Festival mundial de divulgação científica cresce no Brasil, apesar da crise

Pint of Science Brasil chega à 4ª edição em 85 cidades nos dias 20, 21 e 22 de maio e se torna a maior edição mundial.

DIREÇÃO DO PINT OF SCIENCE BRASIL,
especial para Direto da Ciência.*
Sábado, 18 de maio de 2019, 6h38.

Não é de hoje que a ciência e a educação sofrem contingenciamentos e cortes de recursos no Brasil. Atrasos nos pagamentos de bolsas se tornaram tão corriqueiros que estudantes de pós-graduação já sabem que pagarão suas contas com multas. Diferentemente do que pensam algumas pessoas, o Brasil tem uma ciência de qualidade. Poderia ser melhor? Claro, sempre pode, mas diante do cenário caótico, com sistema moroso de compras de insumos e o excesso de burocracia, até que estamos bem.

Agências de fomento e governo – e os próprios ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia – agregam diversos dados para obterem uma visão global do sistema no qual as pesquisas estão incluídas. Devido ao modo de funcionamento da pesquisa básica, esta é a primeira a sofrer com os cortes. Ainda que seja um “bloqueio preventivo”, as consequências afetam toda a cadeia de pesquisa, do bolsista ao orientador, incluindo as cooperações internacionais.

O funcionamento da área acadêmica e de pesquisas no Brasil não é de conhecimento de toda a população; exatamente por isso, é imprescindível que os cientistas conversem com a população não acadêmica e que esta se sinta parte das pesquisas que são feitas no país.

 

Fora dos muros

Da mesma forma que gigantes como a ABC (Academia Brasileira de Ciências) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que surgiram a partir de conversas informais entre cientistas, o Pint of Science nasceu da necessidade de levar a ciência para fora dos muros da academia, e hoje faz parte do calendário da ciência nacional e mundial.

Neste ano, 24 países sediarão o maior festival simultâneo de divulgação científica do mundo e, no Brasil, 85 cidades fazem parte da iniciativa. A fórmula do sucesso, de apresentar a ciência em um bate-papo, num local descontraído, fez o evento crescer exponencialmente.

A importância desse contato público com a ciência é cada vez mais importante. De acordo com pesquisa do Datafolha realizada para o Instituto Questão de Ciência (IQC), 90% da população aceita, pelo menos em parte, que a mudança climática é real e causada pela atividade humana; 97% concordam plenamente ou em parte que é importante tomar vacina e de ser imunizado contra doenças infecciosas. Contudo, 66% dos entrevistados acreditam no poder de cura da “energia espiritual”.

Acreditamos que é importante criar um canal para que os cientistas possam divulgar suas pesquisas, algo bem diferente de escrever um artigo científico. O artigo ainda é a forma mais comum de avaliação de um candidato na entrada em uma universidade via concurso e é item de avaliação de agências de fomento, mas eles atingem os pares – outros cientistas – e não a população, que paga impostos e subsidia a pesquisa no país.

 

Início em 2012

Foi com base na importância de levar o conhecimento para a sociedade que Michael Motskin e Praveen Paul perceberam, em 2012, o grande interesse da população pela ciência. Nas grandes Universidades britânicas existe um departamento – geralmente o de cultura – que auxilia pesquisadores a “traduzir” suas pesquisas para a população. Após algum treino, prática e um pouco de boa vontade, qualquer cientista é capaz de explicar os resultados de seu projeto para o pessoal do laboratório, para o grupo da família e até para crianças.

Presente neste ano também numa padaria e num espaço cultural, o carro-chefe do Pint ainda é o bar. A socialização não precisa ser regada a cerveja, mas o ambiente descontraído é o que faz a ciência ganhar espaço e o público se aproximar dos cientistas, quebrando a barreira.

Essa mudança de paradigma pode assustar alguns pesquisadores: quando as perguntas vêm de fora da academia, elas são de todos os tipos. O desafio aqui é mostrar para todos, para quem serve nosso pão com café na padaria e para os colegas de outra áreas, sem jargões ou termos técnicos, o tipo de pesquisa que fazemos, o que a descoberta daquela molécula significa. Nessa hora não adianta apelar para aquela velha apresentação de PowerPoint — é olho no olho, de igual pra igual, e é preciso ser mais interessante do que o chopp, o celular e a batata frita.

Todos os palestrantes convidados são cuidadosamente selecionados para deixar o evento diverso, rico e divertido.

Em 2015 o Pint chegou ao Brasil como um projeto-piloto na cidade de São Carlos e em 2016 já estava em sete capitais. Em 2017 foram 22 cidades participantes; no ano seguinte, 56. Neste ano o evento estará em 85 cidades com cerca de 250 estabelecimentos participantes, mais de 650 atividades e 1.200 cientistas.

O crescimento do Pint of Science é a prova de que o brasileiro tem sede de ciência e os pesquisadores têm interesse em conversar com a população, apesar do cenário desfavorável para a ciência e para a educação.

Fica o convite: acesse o site do evento, escolha algum bar em uma das 85 cidades, celebre a ciência e descubra o que ela tem de melhor.

Confira a programação do Pint of Science Brasil 2019.


* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Imagem acima: Pint of Science Brasil/Divulgação.

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