A escolha de Salles para o ICMBio e o lança-chamas de Bolsonaro

Comandante da Polícia Ambiental de São Paulo tem formação humanística influenciada pela obra do educador Paulo Freire.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Sexta-feira, 19 de abril de 2019, 11h39.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, precisou apagar o incêndio de mais uma crise gerada por ele mesmo. Após decidir retaliar servidores do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio) com processo administrativo por não terem ido a um evento em Tavares (RS), ele recebeu o pedido de demissão de Adalberto Eberhard, presidente do órgão, que se indignou com a ameaça. Para diminuir a temperatura da crise, o ministro convidou para ser o novo presidente do instituto o coronel PM Homero de Giorge Cerqueira, atual comandante da Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo.

O problema é que o “extintor de incêndio” de Salles pode ter de enfrentar um outro fogo, dessa vez vindo de cima. Cerqueira é doutor em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e sua formação teve grande influência, entre outros pensadores, do educador Paulo Freire (1921-1977). Em abril do ano passado, ao ser questionado sobre quem escolheria para chefiar o Ministério da Educação, o então pré-candidato Jair Bolsonaro afirmou: “Tem de ser alguém que chegue com um lança-chama e toque fogo no Paulo Freire”.

Nascido em Recife, Freire criou um método de alfabetização com foco no desenvolvimento da consciência crítica do aluno e tendo como ponto de partida o universo vocabular referente às condições de vida das pessoas. Preso duas vezes após o golpe de 1964 e exilado no mesmo ano, Freire liderou no governo de João Goulart (1961-1964) o Programa Nacional de Alfabetização baseado em seu trabalho em Angicos, no Rio Grande do Norte, que havia obtido amplo reconhecimento fora do Brasil.

Passadas mais de cinco décadas desde essa experiência pedagógica de reputação internacional, o educador pernambucano passou a ser frequentemente hostilizado em seu próprio país pela onda reacionária em ascensão desde a campanha eleitoral do ano passado. Um dos principais mentores desses ataques tem sido o escritor Olavo de Carvalho, que é considerado o “guru” do clã Bolsonaro.

Em sua tese de doutoramento, Cerqueira visa “contribuir para uma mudança da Academia de Polícia Militar do Barro Branco propondo um conteúdo mais humanizado e globalizado, afastando-a de seus modelos originais (que privilegiam a prisão e o quartel) e enfatizando a formação do oficial como profissional cidadão”.

Em contato por telefone na manhã de ontem, quinta-feira (18), questionei Cerqueira sobre se ele prevê enfrentar dificuldades com o governo Bolsonaro por sua vinculação intelectual ao trabalho de Paulo Freire, se for nomeado para o ICMBio. Bem articulado em suas respostas, ele enfatizou que por enquanto foi apenas indicado para a presidência do instituto pelo ministro Salles e, como o trabalho do célebre educador diz respeito ao MEC e não ao MMA, ele afirmou preferir não comentar o assunto.

 

Militarização do MMA

Apesar do perfil “humanizado” do comandante da Polícia Ambiental paulista, conforme destacou a Rede Brasil Atual, seu nome é o mais recente do processo de militarização a que Salles está submetendo o MMA. Conforme reportagem do Estadão nesta sexta-feira (19),

Do alto escalão do Ministério do Meio Ambiente (MMA) até as diretorias do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), postos-chave estão agora sob a tutela de oficiais das Forças Armadas e da Polícia Militar. A orientação dada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro e levada a cabo pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é a de acabar com o “arcabouço ideológico” no setor. Já são pelo menos 12 militares.

Na quarta-feira (17), em transmissão dentro do Palácio do Planalto ao vivo pelas redes sociais, Bolsonaro, ao lado de Luiz Antonio Nabhan Garcia, ruralista e Secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, retomou os tons mais ameaçadores de sua campanha eleitoral, atacando agentes do Ibama. Referindo-se a agentes do órgão, o presidente afirmou que “junto com o [Ricardo] Salles, nosso ministro do Meio Ambiente, tomamos providências para substituir esse tipo de gente”.

No início da noite de ontem, em sua transmissão semanal ao vivo, Bolsonaro afirmou, referindo-se ao que chama de “aparelhamento ideológico”, que o Ibama é “muito mais aparelhado do que o Ministério da Educação” (vídeo no YouTube aos 9 minutos).

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Na imagem acima, o coronel PM Homero de Giorge Cerqueira, atual comandante da Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo. Foto: Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo/Divulgação.

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