Oceanos polares e criosfera em um clima em mudança

Pesquisadores brasileiros destacam impactos do aquecimento global para as regiões polares apontados no recente relatório do IPCC.

JEFFERSON CARDIA SIMÕES
MAURÍCIO M. MATA
especial para Direto da Ciência.*
Domingo, 29 de setembro de 2019, 8h35.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) ouviu a comunidade polar e oceanográfica e lançou na quarta-feira, 25 de setembro, o “Relatório Especial sobre Oceano e Criosfera em um Clima em Mudança” (SROCC, iniciais em inglês).

O documento alerta para a urgência da necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, apontando as consequências da mudança do clima em áreas montanhosas, regiões polares, elevação do nível do mar e implicações para as ilhas, costas e comunidades litorâneas e ecossistemas marinhos. Trata, principalmente, do impacto dessas mudanças nos oceanos e na criosfera e as consequências globais.

“Criosfera” é o termo usado para se referir coletivamente a todo o gelo e a neve existentes na superfície terrestre. Seus principais componentes são a cobertura de neve, o gelo de água doce em lagos e rios, o gelo marinho, as geleiras de montanha (ou de altitude), os mantos de gelo e o gelo no subsolo (permafrost). Atualmente cobre cerca de 10% da superfície terrestre.

Neste texto, nós, pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), destacamos as principais conclusões do SROCC para as duas regiões polares do planeta. O instituto é a principal instituição voltada à pesquisa polar no Brasil, sendo responsável por aproximadamente 60% da pesquisa antártica do país.

 

Destaques do relatório

Geral: Os impactos das mudanças do clima nos oceanos polares e na criosfera já são disseminados e observados. O mesmo é observado na parte da criosfera situada nas altas montanhas não polares.

Aquecimento da atmosfera e dos oceanos polares: Os dois oceanos polares (Ártico e Austral) continuam a aquecer, sendo que o aumento no Oceano Austral é muito maior e cada vez mais importante no aumento global do conteúdo de calor nos oceanos.

Acidificação dos oceanos polares: Os dois oceanos polares continuam a ser importantes zonas de sequestro do dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, e, por consequência, tornando-se mais ácidos nas camadas superficiais. Isso causa condições corrosivas para certos organismos produtores de conchas de carbonato de cálcio.

Derretimento do gelo marinho (mar congelado) do Oceano Ártico: A extensão do gelo marinho no Ártico continuará, muito provavelmente, a diminuir em todos os meses do ano. As reduções mais fortes ocorrem em setembro (-12,8 ± 2,3% por década, de 1979 a 2018) e isso provavelmente não tem precedentes, pelo menos, nos últimos 1.000 anos. O INCT da Criosfera observa que desde o início das observações satelitais as menores extensões de mar congelado ártico ocorreram em 2012 e agora, em setembro de 2019.

A espessura do gelo marinho ártico continua a diminuir, concomitantemente com o aumento da proporção de gelo mais jovem (congelado mais recentemente). O SROCC atribui parte dessa redução (pelo menos 50%) à elevação de temperatura causada pelo aumento da concentração atmosférica de gases de efeito estufa de origem antropogênica.

Estudos começam a apontar que mudanças no gelo marinho ártico poderiam influenciar o clima de latitudes médias em escalas de tempo de semanas a meses, mas a confiança dessas investigações é ainda média.

A atividade de navegação durante o verão no Ártico aumentou nas últimas duas décadas na região, concomitantemente à redução na área coberta por gelo marinho.

 

Prognósticos

O nível médio dos mares (NMM) está subindo e esse aumento está se acelerando. A soma das contribuições de geleiras e mantos de gelo antártico e groenlandês é agora a fonte dominante de aumento do NMM. Pela primeira vez é observada a contribuição de derretimento do manto de gelo antártico para a elevação do NMM.

A perda de gelo antártico é dominada pelo aumento da velocidade, recuo e rápido afinamento das principais geleiras de descarga do manto de gelo da Antártica Ocidental. Isso está sendo desencadeado pelo derretimento das plataformas de gelo por águas com temperaturas mais elevadas do oceano adjacente.

Os prognósticos para os aumentos do NMM, até o ano de 2100, variam entre 0,29 m e 1,10 m, dependendo dos diferentes cenários de aumento de gases-estufa na atmosfera.

Devido ao aumento médio projetado para o NMM, eventos extremos (exemplo, marés meteorológicas) historicamente raras (por exemplo, que ocorrem a somente a cada cem anos de hoje) se tornarão mais comuns em 2100.

Em ambas as regiões polares, as mudanças induzidas no clima do oceano e no gelo marinho, juntamente com a introdução humana de espécies não nativas, expandiram o leque de espécies temperadas e contraíram o conjunto de espécies de peixes polares associadas ao gelo.

Essas previsões levaram o Comitê Científico da Pesquisa Antártica (Scar), em um comunicado à imprensa no dia seguinte à divulgação do relatório do IPCC, a fazer um alerta com a seguinte declaração de seu presidente, professor Steven Chown.

O relatório SROCC nos diz clara e inequivocamente: devemos agir de maneira ambiciosa, rápida e sustentada para reduzir as emissões de gases de efeito estufa se quisermos evitar um mundo irreconhecível e menos capaz de sustentar a vida do que aquele do qual dependemos até agora.

JEFFERSON CARDIA SIMÕES é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
MAURÍCIO M. MATA é professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).
Ambos são pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT da Criosfera), que é financiado conjuntamente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Fundação de Apoio à Pesquisas do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, pesquisador brasileiro em atividade próximo ao módulo Criosfera 1, instalado na Antártida em janeiro de 2012. Foto: Criosfera 1/Divulgação.

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