152 compostos. E com ela foi possível tirar conclusões interessantes.

Nestas últimas duas décadas, nosso país se tornou não só o maior consumidor global de agrotóxicos, mas também o destino derradeiro de muitas substâncias já banidas em outras partes do mundo por suas conhecidas relações com o desenvolvimento de doenças graves, inclusive diversos tipos de câncer, a começar pelo Linfoma de Não-Hodgkin.

Um fato pouco conhecido sobre a incorporação dos agrotóxicos na produção agrícola é que estas substâncias foram inicialmente utilizadas nas duas grandes guerras, inicialmente como ferramentas de extermínio de tropas inimigas. Ao final da Segunda Guerra Mundial, o estoque de substâncias não utilizadas terminou sendo introduzido para o controle de ervas e organismos tido como problemas para a produção agrícola. Como força hegemônica nascida no pós-guerra, os EUA se impuseram como líderes de um modelo agrícola ancorado numa lógica teoricamente mais racional, a chamada Revolução Verde, na qual agrotóxicos e fertilizantes sintéticos se tornaram peças-chaves para alcançar maior produtividade, ainda que com inéditos prejuízos sobre solos, águas e organismos vivos.

Outra consequência do crescente uso de agrotóxicos tem sido a contaminação dos alimentos produzidos pelos sistemas desenvolvidos a partir da Revolução Verde. Essa contaminação tem sido relacionada com múltiplos tipos de doenças, já que os alimentos passaram a conter resíduos de diversos tipos de agrotóxicos utilizados ao longo do seu período de crescimento. No caso brasileiro, estudos realizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apontaram consistentemente a presença desses compostos em níveis alarmantes em hortaliças como pimentão, morango, mamão, tomate e, desaconselhando seu consumo frequente.

Mais problemática é a situação das culturas para exportação, como as de soja e milho, que também são usadas para produzir óleos e sucos para o mercado, pois a quantidade de resíduos de agrotóxicos que o Brasil adota é muito mais tolerante que em outras partes do mundo, o que termina por colocar mais itens contaminados na mesa dos brasileiros sem que as pessoas sequer estejam conscientes de que estão ingerindo esses venenos agrícolas.

 

Liberação acelerada

Essa situação, que já era preocupante, agora está extrapolando todos os limites anteriores. Isso se deve à política de liberação em rápida velocidade de novos agrotóxicos, adotada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A titular da pasta, ministra Tereza Cristina , até recentemente deputada (DEM/MS) e presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), foi responsável pelas tratativas para aprovar em uma comissão especial o Projeto de Lei nº 6.299/2002, popularmente conhecido como “Pacote do Veneno”. Se ele for aprovado no Legislativo e sancionado, tornará a legislação brasileira ainda mais permissiva com a liberação e o uso de agrotóxicos no Brasil.

Apesar de não ter conseguido concluir a tramitação do PL 6.299/2002, a ministra Tereza Cristina vem trabalhando muito para aplicá-lo na prática. Assim, ao contrário de outros ministérios onde as coisas ainda estão em ritmo lento, o Mapa promoveu a liberação desenfreada dos tais 152 agrotóxicos nos primeiros 100 dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), a uma média de 1,5 liberação por dia.

Com a base de dados sobre esses 152 compostos em mãos, comecei por examinar o nível de toxicidade de cada um deles, e verifiquei uma forte incidência de produtos classificados como extremamente ou altamente tóxicos para a saúde humana (44% do total) ou extremamente ou altamente perigosos para o meio ambiente (54% do total). Essa frequência de compostos nos níveis mais tóxicos desmente o discurso oficial de que a velocidade adotada visaria remover substâncias ultrapassadas e mais tóxicas do mercado.

De fato, o que foi feito foi aprovar para comercialização substâncias banidas em outras partes do mundo, transformando o Brasil em uma espécie de lixeira química onde agrotóxicos indesejados pelo resto do mundo são despejados. Um exemplo de produto banido e que continuará sendo legalmente vendido no Brasil é o acefato, que teve seu uso proibido na União Europeia após ter sido determinado seu potencial cancerígeno.

 

Dependência da China

Outra variável que me pareceu reveladora é a que se refere aos países onde são fabricados os chamados produtos técnicos de cada agrotóxico. Os dados deixam patente que o Brasil depende da China não apenas para consumir parte significativa de sua produção agrícola, mas também para obter os agrotóxicos com os quais se viabilizam as grandes monoculturas que hoje dominam a paisagem rural brasileira. Essa dualidade torna ainda mais incoerentes os discursos do governo Bolsonaro em torno da diminuição da dependência brasileira em relação ao papel desempenhado pelos chineses na sustentação da balança comercial brasileira.

Sou de opinião que toda essa volúpia em liberar agrotóxicos banidos em outras partes do mundo ainda trará consequências drásticas para a exportação de commodities agrícolas brasileiras. Confrontados com altos níveis de resíduos de agrotóxicos que estão com uso restrito ou banido em suas próprias fronteiras, nossos parceiros comerciais não terão outra saída a não ser impor um cordão sanitário contra os produtos brasileiros.

Certamente não será um caso solitário o anúncio, feito pelo Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) em 31 de janeiro, de que poderá suspender a importação de soja brasileira em função dos níveis presentes herbicida glifosato. Outros países possuem limites ainda mais restritos para a presença de resíduos de agrotóxicos do que os estipulados pelos russos. E, voltando aos chineses, também não será surpreendente se fizerem exigência semelhante à dos russos, ainda que sejam a fonte originária de parte significativa do glifosato que é despejado nas monoculturas de soja.

Desta forma, se não for pelo cuidado com a saúde dos brasileiros ou com a condição ambiental de nossos ecossistemas e biomas, que pelo menos o zelo com a balança comercial gere providências urgentes para diminuir essa dependência exacerbada em relação ao uso de agrotóxicos. Do contrário, ficaremos em nossas mãos não apenas com milhões de enfermos e ecossistemas contaminados, mas também com produtos que ninguém irá comprar.

Confira a tabela dos 152 agrotóxicos liberados nos 100 primeiros dias do governo de Jair Bolsonaro.

MARCOS PEDLOWSKI é geógrafo e professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), onde atua no Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico. É pesquisador colaborador externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa, onde realiza pesquisas sobre biofertilização e bioremediação de solos contaminados por agrotóxicos.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, pulverização de herbicida em cultura de arroz. Foto: Pixabay.

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3 Comentários

  1. Carlos de Souza said:

    Duro é entender como essa “banheira química”, ano após ano, continua respondendo, sozinha, por quase metade das exportações brasileiras, ajudando a botar comida nas mesas não só dos nativos, como de chineses, europeus, americanos, japoneses (nossos principais compradores), além de milhões de pessoas no resto do mundo. E gostem ou não os defensores dos orgânicos, fato é ser impossível produzir tanto se o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas, os quais aprendemos desde cedo a chamar de “agrotóxicos”. E quanto ao glifosato, por anos apontado como o master blaster vilão da agricultura, a Anvisa, depois de 11 anos de estudos, concluiu, em fevereiro deste ano, que o produto não só não mata, como também não causa danos graves à saúde humana como câncer, mutações genéticas, malformação fetal e não é tóxico para a reprodução. Considerando que o atual governo assumiu em janeiro, parece ser afirmar que tal conclusão foi manipulada pela nova administração federal. Que bom que a ciência serve não só para fazer alertas, mas também para desfazer mitos. E olha que eles caem a todo instante.

  2. Idir Canzi said:

    Muito esclarecedor o artigo! É preciso continuar a denunciar essa pouca vergonha do uso desenfreado de agrotóxicos!
    Parabéns pelo artigo!

  3. Pingback: Ciência e tecnologia, edição 233 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

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