Revista de artigo autoplagiado por ministro da Educação ‘desaparece’ da web

Padrões internacionais de editoração acadêmica prevêem “despublicação” de artigos em casos de autoplágio.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Sábado, 20 de abril de 2019, 7h37.

No dia seguinte à reportagem “Ministro da Educação se autoplagiou com artigo em periódicos acadêmicos”, de Direto da Ciência, o site da Revista Brasileira de Previdência entrou em aparente colapso. Mostrando apenas seus cabeçalhos, suas páginas ficaram em branco ou com conteúdos desformatados, impedindo o acesso a um artigo do atual ministro da Educação, Abraham Weintraub, que foi veiculado também pela Revista Chilena de Derecho del Trabajo y de la Seguridad Social.

Pelo fato de nenhum dos dois textos indicar o outro como referência, essa forma de dupla publicação é considerada pela comunidade acadêmica como autoplágio.

Na página de sua política editorial, que não está mais acessível, a publicação brasileira afirmava seguir as diretrizes da Comissão de Integridade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Desde 2012 a comissão define o autoplágio como a prática que “consiste na apresentação total ou parcial de textos já publicados pelo mesmo autor, sem as devidas referências aos trabalhos anteriores”.

Vinculado à Universidade do Chile, o periódico afirma adotar padrões internacionais, como as do Código de Conduta e Diretrizes de Boas Práticas para Editores de Periódicos do Comitê de Ética na Publicação (Cope), que tem normas específicas para casos de dupla publicação, prevendo inclusive retratação, ou seja, “despublicar” o artigo. A mesma medida é prevista pelas diretrizes da Comissão de Ética na Pesquisa do CNPq.

Apesar da pane no site da revista brasileira desde o dia 11, ainda pode ser acessado no repositório Internet Archive o artigo de Weintraub “A Bela Adormecida: 20 anos depois, o processo inflacionário está em vias de ressurgir. Qual [sic] a dinâmica e as consequências desse movimento para a previdência no Brasil”.

 

Vínculo com a Unifesp

Até o dia 10, quando ainda estava acessível, o site da revista brasileira não indicava vinculação a nenhuma instituição acadêmica. Mas a edição nº 5, de novembro de 2016, que contém o artigo duplicado, havia sido publicada na íntegra em um artigo PDF no domínio da Unifesp. Essa versão apresenta em sua primeira página o logotipo da universidade e, em sua página 2, informa: “Revista Brasileira de Previdência é uma publicação digital e gratuita dos Cursos de Atuária e de Contabilidade da UNIFESP em conjunto com o Curso de Direito da Universidade de Milão – UNIMI”.

Weintraub é professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), assim como seu irmão Arthur Weintraub, que constava como editor-adjunto da Revista Brasileira de Previdência no site da publicação e é assessor-chefe adjunto da assessoria especial do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Questionada por Direto da Ciência, a Unifesp havia respondido que cabe a cada editor “a inteira responsabilidade por manter e zelar por aspectos éticos da transparência editorial. A Unifesp não interfere nesse processo”. E acrescentou: “apesar de o artigo ter sido publicado em duas revistas distintas, a acusação de autoplágio depende da política explícita nas instruções aos autores das Revistas em suas regras”.

Dias depois, a Folha de S.Paulo entrevistou Bruno Comparato, coordenador da Comissão Institucional de Integridade Acadêmica da Unifesp. “Não é algo honesto do ponto de vista científico e vai contra a razão de ser da universidade, que é produzir conhecimento”, disse Comparato referindo-se ao autoplágio, acrescentando que a discussão sobre esse tipo de prática é “delicada e nova na academia” (Gabriel Alves, “Ministro da Educação publicou mesmo artigo em duas revistas”Folha, 16/abr).

Sem responder se Weintraub teria informado ou não sobre a não originalidade de seu texto, Claudio Palavecino, editor da Revista Chilena de Derecho del Trabajo y la Seguridad Social afirmou a Direto da Ciência que a seção Estudos, a principal do periódico, “publica artigos científicos originais e inéditos previamente submetidos à arbitragem cega por revisores”. E acrescentou que o texto do atual ministro brasileiro foi publicado em outra seção, denominada Ensaios e documentos. “Nesta seção da revista publicamos trabalhos que nosso Comitê Editorial considera de interesse, mas que não se qualificam na primeira seção”, disse Palavecino.

Direto da Ciência continua no aguardo de respostas do ministro da Educação e dos editores da Revista Brasileira de Previdência.

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Na imagem acima, o novo ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub. Foto: Rafael Carvalho/Casa Civil/Divulgação.

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