Áreas de alertas de desmatamento na Amazônia crescem 278% em julho

Números do sistema Deter-B do Inpe apontam 2.254,9 km², mais que o triplo dos 596,6 km² registrados para o mesmo mês em 2018

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Terça-feira, 6 de agosto de 2019, 9h55.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) atualizou os dados de alertas de desmatamento, completando os dados para julho deste ano, apontando para a Amazônia um acréscimo de 2.254,9 km², que corresponde a um aumento de 278% em comparação com o mesmo mês em 2018. O Inpe não divulgou os dados, que são atualizados no portal TerraBrasilis.

Esses dados não medem a extensão real da devastação. Eles são gerados pelo sistema Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), cuja finalidade é alertar o Ibama e órgãos de fiscalização ambiental estaduais. Os dados precisos sobre o dematamento são produzidos por  outro sistema, também do Inpe, o Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), que apresenta anualmente a área total atingida pelo corte raso.

Desse modo, além de orientar a fiscalização, os alertas em tempo real do Deter indicam, por meio da análise de seus dados, a tendência da taxa anual de desmatamento, que é calculada por meio do Prodes.

 

Devastação real é maior

Historicamente os números do Deter têm sido inferiores aos do Prodes, ao contrário o que afirmou o presidente Jair Bolsonaro (PSL), em entrevista coletiva no Palácio do Planalto na semana passada (1º ago) junto com os ministros Augusto Heleno, do Gabinete Segurança Institucional (GSI), Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores.

Nessa coletiva, Salles, acusou o Deter de falhas, desconsiderando que o próprio Inpe há 15 anos, desde a criação desse sistema, tem enfatizado que seus alertas não são adequados para medir desmatamentos e que essa função cabe ao Prodes. Salles aproveitou a acusação para anunciar que “para ajudar o Inpe” contratará um outro sistema de monitoramento, que terá uma outra forma de disponibilizar os dados.

Criticando a forma de divulgação dos dados do Deter, que chamou de “completa irresponsabilidade”, o presidente disse:  “Eu costumo dizer que se esses números todos fossem verdadeiros, a Amazônia já teria sido desmatada três vezes ao longo dos últimos 20 anos”.

Essa afirmação, que começou a ser propalada pelo general Heleno, mostra que nem ele nem Bolsonaro não têm a menor noção de proporção entre os números dos alertas e a extensão da Amazônia e sua área total atingida pelo corte raso. (“Consolidação de dados confirma 19,9% de devastação da Amazônia até 2018”, Direto da Ciência, 25/jun).

 

Repercussão internacional

Nessa entrevista, desconsiderando que os dados dos sistemas de monitoramento do Inpe são públicos, Bolsonaro voltou a ameaçar o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, acusando-o de quebra da hierarquia. O presidente disse que esses números deveriam ter sido submetidos previamente a ele, passando pelos ministros Salles e Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. “Se quebrar a confiança, vai ser demitido sumariamente. Perdeu a confiança, no meu entender, isso é uma pena capital”, disse Bolsonaro.

Bolsonaro estava certamente irritado com a repercussão nacional e internacional dos dados do Deter – intensificado com a divulgação ontem da reportagem de capa da revista The Economist sobre a alta do desmatamento da Amazônia. “O mundo deveria deixar claro ao senhor Bolsonaro que não tolerará seu vandalismo”, afirmou a revista.”

“Companhias de alimentos, pressionadas pelos consumidores, deveriam rejeitar a soja e a carne produzidas em terras amazônicas ilegalmente exploradas, como aconteceu em meados dos anos 2000. Os parceiros comerciais do Brasil devem fazer acordos contingentes ao seu bom comportamento. O acordo alcançado em junho pela UE e pelo Mercosul, um bloco comercial sul-americano do qual o Brasil é o maior membro, já inclui dispositivos para proteger a floresta tropical”, acrescentou a Economist.

 

Demissão do diretor

Bolsonaro começou a atacar o Inpe em 19 de julho, em um café da manhã com jornalistas, afirmando que os dados de desmatamento eram “mentirosos” e que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.  No dia seguinte, o diretor do instituto reagiu, dizendo que Bolsonaro estava tentando, com “covardia” e “pusilanimidade”, fazer com que ele pedisse demissão. E, afirmando não se demitiria, desafiou o presidente a repetir suas acusações frente a frente com ele.

Na sexta-feira da semana passada (2/ago), dia seguinte à entrevista coletiva no Planalto, Galvão se reuniu com Pontes e em seguida anunciou que seria demitido. A partir desse dia, o diretor do Inpe, que já foi presidente da Sociedade Brasileira de Física e diretor geral do Centro Nacional de Pesquisas Físicas (CBPF), passou a receber manifestações de apoio e solidariedade de entidades científicas e ambientalistas.

Ontem, em um vídeo institucional, o ministro Marcos Pontes divulgou a escolha do coronel Darcton Policarpo Damião, da reserva da FAB, para o cargo de diretor interino do Inpe. Doutor em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB), com mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Inpe, ele se graduou em Ciências Aeronáuticas Academia da Força Aérea em 1983.

Ontem, durante intervalo de uma aula no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, onde é professor visitante, Damião afirmou ao Estadão: “Ninguém vai esconder nada, dado nenhum, até porque não se consegue fazer isso” (Tânia Monteiro, “Novo chefe do Inpe, coronel promete transparência total”, O Estado de S.Paulo).

Ontem, em entrevista à BBC News Brasil, o diretor demissionário Ricardo Galvão que o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, ignorou alertas feitos por ele desde janeiro deste ano, de que havia um problema de interlocução entre o Inpe e Salles. (André Shalders, “Ricardo Galvão: exportações serão ‘violentamente afetadas’ se Inpe parar de medir desmatamento”BBC News Brasil).

Na imagem acima, gráfico gerado pelo portal TerraBrasilis, do Inpe, para os dados do sistema Deter. Imagem: Inpe/TerraBrasilis/Reprodução.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

*

Top