Manchetes omitem alegações falsas de Bolsonaro na ONU

Chamadas dos principais jornais brasileiros fazem o jogo da estratégia de comunicação do presidente.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quarta-feira, 25 de setembro de 2019, 9h52.

Apesar de ser um dos alvos preferenciais dos ataques verbais do presidente Jair Bolsonaro, a “grande imprensa” evitou destacar em suas manchetes as alegações falsas feitas por ele ontem em seu discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Fazendo o jogo da estratégia de comunicação do presidente, ainda que sem essa intenção, os quatro principais jornais brasileiros de âmbito nacional optaram por ressaltar a retórica agressiva do presidente diante de chefes de Estado e representantes de cerca de 200 países.

Grande parte das pessoas, e cada vez mais, lê apenas os títulos dos artigos e reportagens. Intensificada pelo compartilhamento em redes sociais, essa tendência redobra para a imprensa a responsabilidade ao elaborar as chamadas de suas matérias. E essa responsabilidade se torna ainda maior com relação às manchetes, que são os títulos de maior destaque de cada edição. Elas são também as mensagens dos jornais que reverberam ao longo do tempo, não só como palavras, mas também como imagens, estampadas nas capas de edições históricas.

Optando por dar menor relevância para afirmações falsas do presidente, como a de que a Amazônia “não está sendo devastada e nem consumida pelo fogo”,

Não há dúvida da importância jornalística da tensão entre Bolsonaro e líderes de países como França e Alemanha e a própria ONU, que a imprensa preferiu ressaltar. No entanto, é questionável a opção por dar maior relevância para esse aspecto, principalmente devido ao fato de que uma mensagem poder ser recebida com diferentes significados, conforme seu receptor.

Nesta quarta-feira (25), as manchetes dos quatro principais jornais do Brasil, transcritas a seguir, certamente “lavaram a alma” dos apoiadores mais fanáticos do presidente.

  • O Estado de S. Paulo: “Bolsonaro vai ao ataque na ONU e rompe tradição do país”
  • Folha de S.Paulo: “Bolsonaro ataca críticos na ONU e vê falácias ambientais”
  • O Globo: “Bolsonaro ataca países e ‘falácias’ sobre Amazônia em estreia na ONU”
  • Valor Econômico: “Bolsonaro leva sua retórica agressiva às Nações Unidas”

Ao priorizar essas abordagens, os jornais minimizaram a importância dos erros, imprecisões e exageros da fala de Bolsonaro, apurados por agências de checagem, como a Lupa e a Aos Fatos, por outros veículos, como El País, e até mesmo por suas próprias equipes, como a reportagem “Amazônia não é praticamente intocada, como diz Bolsonaro, apontam institutos” e o editorial “Bolsonaro na ONU”, ambos do Estadão.

No entanto, mesmo para jornalistas não especializados em ciência e meio ambiente, era possível, logo em seguida à fala do presidente, colocar os “pingos nos is” sobre o discurso e seu contexto. Foi o que fez colunista de política Kennedy Alencar, ontem, às 11h13 em seu blog com o post “Falsa e desastrosa, fala de Bolsonaro na ONU só piora imagem do Brasil”.

Já passou da hora de a imprensa repensar como priorizar as informações que divulga.

Na imagem acima, presidente Jair Bolsonaro discursa durante a abertura da 74ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Foto: Carolina Antunes/PR.

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