Alertas de desmatamento desmontam desafio de Bolsonaro a Macron e Merkel

Dados do projeto MapBiomas mostram 2.137 focos de devastação neste ano no trecho da floresta Amazônica citado pelo presidente brasileiro.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Sexta-feira, 5 de julho de 2019, 9h25.

A crença incondicional do presidente Jair Bolsonaro (PSL) nas afirmações de seus correligionários sobre a situação das áreas de vegetação nativa do Brasil continua a prejudicar sua credibilidade dentro e fora do país no que se refere ao meio ambiente. Desta vez, essa atitude levou o chefe do Executivo a fazer um desafio ao presidente da França, Emmanuel Macron, e à chanceler da Alemanha, Angela Merkel, mas que não parou em pé.

Ontem, quinta-feira (4), em café da manhã com parlamentares da bancada ruralista, ao comentar sua participação na reunião do G20 na semana passada em Osaka, no Japão, Bolsonaro, sem apresentar dados oficiais sobre o desmatamento da Amazônia, afirmou que lançou um desafo a Macron e a Merkel. Segue a transcrição da fala do presidente brasileiro.

O que eles pensam a nosso respeito? Esses dois em especial achavam que estava tratando com governos anteriores. Que, após reuniões como essa, vinham para cá e demarcavam dezenas de áreas indígenas, demarcavam quilombolas, ampliavam área de proteção. Ou seja, dificultavam cada vez mais o nosso progresso aqui no Brasil. Convidei inclusive ele e Angela Merkel para sobrevoar a Amazônia. Se encontrassem, num espaço entre Boa Vista e Manaus, um quilômetro quadrado de desmatamento, eu concordaria com eles.

Esse desafio desabou. Sua inconsistência ficou explícita à noite no Jornal Nacional, em reportagem que apresentou informações sobre alertas de desmatamento exatamente no trecho da Floresta Amazônica mencionado por Bolsonaro. Os dados são do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil (MapBiomas)

A reportagem mostrou que nos meses de janeiro a junho deste ano o MapBiomas identificou entre Boa Vista (RR) e Manaus (AM) 2.137 alertas ou focos de desmatamento somando 273 quilômetros quadrados. “Segundo os pesquisadores, mais de 95% foram desmatamentos ilegais”, afirmou a repórter Délis Ortiz.

O MapBiomas funciona por meio de uma rede colaborativa formada por especialistas nos biomas, usos da terra, sensoriamento remoto, sistemas de informação geográfica e ciência da computação. Integrado por processamento em nuvem por meio de parceria com o Google Earth Engine, o trabalho é orientado para gerar uma plataforma aberta, multiplicável e com possibilidade de aplicação em outros países e contextos, desenhada para incorporar e acolher as contribuições da comunidade científica e demais interessados em colaborar.

O foco principal dessa reportagem do Jornal Nacional foi o aumento de 88% no desmatamento da Amazônia comparando junho de 2019 com junho de 2018, com base em dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Confira em “Inpe registra em junho aumento de 88% de desmatamento na Amazônia”.

Essa fala de Bolsonaro no encontro com a bancada ruralista foi comentada hoje pelo Boletim ClimaInfo:

Mais uma vez, o presidente não mostrou dados, fatos ou qualquer indicação dos alegados impactos negativos da demarcação destas terras sobre o crescimento econômico do país, ou do aumento destas demarcações depois de encontros dos presidentes anteriores com chefes de estado de outras nações. É grande a dificuldade deste atual governo em perceber que acordos internacionais dependem do entendimento entre as partes, e que acusar os parceiros certamente não ajuda em nada.
(Confira em “Bolsonaro, um presidente falastrão”)

Se continuar acreditando nas afirmações de seus aliados sobre meio ambiente, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) continuará se arriscando a cometer bravatas e a passar por vexames.

Na imagem acima, infográfico com dados do MapBiomas de reportagem do Jornal Nacional. Imagem: Reprodução.

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