Fim do CNPq deve ser considerado risco real, dizem entidades de servidores

Nota conjunta de sindicato e associação afirma que governo ‘reiteradamente tem desprezado a ciência como um todo’.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Sábado, 17 de agosto de 2019, 9h45.

O risco de fechamento permanente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) deve ser considerado real, afirmaram o Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais da Carreira de Gestão, Planejamento e Infraestrutura em Ciência e Tecnologia (SindGCT) e a Associação dos Servidores do CNPq (ASCON) em nota pública conjunta divulgada na tarde de ontem, sexta-feira (16).

No comunicado, as duas entidades afirmam que desde 2016 a agência de fomento à pesquisa, que é vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), “vem sofrendo ataques constantes a pretexto da ‘modernização’ do Estado. Se por um lado o orçamento e o dispêndio público efetivos em C&T vêm sendo reduzido há anos, por outro o CNPq vem tendo suas competências e estrutura pouco a pouco reduzidas”. O documento acrescenta:

Não podemos permitir que a C&T brasileira – verdadeira política de Estado – e toda a sua histórica formação ao longo de décadas sejam perdidas por decisões políticas deliberadas de um governo que reiteradamente tem desprezado a ciência como um todo.

Confira a “Nota Pública Conjunta sobre a Situação do CNPq”.

Na quinta-feira (15/ago), o CNPq divulgou uma nota pelo Twitter informando a suspensão das indicações de novas bolsas de pesquisa. A postagem acrescentou que o órgão recebeu “indicações” de que seu orçamento não teria suplementações neste ano.

Nesta semana, o presidente do CNPq, João Luiz Filgueiras de Azevedo, em entrevista ao Jornal da USP, já havia afirmado que mais de 80 mil pesquisadores em todo o Brasil ficarão sem bolsa a partir do mês de setembro, se a agência federal não sanar de imediato um déficit de R$ 330 milhões no seu orçamento. (Herton Escobar, “Sem dinheiro, CNPq deve suspender pagamento de bolsas”, Jornal da USP).

 

Dia de rumores

Ontem também proliferaram rumores de que o governo federal pretenderia fundir o CNPq com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação. Em nota publicada ontem, a Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp) informou:

Frederico Augusto Garcia Fernandes, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Letras e Linguística e conselheiro do CNPq, gravou um áudio no qual revela que, “nos bastidores”, comenta-se que existe o risco de extinção da agência, a qual desapareceria em meio a uma fusão com a Capes, controlada pelo grupo ligado a Olavo de Carvalho. O professor Fernandes conclama a comunidade científica a resistir ao desmonte do CNPq.

Ouça o áudio (3 min 21 s):

 

Reações na USP e na UFRJ

Também na tarde de ontem a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP divulgou nota em reação à declaração do presidente do CNPq, João Luiz Filgueiras de Azevedo, em entrevista ao Jornal da USP, de que mais de 80 mil pesquisadores em todo o Brasil ficarão sem bolsa a partir do mês de setembro, se a agência federal não sanar de imediato um déficit de R$ 330 milhões no seu orçamento. O documento afirma:

É imperativo e urgente que o CNPq tenha seu orçamento suplementado para realizar os pagamentos de seus bolsistas e projetos até o final do ano. É inadmissível que milhares de jovens pesquisadores sejam penalizados pela interrupção do financiamento das inúmeras modalidades de bolsas em andamento.
(Jornal da Adusp)

Na manhã de ontem, antes da nota da USP, outra reação aos cortes do CNPq já havia acontecido na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio do diretor do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, o biólogo e bioquímico Bruno Lourenço Diaz, que, em mensagem aos seus colegas, afirmou:

Este novo corte de bolsas não pode ser considerado de forma diferente do que de fato é: mais um passo para a destruição do CNPq e eliminação de seu fundamental papel para o desenvolvimento científico e tecnológico nacional.
(“Corte de bolsas é ‘passo para a destruição do CNPq’, diz diretor da UFRJ”, Direto da Ciência)

 

O que diz o governo

Procurados por Direto da Ciência no início da noite de ontem por meio de suas assessorias de imprensa para se posicionarem sobre a nota conjunta das entidades de servidores federais, o CNPq e o MCTIC não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

Antes dessa tentativa, a assessoria de imprensa do MCTIC, em reposta a reportagem anterior, enviou mensagem indicando nota da Agência Brasil, segundo a qual “o ministro Marcos Pontes afirmou que o problema da falta de orçamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) está ‘sendo resolvido’. O titular da pasta informou que conversou com o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e que ele teria dado resposta positiva”. A nota informa ainda que a Agência Brasil questionou a Casa Civil, mas não obteve resposta.

Na imagem acima, sede do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em Brasília. Foto: CNPq/Divulgação.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

6 Comentários

  1. Milton Rosa CNPq said:

    A situação atual do CNPq e outras Agências é o reflexo das dificuldades financeira que o País atravessa.
    Dizer que o CNPq vai acabar é um absurdo imensurável.
    Fechar o CNPq é apagar a história do seu fundador Almirante Alvaro Aberto que foi assassinado para frear o desenvolvimento nuclear do Brasil, é impedir que o primeiro submarino nuclear brasileiro leve seu nome, é ignorar as diversas instituições que o CNPq criou (IMPA, INPA, MPEG, CBPF, IBBD, IPR, GOCNAE e CPCT) e dar as costa aos institutos que ele incorporou até a década de 90 (CBPF, ON, Cetem, LNCC, MAST, LNLS, LNA e IDSM).
    O máximo que poderá ocorrer é o CNPq incorporar a CAPES e o MCT como forma de evitar duplicações e diminuir gastos.
    Ninguém neste governo atual irá acabar o Conselho, o qual foi escolhido pelas FFAA para implantar o Programa Ciência Sem Fronteiras nas suas Forças.

  2. Mokvwap said:

    Se são apenas sindicatos pelegos do PT e associações de servidores mamadores reclamando, então o presidente está fazendo certo.

    • Roger Guimarães said:

      Comentário típico de quem ou é um bozonarista fanático, membro de tropa de choque digital, ou simplesmente não deu a menor atenção aos dados apresentados na nota conjunta das entidades.

    • Rogger said:

      Mais um aliado de manobra, exemplo perfeito da falta de investimento na área de educação e ciência brasileira.

    • Xubirubibi said:

      Bolsominion alert…. Pobre mente que passou por lavagem cerebral. Deficiência Cognitiva Programada.

    • rosa paes said:

      Isso é robô. Se for gente, é a mesma coisa que robô, só que sem a inteligência artificial. Gente que nem sabe para quê serve a pesquisa e o financiamento público da Educação e da produção de conhecimento. U

Deixe uma resposta para Xubirubibi Cancelar resposta

*

Top