Pronunciamento de Salles dissimula omissões e atrasos com manchas de óleo

Acuado por protestos, críticas, ações judiciais e pedido de CPI, ministro do Meio Ambiente tentou defender governo em cadeia nacional de TV .

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quinta-feira, 24 de outubro de 2019, 12h25.

Passados 51 dias desde o início do aparecimento de sucesssivas manchas de óleo em praias do Nordeste, ontem, quarta-feira (23), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, fez pronunciamento em cadeia nacional de TV para defender a atuação do governo em meio ao que já se configura como o maior desastre ambiental ocorrida no litoral brasileiro.

Muito mais do que uma prestação de contas, a fala de Salles em rede nacional foi uma reação a manifestações de protesto, ações judiciais e críticas de cientistas, ambientalistas, de prefeitos e governadores e até de deputados – que protocolaram um pedido de CPI – contra as omissões, a negligência e a demora do governo federal no enfrentamento dessa crise ambiental. A começar por pelo fato de o ministro só ter acionado o Plano Nacional de Contingência (PNC) no dia 11 deste mês, passados 41 dias desde o surgimento das primeiras manchas.

O governo do presidente Jair Bolsonaro tem sidoo criticado também por ter decretado a extinção, em abril, dos dois comitês que integravam o PNC – uma “irresponsabilidade [que] deixou o país desguarnecido para esta situação de crise nacional”, como afirmou em nota na terça-feira (22) a Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema Nacional).

 

Fauna desconsiderada

Apesar de ter apresentado em seu pronunciamento números da mobilização pelo governo, Salles nada mencionou sobre o tamanho do estrago, que já alcançou cerca de 200 praias em 77 cidades de nove estados, com a iminência de serem atingidos o Espírito Santo e o Pará.

Fiel ao seu estilo de priorizar o mundo dos negócios e deixar em segundo plano o meio ambiente, Salles afirmou que o óleo que tem chegado às praias tem sido retirado “praticamente no mesmo dia, sendo restabelecidas as condições para o turismo e a segurança dos visitantes”. Mas nada mencionou sobre a fauna aquática que tem sido massacrada pelo avanço do óleo. Após atingir 12 unidades de conservação marinhas, o derramamento agora se aproxima do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, onde estão o maior maior banco de corais e a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul.

Mas, ao agradecer aos voluntários, o ministro lembrou pelo menos do “imprescindível uso de equipamentos de segurança adequados no caso de participação na retirada do óleo encontrado”.

Aviso tardio, pois já começaram a ser registradas as primeiras vítimas da falta desse tipo de proteção, apresentando sintomas de dor de cabeça, enjoo, vômitos, erupções e pontos vermelhos na pele. Altamente tóxicos e presentes no petróleo cru, hidrocarbonetos poliaromáticos têm baixo peso molecular e acabam se misturando com a água, informou à TV Globo a presidente do Conselho Regional de Química de Pernambuco, Sheylane Luz.

Providenciar equipamentos de segurança individual adequados em quantidade compatível com a magnitude dessa catástrofe  deveria ter sido uma das várias medidas que poderiam ter sido tomadas pelo governo já no início de setembro, duas semanas antes da fracassada viagem de 16 dias do ministro Ricardo Salles pelos Estados Unidos e pela Europa para tentar desfazer a imagem ambiental negativa do governo.

Na imagem acima, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em pronunciamento na TV em rede nacional em 23/out/2019. Imagem: TV BrasilGov/YouTube.

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Um comentários;

  1. Luís Muniz said:

    Sim foi um descaso e falta total de ações de manejo e prevenção, as quais poderiam ter diminuído muito o impacto da tragédia, relegando as ações ao trabalho de voluntários, muitas vezes expostos perigosamente ao óleo. Hoje temos milhares de trabalhadores da pesca impossibilitados de exercerem suas atividades. Penso que a maior parte dessa tragédia esteja invisível, pois grande quantidade de óleo sequer chegou ao litoral, somente no litoral de PE foram quase 600 Ton recolhidas, as praias de Recife serão atingidas a partir deste fim de semana, aumentando em muito a extensão e a intensidade da tragédia.

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