A ciência é muito mais que as ferramentas que produz

Divulgar e defender a ciência apenas em função de suas aplicações pode ser um caminho fácil, mas pode também ser a causa de muitos problemas, como os negacionismos.

THIAGO FRANÇA,
especial para Direto da Ciência.*
Domingo, 25 de agosto de 2019, 8h59.

Quase sempre que vejo alguém defendendo o investimento em pesquisa científica, eu me deparo com argumentos baseados apenas nos avanços trazidos pela ciência. E, lá no fundo, isso me incomoda. Não que seja mentira. Todas aquelas afirmações batidas sobre o conhecimento ter revolucionado as nossas vidas, sobre os avanços na medicina e na tecnologia que jamais teriam acontecido sem investimento na pesquisa, tudo isso é verdade.

A ciência é útil. Ela nos permite lidar melhor com problemas que, muitas vezes, custam vidas se não são resolvidos adequadamente ou a tempo. A ciência, porém, é mais que sua utilidade prática, e por isso é possível que essa narrativa comumente usada em sua defesa esteja sendo muito mais prejudicial do que benéfica.

No seu livro “História da filosofia ocidental” (History of Western Philosophy, no original em inglês), o filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), ao falar sobre o crescimento da influência da ciência no período moderno, escreveu:

Até aqui, tenho me ocupado somente da ciência teórica, que consiste numa tentativa de compreender o mundo. A ciência prática, [que consiste numa] tentativa de mudar o mundo, tem sido importante desde o princípio, e sua relevância cresceu de maneira contínua até expulsar a ciência teórica da mente das pessoas. […] O triunfo da ciência se deveu sobretudo à sua utilidade prática, e hoje se tem tentado isolar esse aspecto seu da parte teórica, transformando cada vez mais a ciência em técnica e cada vez menos em doutrina referente à natureza do mundo.

O livro ao qual me referi foi publicado em 1945, mas, como muitas coisas dessa época, o trecho acima parece bastante atual. Hoje, é possível ver os reflexos dessa tendência de separar os aspectos práticos dos aspectos teóricos da ciência na forma como ela é ensinada nas escolas e comunicada ao público pelas mídias, e também em vários confrontos sociais que envolvem a pesquisa científica.

Essa dissociação da ciência prática de suas bases teóricas fomentou vários equívocos que hoje são visíveis no discurso público. Um desses equívocos é a ideia de que é possível “desumanizar” a ciência – de que as ferramentas produzidas pela ciência podem ser separadas das suas bases filosóficas e dos seus contextos histórico e social. Essa visão errônea cria a ilusão de que podemos separar por completo aquilo que chamamos de ciências naturais (física, química, biologia, etc.) daquilo que chamamos de ciências humanas (história, sociologia, antropologia, etc.).

 

Relevância ou utilidade

Além disso, o critério comumente usado para embasar a distinção entre as ciências é o de “relevância” ou “utilidade”, o que geralmente induz a conclusões equivocadas como a de que não devemos investir nas ciências humanas, pois elas são inúteis. O mesmo vale para áreas das ciências naturais onde não seja possível vislumbrar um retorno financeiro em curto ou médio prazo. Isso teria sido um grande azar para o físico britânico James Maxwell (1831-1879), que combinou as evidências disponíveis à época para formular uma teoria que unificava a eletricidade e o magnetismo. Seu trabalho serviu de base para uma verdadeira revolução tecnológica que dificilmente poderia ser prevista de antemão. O mesmo vale para o biólogo austríaco Gregor Mendel (1822-1844) e suas milhares de sementes de ervilha.

Esse viés pela “utilidade” é visível também nas discussões a respeito da educação básica. Aqui, o equívoco já começa, muitas vezes, no escopo da discussão. Tais discussões muitas vezes não tratam de como ensinar ciência (que é uma forma de interrogar a natureza), mas sim de selecionar quais “fatos científicos” (isto é, quais observações e teorias estabelecidas pela prática da ciência) devem ser ensinados. Nessas discussões, é comum ver argumentos baseados em variações da frase “quando o aluno vai usar isso na sua vida?” – e quando dizemos “na sua vida”, queremos dizer “no mercado de trabalho”. Assim, advoga-se para que a relevância dos conteúdos seja julgada apenas pela sua utilidade prática, não pelo que aquele conhecimento nos diz sobre a nossa natureza e a natureza da realidade em que vivemos, e sobre as forças (naturais e humanas) que moldam o nosso mundo – algo tão importante para a formação de um cidadão crítico e consciente quanto os conhecimentos práticos que costumam ser priorizados.

No tocante à percepção pública da ciência, não podemos nos esquecer das negações incoerentes, e cada vez mais frequentes, de conclusões oriundas da prática científica. Essas negações vão desde o cômico – como a ressureição da ideia de que a terra é plana – até o potencialmente catastrófico, como a negação das mudanças climáticas e o movimento antivacina. Esses dois últimos exemplos refletem de formas distintas as consequências de separar as conclusões e ferramentas geradas pela ciência do seu contexto filosófico, histórico e social.

 

Negacionismos

Vejamos o caso das mudanças climáticas. A hipótese de que emissões de carbono contendo os chamados “gases do efeito estufa” (que são capazes de absorver calor) poderiam estar levando a um aumento da temperatura média global não é nada recente e já estava sendo investigada na metade do século passado. Quando a conclusão a respeito do aquecimento global chegou à grande mídia, as evidências já estavam se acumulando havia décadas – não pense que tal hipótese, com implicações tão sérias, foi aceita de forma imediata e acrítica pela comunidade científica. Mas por toda a comodidade e riqueza trazidas pela ciência, essa era uma conclusão que não seria cômoda nem financeiramente agradável. Evidências, é claro, não podem ser varridas para debaixo do tapete. Mas, em se tratando de ferramentas, nós podemos simplesmente escolher não usá-las, descartá-las.

Logo, a discussão ganhou trajes políticos. De um lado, empresas com uma forte motivação econômica para rejeitar esse conhecimento “enfadonho” sobre o aquecimento global. Do outro, a vasta maioria da comunidade científica que estuda o assunto e que, ao fazer o seu trabalho de expor as evidências e defender suas implicações, é acusada de ter como motivação a destruição da economia e a propagação do suposto “marxismo cultural”, e de integrar a alegada “conspiração globalista”. E assim a cortina de fumaça política mascarou até mesmo os fatos mais óbvios – como os de que a poluição do ar por emissões de carbono, mesmo que não aquecesse o planeta, gera prejuízos à nossa saúde, com efeitos nocivos que podem ser observados de forma clara na literatura médica. Portanto, a poluição do ar precisaria ser reduzida mesmo que o aquecimento global não fosse algo real. Mas no meio do espetáculo político, parece que a maioria se esqueceu desse detalhe.

E o que falar sobre o movimento antivacina? O movimento é tão antigo quanto as vacinas em si, mas a versão moderna parece ter começado a ganhar força com a hipótese de que certas vacinas aumentam a chance de autismo. A única evidência para dar suporte a essa hipótese vem de um estudo publicado em 1998. Esse apresentava dados de oito crianças diagnosticadas com autismo no intervalo de algumas semanas após receber uma determinada vacina, a MMR, amplamente utilizada para prevenir sarampo, caxumba e rubéola.

Apesar de o estudo ter evidências de manipulação dos dados, com inúmeras falhas tendo sido expostas por vários pesquisadores independentes, a notícia, mesmo assim, gerou inquietação em parte da população. E, para assegurar à sociedade que a vacina era segura, diversos estudos foram realizados, envolvendo a análise dos dados de mais do que apenas 8 pacientes – foram de centenas, milhares ou, em um dos trabalhos, milhões de pacientes. Os resultados foram claros: não havia qualquer relação entre a MMR e a incidência de autismo. Essas evidências, porém, não parecem importar para os aderentes ao movimento antivacina. Tampouco impediram que novas vacinas fossem taxadas de perigosas sem qualquer embasamento.

 

Caixa-preta de ferramentas

Nos últimos tempos, não faltaram notícias falsas a respeito do risco e/ou ineficácia das vacinas. Todas essas notícias falsas são críveis apenas por que a ciência é tratada como uma caixa-preta geradora de ferramentas. Caso contrário, ficaria clara a vasta base de conhecimentos a respeito dos agentes infecciosos e do funcionamento nos nossos corpos, em especial dos nossos sistemas imunológicos, que serve como base para o desenvolvimento de vacinas. O conhecimento acumulado pelo processo científico sobre o funcionamento do nosso organismo e dos agentes que o infectam é fundamentado em evidências e está por trás não apenas da criação de vacinas, mas informa também o desenvolvimento de anti-inflamatórios, antivirais e antibióticos.

Com tudo isso em vista, ser contra a vacinação parece ser uma posição difícil de sustentar. Porém, quando vemos a ciência como uma fábrica de ferramentas, estas podem fácil e enganosamente ser entendidas como independentes, e não parece tão difícil defender que uma delas não funciona. E, por mais que seja verdade que a indústria farmacêutica tenha tido alguns casos notórios de comercialização de medicamentos prejudiciais (afinal, seu objetivo é o lucro, não a erradicação das doenças), é importante lembrar que tais medicamentos ineficazes e perigosos são a exceção e não a regra (a indústria farmacêutica não duraria muito sem fazer medicamentos que funcionassem) e foram denunciados justamente por pesquisadores independentes, geralmente ligados a universidades, como aqueles que desenvolvem a maioria das novas vacinas e que testaram e validaram aquelas distribuídas atualmente pelo governo.

Mas, afinal, de quem é a responsabilidade por disseminar essa visão deturpada e extremamente prejudicial da ciência? A mídia em busca de audiência? Os políticos em busca de apoio? As empresas em defesa dos seus interesses? É bem verdade que todos esses deram a sua contribuição, mas a fonte do problema aqui é uma abordagem deficiente do ensino de ciência. Também contribuem para o problema a divulgação enviesada da ciência para o grande público, e uma defesa pública do investimento em ciência muitas vezes mostrada como um produto a ser vendido para a população.

A responsabilidade de educar é dos educadores, assim como a de informar e, se necessário, corrigir a divulgação científica para o público, é dos cientistas. E vale ressaltar que esses dois grupos, educadores e cientistas, têm uma grande sobreposição no nosso país, onde a vasta maioria da produção científica se dá nas universidades públicas. Mas se é necessário que cientistas e educadores nos ensino básico e superior sejam mais ativos em informar a população a respeito da natureza da ciência, é também necessário que a sociedade, por meio do governo, dê a esses profissionais as condições que eles precisam para desempenhar o seu dever.

Esse dever é o de ensinar aos alunos e de lembrar aos governantes e à sociedade como um todo que a ciência é mais do que um conjunto de ferramentas; que uma compreensão do seu contexto histórico, social e filosófico é necessária para realmente entender e fazer bom uso daquilo que a ciência dá à sociedade; que um entendimento mais completo da ciência é essencial para tomar decisões bem fundamentadas sobre questões de extrema importância que envolvem a ciência; e que tão importante quanto os frutos práticos da ciência é aquilo que ela nos ensina sobre quem somos, sobre o Universo e sobre o nosso lugar nele.

THIAGO FRANÇA é biólogo e doutor em fisiologia. Realiza pesquisa na área de neurociência e, nas horas vagas, escreve sobre a prática científica nos dias hoje. thiago.fa.franca@gmail.com.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, o filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970), em 1936. Foto: Bassano/Wikimedia Commons/domínio público.

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3 Comentários

  1. Roberto Berlinck said:

    Thiago França, excelente texto. Muito esclarecedor e bem escrito.

  2. Bruno said:

    Verdades em poucos caracteres.
    A atuação profissional irresponsável pode ser um propagadora silenciosa da visão de ineficácia das ferramentas produzidas pela ciência. Imagino que os técnicos que não obedecem as diretrizes produzidas para aplicação das ferramentas, pois ignoram ou não explicam sua teoria, simplificam e prejudicam sistematicamente a opinião pública.

  3. Matheus William said:

    Concordo com o texto, mas acredito que o problema é que a retomada do ensino da ciência como uma forma de entender o mundo ao nosso redor depende de muita gente desinformada que não acredita nisso (apesar do grande acesso a informação).

    No mais, excelente texto 🙂

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