Ciência versus religião: a disputa entre dois mapas para navegar a realidade

A ciência não é uma réplica da realidade física, mas é o melhor mapa que temos para navegá-la.

THIAGO FRANÇA,
especial para Direto da Ciência.*
Domingo, 6 de outubro de 2019, 7h46.

Muito da nossa vida se resume a tomar decisões. Temos que decidir o que comer, o que vestir, se hoje vamos nos exercitar ou relaxar no sofá, se vamos vacinar nossos filhos, quais pautas apoiaremos, em quem votaremos e por aí vai. Algumas das nossas decisões são inconsequentes, ou tem consequências que afetam apenas a nós mesmos. Outras têm implicações que podem afetar todos à nossa volta, até mesmo todo o nosso planeta. Para tomarmos nossas decisões, especialmente as mais importantes, precisamos compreender a realidade em que vivemos. Infelizmente, encontrar nosso caminho em meio às complexidades do mundo raramente é uma tarefa fácil.

Para nos auxiliar na tomada de decisões, contamos com uma série de recursos que usamos como base para construir nossa visão de mundo e guiar nossas ações. Eles incluem, por exemplo, as tradições que respeitamos e a cultura da região em que vivemos. Tais recursos são como mapas que nos ajudam a navegar a realidade. Assim como os mapas que usamos para guiar nossos trajetos contém uma representação idealizada do território mapeado, as visões de mundo que recebemos por meio da nossa cultura contêm uma representação idealizada de algum aspecto do mundo em que vivemos.

Para dar um exemplo concreto, pense na representação do homem e da mulher que está profundamente enraizada na cultura do nosso país. Essa representação apresenta uma visão estereotipada, extremamente idealizada dos sexos, e diz como indivíduos de cada um desses grupos devem se comportar, que cores devem vestir, a que atividades devem se dedicar – em outras palavras, atribui a cada sexo um conjunto de características que formam o que chamamos de “gênero”. Dessa forma, esse e outros mapas oferecem visões, de forma implícita ou explícita, sobre algum aspecto da realidade e dizem como agir em determinadas situações – como navegar pelas complexidades da sociedade e do mundo.

Dentre os mapas mais usados para tomar decisões importantes estão dois que, frequentemente, levam indivíduos e instituições a baterem de frente: a religião e a ciência. Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar que quando falamos de confrontos entre a ciência e a religião, dentro do contexto do nosso país, estamos falando, geralmente, do cristianismo, a religião com maior poder político no Brasil e na maioria dos países ocidentais.

São muitos os assuntos em que a ciência e o cristianismo (ou ao menos algumas vertentes do cristianismo) parecem bater de frente. Uma dificuldade em analisar esses confrontos, porém, está no fato de que a “ciência” e o “cristianismo” não fazem nada por si sós. Os confrontos, quando acontecem, são na realidade confrontos entre indivíduos ou instituições que carregam consigo a bandeira da religião ou da ciência. E qualquer um que conheça um pouco da história da ciência e da religião sabe bem que o uso dessas bandeiras e o conteúdo de suas doutrinas muitas vezes não combinam.

Tentarei nos próximos parágrafos elucidar um pouco a relação entre a ciência e a religião analisando as duas por suas doutrinas fundamentais, aquelas com as quais a maioria dos combatentes em ambas as frentes concordam. Para avaliar de forma mais clara os conflitos entre ciência e religião, precisamos olhar esses dois mapas e tentar entender suas forças, suas limitações, qual território cobrem e como mapearam os aspectos da realidade sobre os quais eles nos informam.

 

Origens dos mapas

Os mapas da realidade que a ciência e a religião nos dão têm origens distintas. A visão da realidade do cristianismo vem, de acordo com seus princípios, de profetas que teriam sido iluminados por Deus. É considerada, portanto, uma verdade inquestionável (porém sujeita a interpretação para algumas vertentes do cristianismo). Esse mapa cobre todos os aspectos da realidade – desde o mundo em que vivemos até outros, invisíveis e, por ora, inacessíveis.

Já o mapa oriundo da ciência vem da exploração sistemática e contínua da realidade. O mapa que a ciência gera não é tido como uma verdade absoluta – ele é confiável apenas na medida em que pode ser embasado pelos relatórios de diferentes exploradores independentes, usando métodos distintos de exploração e mapeamento. Esse é um mapa eternamente em construção, que pode – e deve – ser alterado sempre que um número suficientemente grande de relatórios de exploração conflitantes se acumularem. Esse mapa não cobre toda a realidade, mas apenas aqueles aspectos que nossas limitações físicas, tecnológicas e culturais nos permitem explorar.

 

Abrangência

Apesar de ter sua cobertura limitada à “realidade física”, o mapa construído pela ciência ainda é vasto – vasto demais para que qualquer um possa refazer todos os passos que levaram à sua construção. Assim, os mapas da ciência e da religião tem algo em comum: ambos exigem fé. A fé que ambos exigem, porém, não é a mesma. Posso não ser capaz de refazer todos os experimentos científicos já feitos, mas sou – ou pelo menos deveria ser – capaz de reproduzir qualquer um deles. É mais fácil se tornar um cientista do que um profeta, e talvez por isso tenha havido muito mais indivíduos no primeiro grupo do que no segundo.

Pela descrição acima, já vemos uma categoria de conflitos entre ciência e religião que são infundados. Esses são os conflitos em pontos da realidade que o mapa criado pela ciência não cobre. A religião, como mencionei, abrange todos os aspectos da realidade, e da mesma forma o fazem outros empreendimentos humanos, como a filosofia. Mas a ciência não tem abrangência absoluta.

Talvez a questão mais ilustre sobre essa diferença de abrangência seja aquela sobre a existência de deuses. Deuses existem? Quantos? Como são? A ciência pode até nos dizer como não são, mas não pode dizer se existem, ou quantos. As religiões têm respostas claras para essa pergunta, por mais que essas respostas possam diferir entre religiões. Por exemplo, o cristianismo, bem como o islamismo e o judaísmo (que originou os dois primeiros), nos dizem que existe apenas um deus, YHWH, Alá ou, simplesmente, Deus. Argumentar contra a existência de Deus ou outros deuses carregando a bandeira da ciência é, portanto, uma extrapolação.

Por outro lado, muitos dos conflitos entre as bandeiras da religião e da ciência estão em territórios que ambos os mapas cobrem. Aqui temos (pelo menos partes das) discussões sobre assuntos como homossexualidade e identidade de gênero, aborto e uso de células-tronco, para citar apenas alguns. É bem verdade que alguns aspectos dessas discussões envolvem mais filosofia informada pela ciência do que ciência em si, mas mesmo em pontos onde as evidências oriundas da prática da ciência são claras, estas acabam sendo tratados como questão de opinião.

 

Evolução versus Criação

Talvez a mais notória das discussões entre os defensores da ciência e os da religião seja aquela que envolve a teoria da evolução. Algumas vertentes do cristianismo acreditam numa leitura literal da bíblia e, por conta disso, defendem a visão de que o mundo foi criado em seis dias. Outras vertentes, menos extremas, argumentam que o mundo pode não ter sido criado em seis dias, mas que todas as formas de vida foram projetadas de forma inteligente por Deus.

O mapa construído pela ciência, porém, nos conta outra história, uma que diz que a vida foi moldada por forças “cegas” como a seleção natural, e onde nós, humanos, não somos o ápice da criação. É importante ressaltar aqui que essa história é baseada não apenas nas evidências trazidas pelos fósseis, como as mídias fazem parecer para muitos, mas envolve também evidências relacionadas aos mecanismos moleculares por trás do funcionamento e desenvolvimento dos diferentes seres vivos – as quais são até mais convincentes, e nos contam ainda mais, do que os impressionantes fósseis de dinossauros. Assim, fica frequentemente ausente da divulgação para o público geral o fato de que a evolução da vida deixou suas marcas por todos os lados, não apenas escondidas sob as rochas.

No caso da evolução, temos dois mapas nos dizendo coisas bem diferentes e somos forçados e escolher entre eles. De um lado, um mapa inquestionável de afirmações frequentemente inverificáveis. Do outro, um mapa construído de forma colaborativa, fruto de séculos de exploração da realidade como ela se mostra para os nossos sentidos, para as nossas mentes e para as nossas ferramentas.

Neste momento é oportuno lembrar que o mapa construído pela abordagem científica, mesmo que questionado nesse ponto, é aceito em muitos outros. Ninguém pensa em questionar, com base na religião, se átomos existem. Muita tecnologia foi criada com base nesse conhecimento para achar que ele não tenha boa correspondência com a realidade. Ninguém duvida, com base na religião, do nosso conhecimento sobre as bactérias e os vírus – muitas vidas foram salvas graças ao nosso conhecimento sobre o funcionamento desses organismos. Mas foram os mesmos métodos de exploração da realidade usados para mapear o mundo dos átomos e das bactérias que nos deram a teoria da evolução – e ela consegue iluminar tanta coisa na biologia quanto a teoria atômica consegue na física e na química.

 

O melhor mapa que temos

O conhecimento criado pela ciência a respeito do mundo natural foi, e continua sendo, refinado para refletir na melhor forma possível os padrões observáveis no universo em que vivemos. Essa é a força do mapa criado pela ciência. É por isso que as ideias consolidadas pela prática da ciência funcionam quando postas à prova. E é por isso também que quando o assunto a ser discutido cai em território mapeado pela ciência ela é a melhor escolha para nos guiar.

Por mais que a religião fale explicitamente sobre alguns aspectos do mundo natural, seu foco é outro, e suas afirmações sobre a natureza, independentemente de sua fonte, foram escritas por indivíduos que viveram em tempos remotos e tinham bem menos conhecimento sobre o mundo do que nós temos agora. Além disso, essas informações foram passadas por muitos anos como tradição oral, estando sujeitas as mudanças e alterações que são inevitáveis nessa forma de transmissão, o que torna arriscado interpretá-las literalmente.

Em seu conto “Do rigor na ciência”, o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899- 1986) conta a história de um império em que a arte da cartografia chegou a tal ponto de perfeição que quando os cartógrafos foram mapear o império eles produziram um mapa que tinha o tamanho do próprio império e coincidia com ele ponto a ponto. Essa obra de cartografia acabou sendo descartada pelas gerações seguintes, pois era inútil como mapa. A lição aqui pode ser bem resumida no famoso dito do filósofo polonês Alfred Korzybski (1879-1950): “o mapa não é o território”.

De fato, tanto a visão de mundo fornecida pela ciência quanto a fornecida pela religião não são a realidade em si, e sim abstrações dessa realidade criadas pelos humanos (ou entregues aos humanos, na visão da religião) para nos ajudar a compreender o mundo em que vivemos. Nenhum dos dois mapas é uma representação completa ou perfeita da realidade – não podem ser, pois essa é a natureza dos mapas.

Quando se trata de questões espirituais, a ciência em si não tem muito a dizer, ao menos não de forma direta e explícita, e a discussão fica entre a filosofia, a tradição e a religião. Mas quando o assunto é o mundo natural, quando temos que tomar decisões baseadas na realidade física, o melhor que podemos fazer para tomar o caminho certo é explorar essa realidade em si, tentar mapeá-la, desvendar seus mistérios e descobrir seus padrões.

É isso que a ciência tenta fazer, seja estudando o movimento dos planetas, o comportamento humano, a dinâmica das sociedades, as ligações entre os átomos de uma molécula, o funcionamento das bactérias ou o desenvolvimento da vida na Terra. O fruto desse esforço não é uma réplica da realidade física, mas é o melhor mapa que temos para navegá-la.

THIAGO FRANÇA é biólogo e doutor em fisiologia. Realiza pesquisa na área de neurociência e, nas horas vagas, escreve sobre a prática científica nos dias hoje.
E-mail:  thiago.fa.franca@gmail.com.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, “Discussão noite adentro”, ilustracão de William Blades (1824-1890). Imagem: Wikimedia Commons.

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3 Comentários

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  3. Alessandra said:

    Parabéns pelo texto. É uma ótima dica para usar em vários ambientes – escolares ou não. A analogia com o mapa de Borges para demonstrar os limites de um guia é perfeita.

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