Marinha e Ibama negam que mancha detectada por satélite seja de óleo

Formação de cerca de 200 km² próxima ao sul da Bahia pode seguir para o arquipélago de Abrolhos, alertam pesquisadores.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quarta-feira, 30 de outubro de 2019, 16h26.

A Marinha do Brasil e o Ibama negam que seja uma mancha de óleo uma formação de cerca de 200 km², detectada no mar na segunda-feira (28), a pouco mais de 50 quilômetros das praias do sul da Bahia pelo satélite Sentinel-1A, da Agência Espacial Europeia. Essa seria a primeira detecção na superfície do mar, e não em praias, do óleo que desde o final de agosto já atingiu 282 localidades em 97 cidades dos nove estados do Nordeste.

Com base em dados captados por radar pelo satélite europeu, imagens dessa formação foram processadas pelos pesquisadores Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e José Carlos Sícoli Seoane, professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Foi a primeira vez que observamos, para esse caso, uma imagem de satélite que detectou uma faixa da mancha de óleo original, ainda não fragmentada e ainda não carregada pelas correntezas”, disse Barbosa ao site Letras Ambientais (“Laboratório detecta imagem de satélite que pode explicar origem do óleo no Nordeste”, 29/out).

“O radar é muito sensível a ver rugosidade e lisura. O óleo é muito liso em comparação com a água do mar, que tem ondulações. Onde tem óleo, a água fica muito lisa. Esta é uma técnica consagrada para verificar se existe mancha de óleo”, disse Seoane ao Globo (“Pesquisadores da UFRJ localizam grande mancha de óleo no mar próximo à costa da Bahia”, 30/out).

“Agora, tem que ir lá verificar. Todo esse trabalho é feito para que vá lá e verifique antes que se chegue à costa ou arquipélago de Abrolhos, disse ao jornal o pesquisdor da UFRJ. No Parque Nacional Marinho de Abrolhos estão o maior banco de corais e a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul.

 

Marinha nega

Questionada por Direto da Ciência, a Marinha afirmou em nota de seu Departamento de Imprensa:

Em relação à possível mancha que estaria avançando pelo mar da Bahia, informamos que não se trata de óleo. Foram feitas quatro avaliações para confirmar: consulta aos especialistas da ITOF, monitoramento aéreo e por navios na região e por meio de satélite.
É importante frisar que a gravidade, a extensão e o ineditismo desse crime ambiental exigem constante avaliação da estrutura e dos recursos materiais e humanos empregados, no tempo e quantitativo que for necessário.
Segundo especialistas do ITOF, ela possui diversas características, podendo ser nuvem, fenômeno da ressurgência no mar etc.

ITOF é a sigla em inglês do Fundo Internacional para Poluição dos Petroleiros.

Procurado por telefone por Direto da Ciência, o professor da UFRJ contestou a resposta da Marinha. “Existe a possibilidade de essa imagem ser de alguma outra coisa? Sim, existe. Mas, para verificar isso, é preciso ir ao local e colher amostras. A assinatura espectral de uma mancha de óleo nessa imagem é bem específica”, afirmou Seoane.

O pesquisador da UFRJ reconhece a possibilidade de a formação detectada ser de um biofilme, que é um material oleoso originado pela degradação de algas. Mas ele acha que essa hipótese não é plausível. “Nunca se ouviu falar de um biofilme de 200 km²”, disse Seoane.

 

Nota técnica do Ibama

Também na manhã desta quarta-feira, o Centro Nacional de Monitoramento e Informações Ambientais (Cenima), do Ibama, emitiu nota técnica sobre a imagem. o documento conclui que “não é plausível associar tal feição suspeita registrada na imagem de radar do Satélite Sentinel 1A (…), como feição com caracteres de derramamento oleoso, pois suas características texturais e multiespectrais, mais ainda e principalmente as condições meteorológicas locais apontam para a ocorrência de uma célula meteorológica de alta intensidade”.

O professor da UFRJ rejeitou a conclusão do Ibama. Além de negar que as características dos dados coletados não sejam de óleo, Seoane observou que a própria nota podera sobre a necessidade de verificação. “A confirmação da veracidade da detecção remota dependerá sempre da inspeção do local da ocorrência por barcos ou aeronaves que possuam sensores específicos de idetificação (laser e Infravermelho)”, afirma o documento.

Questionado por meio de sua assessoria de imprensa, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) não se pronunciou.

 

Navios na região

A Marinha divulgou nota à imprensa, informando a presença de nove navios na região marítima entre Porto Seguro e Abrolhos, mas não fez nenhuma menção às imagens. “A intenção é ampliar a cobertura para a visualização de manchas na água e o seu recolhimento, caso detectadas”, afirmou a nota.

A Marinha e o MMA têm afirmado que, devido às suas características físico-químicas, o óleo derramado, que seria de origem venezuelana, não flutua na superfície da água nem se precipita no fundo do mar – o que dificulta o rastreamento das manchas. O fenômeno foi comprovado experimentalmente pelo Núcleo de Dinâmica dos Fluidos da UFRJ, como mostrou a reportagem de Álvaro Pereira Júnior neste domingo, no Fantástico.

O professor da UFRJ afirmou que parte do derrame pode ser constituido de óleo mais leve, e que esse seria a origem da assinatura espectral na imagem obtida por meio do satélite europeu, não sendo incompatível com a característica do tipo do óleo desse desastre de não boiar, permanecendo abaixo da superfície. Sendo assim, poderemos ter novidades sobre essa misteriosa formação amanhã, quinta-feira (31), na passagem de um satélite Sentinel gêmeo.

Em tempo: Na citada reportagem publicada no Letras Ambientais, o pesquisador Humberto Barbosa, da Ufal, afirmou que a imagem do Sentinel “mostra que a origem do vazamento pode estar ocorrendo abaixo da superfície do mar. Com isso, levantamos a hipótese de que a poluição pode ter sido causada por um grande vazamento em minas de petróleo ou, pela sua localização, pode ter ocorrido até mesmo na região do Pré-Sal”.

Na manhã desta quarta-feira, em audiência pública na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados, Olivaldi Alves Borges Oliveira, diretor de Proteção Ambiental do Ibama, declarou que não descarta a possibilidade de o desastre com óleo no Nordeste ser proveniente do pré-sal. O Ibama afirmou que ele se enganou e que análises mostram que óleo tem origem venezuelana (“Diretor do Ibama não descarta que óleo no Nordeste seja do pré-sal”, O Estado de São Paulo).


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