Senhor Presidente: a boa ciência sempre prevalece

Em carta a Jair Bolsonaro, 56 cientistas defendem integridade dos dados de desmatamento do Inpe

COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE*,
especial para Direto da Ciência.**
Segunda-feira, 22 de julho de 2019, 13h40.

O presidente Jair Bolsonaro, seguindo exemplo anterior de outros membros de seu governo, por meio de declarações sucessivas, inconsequentes e inconsistentes, questionou o trabalho desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) no monitoramento do desmatamento da floresta Amazônica. Como se não bastasse, questionou também a ética do diretor da instituição, professor Ricardo Galvão, o que gerou ampla repercussão negativa na mídia.

Nós, cientistas da Coalizão Ciência e Sociedade, manifestamos nosso total apoio ao Inpe e ao seu diretor. Nesse episódio lamentável, destacamos três pontos que não deveriam ter sido ignorados pelo presidente do Brasil.

1. Pesquisadores e tecnologistas do Inpe são servidores do Estado brasileiro. Os servidores públicos devem assegurar a obrigatória continuidade das políticas públicas, independentemente do caráter episódico dos governos. Para que isso aconteça, a sociedade precisa garantir que as atribuições do Estado possam ser executadas por profissionais especializados e com formação específica. Mais do que isso, esses profissionais precisam atuar de modo neutro, livre de qualquer linha partidária ou ideológica e, por isso, têm de ser resguardados de pressões e interesses políticos específicos.

2. Embora pareça que boa parcela do governo atual não aprecie o cientista profissional, esses profissionais altamente qualificados são essenciais para a sociedade, pois nenhuma economia voltada para o bem-estar humano prospera se não seguir uma forte base em pesquisa científica. A ciência é base de nossa sociedade, e a civilização está apoiada nela. Por mais que se tente disseminar opiniões como se fossem fatos, os fatos científicos são os que prevalecem, quer as pessoas acreditem ou não neles, mesmo nos tempos mais sombrios. Senhor Presidente, a boa ciência sempre prevalece.

3. Utilizando-se de ciência e tecnologia desenvolvidas no Brasil, que constituem o estado-da-arte mundial no assunto, o desmatamento da floresta Amazônica é monitorado pelo Inpe em apoio aos órgãos de controle e fiscalização do Estado brasileiro. Os dados são divulgados de forma transparente para a sociedade. O desmatamento é um processo resultante de múltiplos fatores, com fartas evidências do peso das políticas públicas, da governança institucional e da participação social em seu controle. Os satélites não são responsáveis pelo desmatamento – eles apenas registram, de forma objetiva, o que ocorre. Fatores como o descaso do governo com a ciência, o descrédito de órgãos ambientais, o enfraquecimento de políticas de conservação, o abandono na demarcação de terras indígenas e a banalização da violência no campo têm responsabilidade importante no desmatamento. A pior mensagem que o Brasil pode transmitir é ser um país insensível às questões ambientais.

*Coalizão Ciência e Sociedade (em ordem alfabética):

  • Adalberto Luis Val (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)
  • Alexandre Turra (Universidade de São Paulo)
  • Blandina Felipe Viana (Universidade Federal da Bahia)
  • Carlos Afonso Nobre (Instituto de Estudos Avançados – Universidade de São Paulo)
  • Carlos Alfredo Joly (Universidade Estadual de Campinas)
  • Catia Nunes da Cunha (Universidade Federal de Mato Grosso)
  • Cristiana Simão Seixas (Universidade Estadual de Campinas)
  • Cristina Adams (Universidade de São Paulo)
  • Daniele Vila Nova (Painel Mar)
  • Eduardo José Viola (Universidade de Brasília)
  • Enrico Bernard (Universidade Federal de Pernambuco)
  • Erich Arnold Fischer (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
  • Fabio Rubio Scarano (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
  • Francisca Soares de Araujo (Universidade Federal do Ceará)
  • Gabriela Marques di Giulio (Universidade de São Paulo)
  • Geraldo Wilson Fernandes (Universidade Federal de Minas Gerais)
  • Gerd Sparovek (Universidade de São Paulo)
  • Gerhard Ernst Overbeck (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
  • Gislene Maria da Silva Ganade (Universidade Federal do Rio Grande do Norte)
  • Gustavo Romero (Universidade Estadual de Campinas)
  • Helder Lima de Queiroz (Instituto Mamirauá)
  • Helena de Godoy Bergallo (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
  • Ima Célia Guimarães Vieira (Museu Paraense Emilio Goeldi)
  • Jean Paul Walter Metzger (Universidade de São Paulo)
  • Jean Pierre Ometto (Centro de Ciência do Sistema Terrestre/INPE)
  • Joice Nunes Ferreira (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)
  • José Alexandre Felizola Diniz Filho (Universidade Federal de Goiás)
  • José Antonio Marengo Orsini (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais)
  • José Sabino (Universidade Anhanguera – Uniderp, MS)
  • Leandra Gonçalves (Universidade de São Paulo)
  • Leonor Costa Maia (Universidade Federal de Pernambuco)
  • Leopoldo Cavaleri Gerhardinger (Universidade de São Paulo)
  • Leticia Couto Garcia (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul)
  • Ludmilla Moura de Souza Aguiar (Universidade de Brasília)
  • Luiz Antonio Martinelli (Universidade de São Paulo)
  • Marcelo Tabarelli (Universidade Federal de Pernambuco)
  • Marcia Cristina Mendes Marques (Universidade Federal do Paraná)
  • Margareth da Silva Copertino (Universidade Federal do Rio Grande)
  • Maria Alice dos Santos Alves (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
  • Maria Manuela Ligeti Carneiro da Cunha (Uni Chicago)
  • Maria Teresa Fernandez Piedade (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)
  • Mercedes Maria da Cunha Bustamante (Universidade de Brasília)
  • Michele Dechoum (Universidade Federal de Santa Catarina)
  • Paulo Eduardo Artaxo Netto (Universidade de São Paulo)
  • Pedro Luís Bernardo da Rocha (Universidade Federal da Bahia)
  • Rafael Dias Loyola (Universidade Federal de Goiás)
  • Renato Sérgio Balão Cordeiro (Instituto Osvaldo Cruz)
  • Ricardo Bomfim Machado (Universidade de Brasília)
  • Ricardo Ribeiro Rodrigues (Universidade de São Paulo)
  • Rômulo Simões Cezar Menezes (Universidade Federal de Pernambuco)
  • Ronaldo Bastos Francini Filho (Universidade Federal da Paraíba)
  • Sergio Ricardo Floeter (Universidade Federal de Santa Catarina)
  • Sidinei Magela Thomaz (Universidade Estadual de Maringá)
  • Tatiana Maria Cecy Gadda (Universidade Federal Tecnológica do Paraná)
  • Thomas Michael Lewinsohn (Universidade Estadual de Campinas)
  • Valério De Patta Pillar (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, captada em 2011 pelo satélite Earth, a floresta Amazônica. Nas áreas ao sul, destaca-se a mudança extensiva da cobertura vegetal nativa, suprimida para dar lugar à atividade agropecuária, especiamente cultura de soja ou pastagem de gado. Foto:NASA/GSFC/Jeff Schmaltz/MODIS Land Rapid Response Team.
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Um comentários;

  1. Antonio Valdir de Sousa said:

    Esse Presidente é totalmente sem noção, sem cultura, sem informação, treslocado e dono do laranjal.

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