O discurso de Bolsonaro em Riad e o desmonte da política ambiental

Presidente admitiu ter ‘potencializado’ queimadas, relacionando aumento de incêndios florestais à sua rejeição a políticas anteriores.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quinta-feira, 31 de outubro de 2019, 15h34.

O UOL noticiou em primeira mão, ontem, quarta-feira (30), que em seu discurso no mesmo dia em Riad, na Arábia Saudita, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “potencializou as queimadas na Amazônia brasileira ocorridas nos últimos meses por discordar da política ambiental de governos anteriores”. A reportagem apresentou um vídeo, mas que não incluiu o trecho em que aparece essa afirmação.

A declaração de Bolsonaro, seguida de toda a sua abordagem sobre a Amazônia em seu discurso, pode ser conferida a partir da marcação de 16min55s do vídeo a seguir.

Segue a transcrição dessa fala.

Há poucas semanas o Brasil foi duramente ‘atracado’, atacado por um chefe de Estado europeu sobre as ‘cuestões amazônica’. Problemas que acontecem anos após anos, que é da cultura por parte do povo nativo queimar e depois derrubar uma parte da sua propriedade para o plantio para sobrevivência. Mas foi potencializado por mim exatamente porque eu não me identifiquei com políticas anteriores adotadas no tocante à Amazônia. A Amazônia é nossa. A Amazônia é do Brasil.

O discurso completo do presidente brasileiro ontem em Riad, de pouco mais de 20 minutos, foi amplamente reproduzido por simpatizantes bolsonaristas no YouTube a partir do vídeo acima, publicado pelo canal Bolsonaro TV.

O chefe de estado ao qual Bolsonaro se referiu foi o presidente da França, Emmanuel Macron. No final de junho, na cúpula do G20, em Osaka, no Japão, o líder francês ameaçou não assinar o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul se o governo brasileiro abandonasse o Acordo de Paris sobre o clima.

 

Amazônia em chamas

Até 19 de agosto, poucos dias antes do decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para combater as queimadas na Amazônia, o número de focos de calor detectados na região eram 38.227 mil focos de calor – um aumento de 140% em relação ao ano passado e de 70% em relação à média dos três anos anteriores, segundo o Observatório do Clima (“Recorde de queimadas reflete irresponsabilidade de Bolsonaro”, 21/ago). E o período seco, por si só, não explica esse aumento, como explicou a nota técnica “Amazônia em chamas”, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Já na noite de ontem, em entrevista ao programa Central GloboNews, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi obrigado a ser evasivo sobre a “potencialização” das quiemadas declarada por Bolsonaro após ela ser mencionada pela jornalista Mônica Waldvogel. (Confira a partir de 38 min do vídeo.)

Muito mais que um fato constrangedor para o governo, o reconhecimento pelo presidente da República das consequências de sua rejeição às políticas anteriores é um marco importante. Principalmente após reiteradas críticas à sua gestão por ter desmantelado não só o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mas também a própria política ambiental brasileira.

Leia também:

Na imagem acima, o presidente Jair Bolsonaro em discurso em Riad, na Arábia Saudita, em 30/10/2019. Foto: Bolsonaro TV/YouTube/reprodução.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

3 Comentários

  1. Roger Guimarães said:

    Isso é motivo para crime de responsabilidade.

    • Marcelo said:

      Fake news! A frase “foi potencializado por mim” remete às discussões e ataques com o Mácron do início do vídeo “Foi duramente atacado”, não a potencializar as queimadas, o Bolsonaro não usou a concordância correta, mas a mídia é muito oportunista e incompetente na interpretação de texto.

      • Maurício Tuffani said:

        Oportunistas são bolsonaristas como você, que apelam para a incompetência discursiva de Bolsonaro como desculpa para livrar a cara dele.

*

Top