Vencer manchas de óleo exige investir em pesquisa, diz Academia Brasileira de Ciências

Entidade científica aponta esforço contra a Zika em 2016 como ‘modelo bem sucedido de enfrentamento de emergências’.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Segunda-feira, 4 de novembro de 2019, 13h54.

Para enfrentar o catastrófico derrame de óleo que já atingiu 321 localidades em 125 municípios de nove estados, destruindo ecossistemas, ameaçando a saúde da população e prejudicando a economia do país, é necessária a articulação de grupos de pesquisa, como a que foi realizada contra a epidemia de Zika, com a liberação de R$ 50 milhões para pesquisa, afirmou a Academia Brasileira de Ciências (ABC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A situação “exige medidas urgentes, de curto, médio e longo prazo”, afirmou o físico Luiz Davidovich, presidente da ABC, em carta enviada na sexta-feira (1º) ao ministro Marcos Pontes, do MCTIC. “Testemunhamos um modelo bem sucedido de enfrentamento de emergências”, disse o dirigente da entidade científica ao ministro, referindo-se ao esforço nacional coordenado pelo ministério em 2016, envolvendo universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento federais e estaduais.

A emergência atual, diz Davidovich, requer  a liberação de recursos do Plano Nacional de Ciência e Tecnologia do Setor Petróleo e Gás Natural (CTPETRO), que foi criado em 1999 e está com recursos contingenciados há vários anos. “Quanto mais cedo essa atividade científica começar, melhor será” , disse o presidente da ABC.

No final da manhã desta segunda-feira (4), Direto da Ciência solicitou ao MCTIC uma posição do ministério sobre a sugestão da ABC. Se houver resposta, esta página será atualizada com a informação recebida.

Atualização de 6/out: a resposta veio noo início da noite de ontem, terça-feira (5). Confira em

 

Confira a carta da ABC ao MCTIC

Rio de Janeiro, 1 de novembro de 2019

PR-Especial-01/2019

Ao Senhor
Marcos Cesar Pontes
Ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações

Prezado Senhor Ministro,

O catastrófico derrame de óleo que invade grande parte do litoral nacional, destruindo ecossistemas, ameaçando a saúde da população e prejudicando a economia do país, exige medidas urgentes, de curto, médio e longo prazo.

Recentemente, testemunhamos um modelo bem sucedido de enfrentamento de emergências: a articulação de grupos de pesquisa que ocorreu por ocasião da epidemia de Zika, com a liberação de 50 milhões de reais para pesquisa.

A emergência atual requer uma providência semelhante: a liberação de recursos do fundo CTPetro, que vêm sendo contingenciados há vários anos, em caráter de urgência, para o financiamento de pesquisa, necessariamente interdisciplinar, que permita a recuperação dos ecossistemas afetados e também investigue eventuais prejuízos à saúde da população que possam advir desse acidente. Quanto mais cedo essa atividade científica começar, melhor será.

O desafio agora é muito mais amplo que o da epidemia de Zika, exigindo recursos mais vultosos para medidas de curto prazo, como a limpeza do litoral, a contenção de impactos ambientais e a avaliação dos riscos à saúde da população, bem como de médio e longo prazo, envolvendo a recuperação dos biomas atingidos.

Lembramos que vários pesquisadores estão sem condições de atuar, devido à escassez de recursos nas instituições de ensino superior. Por isso mesmo, é fundamental sensibilizar o Ministério da Economia em relação à necessidade urgente de descontigenciar o CTPetro.

O MCTIC deve ter uma papel importante nesse processo, articulando em rede a intervenção necessária, seja no lado da otimização de recursos, com a cooperação das FAPs e de empresas, seja na estruturação de projetos  com participação multidisciplinar de pesquisadores. A chamada pública, em conjunto com as FAPs, deve prever fomento ágil e imediato para o curtíssimo prazo e fomento para iniciativas de prazo mais longo.

É urgente também estabelecer o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), que já vem sendo discutido há vários anos. Se já estivesse em funcionamento, seria um instrumento fundamental para o enfrentamento dessa emergência nacional.

A Academia Brasileira de Ciências está pronta para colaborar na mobilização da comunidade científica, como o fez recentemente ao promover reunião no Recife. Cabe, no entanto, aos governos federal e estaduais, e muito especialmente ao MCTIC, articular redes de grupos de pesquisa que possam contribuir para mitigar os danos causados por esse acidente de grandes proporções.

Cordialmente,
Luiz Davidovich
Presidente
Academia Brasileira de Ciências.

Na imagem acima, fuzileiro naval  no arquipélago de Abrolhos (BA), em operação de monitoramento e limpeza de áreas atingidas pelas manchas de óleo. Foto: Marinha do Brasil.

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