A metodologia científica do ministro Osmar Terra: o rolezinho

A quem interessa desqualificar a pesquisa da Fiocruz que nega a existência de uma epidemia do uso de drogas no Brasil?

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quarta-feira, 29 de maio de 2019, 19h54.

O ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB), acaba de fortalecer com uma nova metodologia científica o vigoroso desafio anticiência e negacionista do governo do presidente Jair Bolsonaro. A inovação veio em boa hora. Faltava fundamentação teórica para essa frente de combate do bolsonarismo, que vem sendo enfrentada brava e empiricamente por Ernesto Araújo, Abraham Weintraub, Damares Alves, Ricardo Salles e pelo próprio presidente. Já se mostrava esgotada a esperança de apoio filosófico pelas reflexões de Olavo de Carvalho, que têm sido dedicadas ao campo da escatologia.

Eu estava à procura, desde hoje cedo, de um nome para essa metodologia inovadora. Devido à minha deformação intelectual no ambiente gramscista-darwinista-climatista-globalista-uspiano, minha busca certamente acabaria em alguma coisa sem graça, como “perambulacão  refutatória” ou “refutacionismo peripatético”. Nesta tarde, em meio a uma rápida zapeada na TV, tive a sorte de ver no Estúdio I, da Globo News, o comentarista Otávio Guedes se referir ao “rolezinho do ministro”. É isso! Obrigado, Guedes!

A refutacão da validade de uma pesquisa científica por meio do rolezinho metodológico foi noticiada ontem pelo jornal O Globo. A reportagem “Ministro ataca Fiocruz e diz que ‘não confia’ em estudo sobre drogas, engavetado pelo governo”, a jornalista Audrey Furlaneto apresentou as reflexões do ministro Osmar Terra sobre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e seu estudo 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira.

Segue um trecho dessa mudança de paradigma metodológico que não só demoliu o estudo realizado durante três anos, envolvendo 16 mil entrevistas e 500 pesquisadores a um custo de cerca de R$ 7 milhões, mas também apontou na Fiocruz “viés ideológico para liberar drogas”.

Eu não confio nas pesquisas da Fiocruz. Se tu falares para as mães desses meninos drogados pelo Brasil que a Fiocruz diz que não tem uma epidemia de drogas, elas vão dar risada. É óbvio para a população que tem uma epidemia de drogas nas ruas. Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada. Temos que nos basear em evidências.

Já podemos imaginar, por exemplo, rolezinhos de inverno programados pelo chanceler Ernesto Araújo para refutar a teoria do aquecimento global antropogênico. Já dá para imaginar também textos de Olavo de Carvalho reconhecendo o ministro da Cidadania como um legítimo pensador peripatético (do grego περιπατητικός, caminhante, itinerante) na tradição da de Aristóteles.

 

O engavetamento

A pesquisa está desde novembro de 2017, ou seja, há 18 meses, engavetada pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que contratou o trabalho da Fiocruz. Uma cláusula no contrato estabelece que o estudo só pode ser divulgado com anuência da Senad.

Em setembro de 2018, quando a Folha de S.Paulo publicou a reportagem “Governo Temer engaveta pesquisa sobre uso de drogas que custou R$ 7 milhões”, de Ana Estela de Souza Pinto, o Ministerio da Justiça divulgou nota oficial afirmando que

(…) a metodologia usada pela FIOCRUZ no III Levantamento não é comparável nem com o segundo nem com o primeiro levantamento. Esta opção, que não era admitida no edital, compromete a série histórica, traz prejuízos para a Política Nacional sobre Drogas e para a integração do Brasil nos fóruns internacionais atinentes a este tema. Não é possível, por exemplo, saber se o uso de cada droga específica no Brasil aumentou ou diminuiu nos últimos anos, tanto no território nacional quanto em determinadas frações dele, o que era presente nos levantamentos anteriores.

Ontem, logo após a repercussão da “metodologia” do ministro Osmar Terra, a Fiocruz soltou a nota “Fiocruz assegura qualidade de pesquisa nacional sobre drogas”, afirmando

O 3° Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira é mais robusto e abrangente que os dois anteriores, pois inclui, além dos pouco mais de 100 municípios de maior porte presentes nos anteriores, municípios de médio e pequeno porte, áreas rurais e faixas de fronteira. Foram entrevistados mais de 16 mil indivíduos. Essa abrangência só foi possível graças à utilização, exigida no próprio edital, do mesmo plano amostral adotado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para realização da já reconhecida Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). O plano amostral adotado permite, portanto, um cruzamento desses resultados com dados oficiais do país. Vale destacar que a abrangência amostral foi solicitada pelo próprio edital e que todos os critérios solicitados foram devidamente atendidos.

No entanto, em relação à metodologia do rolezinho refutatório, a Fiocruz não se manifestou. Por que será?

 

O motivo

Faltou O Globo e outros veículos que repercutiram sua notícia lembrar ou explorar ainda mais o que foi revelado em abril pela jornalista Inês Garçoni em sua reportagem “Guerra à pesquisa – Aqui estão os números que o governo escondeu e que mostram que não há epidemia de drogas no Brasil “, no Intercept Brasil:

Com a troca de governo em janeiro, o embargo da pesquisa, que se arrasta desde 2016, ganhou novos contornos. No dia 19 de março, Osmar Terra e a ministra Damares Alves anunciaram a assinatura de contratos com 216 novas comunidades terapêuticas para tratamento de dependentes químicos, ao custo de R$ 153,7 milhões por ano para 10.883 vagas.
“Elas são decisivas para enfrentar a epidemia das drogas que destrói a nossa juventude, que causa a violência que o país vive e que está se propagando em uma escala gigantesca”, disse Terra na cerimônia. Damares Alves completou: “neste ato, o estado laico reconhece a importância das comunidades religiosas. É o retrato de um novo Brasil”.

A reportagem do Intercept informou que o Brasil possui quase 2 mil comunidades terapêuticas, em sua maioria ligadas a igrejas evangélicas e católicas, segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea). E acrescenta que o ministro Osmar Terra – defensor do modelo de clínicas religiosas como solução para “a epidemia de drogas no país” –  é contra qualquer política de redução de danos, preferindo a abstinência e a internação compulsória.

 

Reserva de mercado

Em 2010, quando era deputado federal (MDB-RS), Osmar Terra apresentou um projeto de lei para obrigar os dependentes de drogas a serem internados, já aprovado na Câmara e no Senado. Segundo a jornalista Cida de Oliveira em sua reportagem “Avança no Senado projeto de penas mais duras e internação compulsória de usuários”, para a Rede Brasil Atual.

(…) a proposta traz de volta a abstinência como objetivo do tratamento, quando as políticas mais modernas voltadas ao tratamento de saúde de usuários estão focadas na redução de danos e investimentos nas  determinantes do sofrimento psíquico que empurra as pessoas para o uso excessivo de drogas e ao rompimento de laços afetivos e familiares.

DE acordo com a reportagem da RBA, ao estimular as comunidades terapêuticas, que já existem e recebem recursos públicos, iniciativas como o projeto de lei de Osmar Terra visam inserir essas instituições no Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad), “possibilitando que esse setor dominado por igrejas evangélicas possa vir a influir nas políticas para o setor como forma de garantir reserva de mercado”.

Enquanto nos distraímos com o peripatético ministro e seus rolezinhos, sua proposta para o futuro dos usuários de drogas brasileiros e suas famílias está desde o dia 16 no Palácio do Planalto aguardando pela sanção ou veto do presidente Bolsonaro.

Na imagem acima, o ministro da Cidadania, Osmar Terra (dir.), a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e representantes do Rio de Janeiro (RJ) em reunião sobre iniciativas com usuários de drogas. Foto: Mauro Viera/Ministério da Cidadania.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

5 Comentários

  1. Pingback: As evidências de um rolezinho | Samuel Rocha de Oliveira

  2. Pingback: Ciência e Tecnologia, edição 242 – Jornal Pensar a Educação em Pauta

  3. Pingback: - platonia

  4. Pingback: - nerdismo

*

Top