Governo deve respostas sobre risco de dano da barragem de Belo Monte

Documento de concessionária de energia expõe falha no projeto da maior usina hidrelétrica da Amazônia, afirmam reportagens.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Domingo, 10 de novembro de 2019, 8h59.

El País Brasil e o jornal britânico The Guardian noticiaram na sexta-feira (8) o risco de danos estruturais à principal barragem da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará (PA), que teriam sido apontados em uma correspondência da concessionária Norte Energia S/A para a Agência Nacional de Águas (ANA). De acordo com as reportagens, as informações do documento implicam que houve falhas graves no projeto da obra na previsão de níveis de secas do Rio Xingu.

Orçada em R$ 26 milhões e iniciada em junho de 2011, a obra, que já consumiu R$ 40 bilhões em valores corrigidos, tem sua conclusão prevista para este ano, mas já foi parcialmente inaugurada em maio de 2016 pela então presidente Dilma Roussef (PT) nos últimos dias de sua segunda gestão no governo federal.

Em caráter de emergência, a empresa pede autorização para reduzir a vazão mínima estabelecida para o Rio Xingu para evitar que a água do reservatório da usina fique abaixo da cota mínima de 95,20 metros. Se a água ficar abaixo de nível de segurança, haverá o risco de uma onda de ventos que “atingirá áreas da barragem não protegidas por rocha”, que, por sua vez, “pode resultar danos estruturais à principal barragem do Rio Xingu, que é Pimental”, afirma no documento o diretor-presidente da Norte Energia S/A, Paulo Roberto Ribeiro Pinto, segundo a reportagens.

 

Estiagens ignoradas

No pedido, o dirigente da concessionária afirma que “o atual período de estiagem tem se mostrado bastante crítico, com vazões afluentes baixas no Xingu, sendo nos últimos dias da ordem de 750 metros cúbicos por segundo”.

“A usina precisa manter uma vazão acima do mínimo de 700 metros cúbicos na Volta Grande do Xingu, região que vive uma situação de total insegurança das condições de vida provocada pela insuficiência do volume de água liberado por Belo Monte”, afirma a a  jornalista Eliane Brum, do El País Brasil, em sua reportagem.

“A primeira pergunta é: como é possível que o projeto da maior hidrelétrica da Amazônia e uma das maiores do mundo não tenha contemplado o comportamento medido e documentado do rio Xingu?”, escreve a repórter. “Entre 1971 e 2014, ocorreram vazões inferiores a 800 metros cúbicos no mês de outubro pelo menos cinco vezes: em 1971 (691 m3/s), 1972 (639 m3/s), 1975 (733 m3/s), 1998 (715 m3/s) e 2010 (782 m3/s)”, afirma ela com base em dados da ANA.

“Não é possível entender como essa seca aparece como surpresa para a Norte Energia, se já ocorreu outras vezes. Saber como o rio se comporta é a parte inicial de qualquer projeto”, afirma na reportagem Francisco Del Moral Hernández, doutor em Ciências da Energia pela USP, que analisou a carta da concessionária a pedido do  do El País Brasil.

 

Danos socioambientais

Ra região conhecida como Volta Grande do Xingu, onde vivem dois povos indígenas, os Juruna e os Arara, e população ribeirinha, a impossibilidade de pescar já provoca fome, escreve Eliane Brum. “Essas pessoas são tratadas como se fossem invisíveis”, diz a bióloga Cristiane Costa Carneiro, assessora do Ministério Público Federal em Altamira (PA), registra a reportagem. “Eles nunca fizeram parte do processo de consulta da barragem. Hoje a crianças estão com fome, e os pais sofrem de depressão. É uma emergência humanitária.”

“Ambientalistas e cientistas alertaram que isso [o sistema de barragens da usina no Rio Xingu] iria devastar um dos mais exclusivos hotspots de biodiversidade do mundo”, destaca o jornalista Jonathan Watts no Guardian. “Economistas questionaram a viabilidade de um esquema pago com fundos de pensão e receita tributária, mas projetado para funcionar com apenas 40% de sua capacidade de 11.200 MW. Promotores envolvidos na investigação de corrupção da Operação Lava Jato descobriram que os empreiteiros de Belo Monte recebiam taxas inflacionadas em troca de propinas a partidos políticos”, acrescenta o repórter britânico, que também teve acesso ao pedido de redução de vazão.

As duas reportagens informam que contactaram a concessionária, que se limitou a responder: “A Norte Energia, empresa responsável pela Usina Hidrelétrica Belo Monte, informa que vem cumprindo rigorosamente os compromissos estabelecidos no licenciamento ambiental do empreendimento”.

A Agência Nacional de Águas (ANA), que recebeu da Norte Energia S/A o pedido de autorização de redução de vazão, e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que licenciou o projeto da obra da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, estão devendo respostas às perguntas enviadas na quinta-feira (7) pelos jornais El País BrasilThe Guardian.

Leia as reportagens:

Na imagem acima, obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Vitória do Xingu, no Pará, em fevereiro de 2014. Foto: Regina Santos/Divulgação Norte Energia.

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2 Comentários

  1. Paulo Victor said:

    Não tem falha de projeto nem de construção. O que existe e uma discussão sobre a operação da usina sob uma condição de vazão pouco comum. Trabalho com barragens há quase 40 anos e não sei de onde saiu essa maluquice.

  2. Pingback: Seca no rio Xingu ameaça barragem de Belo Monte - ClimaInfo

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