Sem floresta, sem produção rural: simples como dois mais dois são quatro

Como podemos tomar qualquer ação, a não ser lutar para que a lei florestal seja completamente implementada e seguida?

ANDRÉ GUIMARÃES,
especial para Direto da Ciência.*
Terça-feira, 28 de maio de 2019, 6h19.

É muito simples: sem floresta, sem chuva; sem chuva, sem produção rural e um quarto do PIB brasileiro fica comprometido. Sem água, não há energia. Sem floresta, não há clima estável, ar limpo e alimento. Então como podemos tomar qualquer ação, a não ser lutar para que a lei florestal seja completamente implementada e seguida?

O Brasil tem um Código Florestal desde 1934, aprimorado e transformado ao longo das décadas seguintes. A última versão, de 2012, contemplou uma série de pedidos do setor agropecuário e foi além, criando pela primeira vez mecanismos financeiros que privilegiam o produtor rural que preserva floresta.

Contudo, mal começou o ano e há iniciativas em discussão em Brasília que buscam enfraquecer a lei ambiental. É o que vemos acontecer ano após ano, governo após governo, legislatura após legislatura. É impressionante que, frente a todo conhecimento que hoje temos sobre o quanto nossa economia e nosso bem-estar dependem das florestas, isso ainda ocorra.

Se o país tem um Código Florestal é porque ele guarda o verde da nossa bandeira, por motivos que vão muito além da beleza cênica. Quem quer derrubá-lo o chama de “jabuticaba”, uma peça jurídica existente só aqui, como se o termo fosse depreciativo. Pois segue uma verdade: se temos uma lei específica que cuida das florestas do Brasil é porque o Brasil assim precisa.

Nós somos diferentes do restante do mundo. Grande parte de nossa pujança econômica está largamente baseada em recursos naturais e com alta dependência das chuvas produzidas pelas árvores – mais de 90% da nossa agricultura não é irrigada, e 73% da energia elétrica que alimenta casas, indústria e a agricultura vem da chuva.

Não podemos nos dar ao luxo de seguir o mau exemplo dos países que acabaram com suas florestas no passado e hoje correm atrás do prejuízo. Seria um tiro no pé sair derrubando e queimando tudo pela frente, ignorando o papel da mata e o serviço prestado por ela pelo bem-estar de todos, desta geração e das próximas. Acabar com as florestas não vai trazer desenvolvimento, e sim o contrário.

Se o Código Florestal é uma jabuticaba, que ela seja valorizada. Se a energia dispendida por alguns políticos em miná-lo fosse revertida para avançar sua implementação, todos já estariam ganhando – inclusive pela conservação de ativos ambientais e pela exploração de produtos florestais, o que significa mais dinheiro no bolso do produtor, além da manutenção do negócio.

Eu poderia encher este texto de referências científicas para balizar o primeiro parágrafo. Mas vou citar apenas uma: pesquisa publicada em 2015 mostrou que a temperatura em áreas com monocultura e pasto em Mato Grosso pode ser até 6ºC mais alta do que dentro da floresta que fica exatamente do lado. É mais seco também. Sem essa mata, não haveria chuva em abundância para irrigar a produção ao redor, que seria bem mais difícil e custosa, se não inviável.

Não dá para ser mais claro do que isso.

ANDRÉ GUIMARÃES, agrônomo, é diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e cofacilitador da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Leia também: “Pronta para votação, MP foi distorcida por deputados para anistiar desmatadores”.


* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, o reservatório de Sobradinho, em Remanso (BA), em dezembro de 2015, na maior seca de sua história com a falta de chuva na nascente do Rio São Francisco. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil.

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