Não dá para evitar crise climática sem o uso sustentável da terra, diz IPCC

Painel científico da ONU alerta: é preciso reduzir com urgência desmatamento e degradação do solo para evitar catástrofe global.

FÁBIO DE CASTRO

Quinta-feira, 8 de agosto de 2019, 7h26.


Será impossível enfrentar a crise climática, mantendo o aumento do aquecimento global abaixo dos 2˚C e evitando uma catástrofe global, se a humanidade continuar a utilizar a terra de forma insustentável, degradando o solo e desmatando florestas tropicais. Essa é a principal mensagem do novo relatório especial “Mudanças Climáticas e Uso da Terra”, divulgado nesta quinta-feira (8) pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC).

O relatório destaca que atualmente a agricultura, a silvicultura e outras formas de uso da terra respondem por 23% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). Por outro lado, os processos naturais do solo absorvem dióxido de carbono (CO2) em quantidade comparável a um terço das emissões de GEE provenientes dos combustíveis fósseis e da indústria.

O documento, que é o primeiro do IPCC com foco especial no uso da terra, foi sintetizado no Sumário para Tomadores de Decisão, aprovado ontem, quarta-feira (7), pelos governos do mundo e divulgado nesta manhã, após uma semana de discussões entre centenas de cientistas que participaram da 50ª Sessão do IPCC, realizada em Genebra, na Suíça.

 

Reduzir desmatamento

“O relatório especial do IPCC traz uma importante mensagem sobre a urgência de se combater a degradação florestal e o desmatamento. Tornar o uso do solo mais sustentável seria fundamental não apenas para a mitigação das emissões dos GEE, mas também para a adaptação às mudanças climáticas e para garantir a segurança alimentar dos habitantes do planeta”, comentou Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima – uma rede que reúne 37 organizações não-governamentais ligadas à questão das mudanças climáticas.

Quando o solo é degradado, torna-se menos produtivo, limitando a variedade de culturas que poderiam ser produzidas e reduzindo a capacidade do solo para absorver carbono da atmosfera, de acordo com o relatório. Esse processo agrava a mudança climática, que ao mesmo tempo intensifica a degradação do solo.

“Há uma combinação perversa de desmatamento e degradação do solo com mudanças climáticas. Esse cenário gera graves riscos para a segurança alimentar e hídrica, assim como para a nossa capacidade de adaptação às mudanças climáticas. Por outro lado, se conseguirmos deter o desmatamento, restaurar florestas e reduzir a degradação do solo, teremos uma grande oportunidade para aumentar nossa resiliência à crise climática, com impactos importantíssimos na segurança alimentar mundial”, disse Rittl.

Embora mostre que uma melhor gestão do solo pode contribuir para enfrentar a crise climática, o relatório destaca que essas mudanças não seriam suficientes para superá-la. É preciso reduzir as GEE em todos os setores. Mas, segundo Rittl, as metas do Acordo de Paris dificilmente serão alcançadas sem mudanças na gestão do solo. Segundo ele, as medidas necessárias para melhorar a gestão do solo também forneceriam uma oportunidade única para mitigação do aquecimento global.

 

Energia e segurança alimentar

“O relatório mostra que a redução do desmatamento de da degradação do solo poderia representar uma redução de quase 100 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, o que seria fundamental para limitar o aquecimento ao limite ótimo estabelecido pelo Acordo de Paris, que é de 1,5˚C”, diz Rittl.

Vista no documento como uma importante alternativa para reduzir as emissões de GEE, a bioenergia precisa ser cuidadosamente gerenciada para evitar riscos à segurança alimentar, à biodiversidade e à degradação do solo, de acordo com o relatório.

A segurança alimentar recebeu uma atenção especial no novo relatório. Para garanti-la, será preciso reduzir o desperdício de alimentos o que também é um caminho para reduzir as emissões de GEE, de acordo com o IPCC. “O relatório mostra que cerca de 35% da comida produzida no mundo é desperdiçada”, disse Rittl.

O IPCC aponta ainda que cerca de 500 milhões de pessoas vivem em áreas do planeta que estão passando por processo de desertificação. Essas áreas também são mais vulneráveis aos eventos extremos, inclusive secas, ondas de calor e tempestades de areia. O crescimento da população global é mais um fator de pressão.

 

Desmatamento zero

“O novo relatório do IPCC é importante, pois discute em detalhes questões associadas ao uso da terra, que são fundamentais para todos os países”, disse um dos autores do documento, o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo Artaxo, o relatório aborda quatro questões essenciais: “Temos que reduzir a zero o desmatamento de florestas. Temos que incentivar o reflorestamento. Precisamos aumentar a produção de alimentos de modo sustentável. Precisamos produzir biocombustíveis de modo sustentado”, disse o pesquisador.

“Essas quatro questões são essenciais para o Brasil. Em particular, eliminar o desflorestamento da Amazônia, já que os serviços ambientais da floresta amazônica são críticos para a estabilidade climática do Brasil. O equilibrio entre esses quatro componentes de uso do solo é essencial para garantir um desenvolvimento econômico e social sustentável para o País.”

A questão da segurança alimentar também é crucial, segundo Artaxo, pois já se sabe que em 2050 será preciso produzir alimentos para 10 bilhões de pessoas. “O relatório é bastante cuidadoso na questão da diversificação das dietas e não faz recomendações sobre redução do consumo de carne, por exemplo. Mas mostra que uma diversificação da dieta pode reduzir emissões de GEE e aumentar a nossa resiliência diante das mudanças climáticas”, afirmou.

A bioenergia, de acordo com o físico, é especialmente sensível para o governo brasileiro, já que o país é um dos maiores produtores de alimentos e biocombustíveis no mundo. “O relatório menciona que a extensão da área de plantio para bioenergia representa riscos para a segurança alimentar.”

Segundo o IPCC, ações coordenadas para combater a crise climática podem ao mesmo tempo aprimorar o solo, garantir a segurança alimentar e ajudar a erradicar a fome. O relatório destaca que a crise climática está afetando os quatro pilares da segurança alimentar: a produtividade é reduzida, o acesso sofre impacto do aumento de preços, a utilização (impactos negativos na qualidade da nutrição) e a estabilidade do sistema alimentar.

 

Recados para o Brasil

O relatório do IPCC tem “dois recados poderosos para o governo brasileiro”, diz Rittl em nota do Observatório do Clima. “Ao negar o aquecimento global e estimular o desmatamento da Amazônia, a administração de Jair Bolsonaro está rasgando dinheiro, já que o sistema alimentar será reorientado para atividades de baixo carbono que o Brasil tem potencial de liderar. Ao mesmo tempo, ao aderir à ideologia obscurantista de Donald Trump, o presidente do Brasil desperdiça oportunidade de negócios, inovação e investimento nesse novo setor de uso da terra que o relatório do IPCC delineia.”

Segundo Rittl, a explosão do desmatamento na Amazônia nos últimos meses está na contramão de todas as conclusões do relatório. “A atitude do governo brasileiro em relação às florestas, questionando as medições do desmatamento em vez de agir contra ele são um desastre ambiental, ético e econômico.”

O relatório aponta diversos caminhos para a gestão dos riscos e a redução das vulnerabilidades do solo e do sistema alimentar. A gestão de riscos poderia aumentar a resiliência das comunidades aos eventos extremos, que têm importante impacto no sistema alimentar. Um desses caminhos seria promover mudanças nas dietas e garantir a variedade de culturas, a fim de impedir a degradação do solo e aumentar a resiliência aos eventos climáticos extremos.

Reduzir as desigualdades, aumentar a renda e garantir o acesso igualitário aos alimentos em algumas regiões também são alternativas mencionadas pelo IPCC para adaptação aos efeitos negativos das mudanças climáticas.

Em resumo, o relatório do painel científico das Nações Unidas alerta que a humanidade não conseguirá evitar uma catástrofe global sem uma ação urgente para reduzir o desmatamento e a degradação do solo, pois não bastará controlar as emissões de gases estufa por outras fontes.

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Na imagem acima, a coloração laranja representa temperaturas mais quentes que a média da linha de base 1951-1980, e a azul representa temperaturas mais baixas que a linha de base. Imagem: Goddard Flight Space Center/Nasa/Divulgação.

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