Corte raso total na Floresta Amazônica ultrapassa 20% com taxa de 2018-2019

Ministros Ricardo Salles e Marcos Pontes anunciam amanhã, no Inpe, total de área desmatada na região.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Domingo, 17 de novembro de 2019, 10h50.

Ainda não se sabe qual será a taxa anual de desmatamento da Floresta Amazônica a ser anunciada amanhã pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. No entanto, mesmo que o tão aguardado número seja 7% menor que o anterior, o corte raso acumulado na parte brasileira da grande floresta tropical sul-americana não será inferior a 20% de sua área original de cerca de 3,99 milhões de quilômetros quadrados. Ou a 19% do domínio original de todo o bioma Amazônia, que inclui matas com vegetação de menor porte e também parte da maior bacia hidrográfica do mundo, totalizando 4,197 milhões de  quilômetros quadrados.

Mas não houve redução. E podemos afirmar isso categoricamente.

Mesmo levando ao extremo o saudável e imprescindível ceticismo científico e jornalístico, é altissimamente improvável que de 1º de agosto de 2018 a 31 de julho deste ano tenha sido registrada uma área de corte raso inferior àquela que foi medida no período anterior pelo sistema Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A razão dessa elevadíssima improbabilidade de redução da taxa anual de desmatamento medida pelo Prodes está nos dados de outro sistema do Inpe, o Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), cuja finalidade é alertar a fiscalização do Ibama e órgãos ambientais estaduais. Seus dados não medem a extensão real da devastação, mas indicam, por meio da análise de seus dados, a tendência da taxa anual de desmatamento, que é calculada pelo Prodes.

 

Alertas apontam grande alta

De agosto de 2018 a julho de 2019, os alertas de desmatamento do Deter (representados pela linha vermelha no gráfico a seguir) apontaram uma área total de 6.840 km², que corresponde a um aumento de 49,6% sobre os 4.572 km² de avisos no período anterior (linha verde).

Gráfico gerado pelo portal TerraBrasilis para os dados do sistema Deter. Imagem: Inpe/TerraBrasilis/Reprodução. Clique na imagem para ampliá-la em outra aba ou janela.

Para apoiar diariamente a fiscalização e ser mais ágil que o Prodes, que é consolidado anualmente, o Deter considera grandes polígonos, mas sem a precisão do outro sistema. Mas as tendências de aumento de desmatamento que ele indica têm sido historicamente confirmadas pelo Prodes.

 

Mais de 10.000 km²?

Com base nas correlações de dados do Deter e do Prodes desde 2004, foi estimada uma previsão acima de 10 mil quilômetros quadrados para a taxa anual de desmatamento a ser anunciada amanhã.  No estudo “Clarifying Amazonia’s burning crisis”, publicado na sexta-feira (15) na revista Global Change Biology, Jos Barlow, Erika Berenguer Rachel Carmenta e Filipe França afirmam:

A área de desmatamento detectada pelo PRODES varia de agosto a julho de cada ano e é, em média, 1,54 maior que a medida de desmatamento em tempo quase real do DETER-b. O uso desse fator de conversão sugere que mais de 10.000 km² de floresta foram perdidos em o período entre agosto de 2018 e julho de 2019, o que tornaria a maior perda anual desde 2008.

Essa previsão também chamou a atenção da jornalista Ana Lúcia Azevedo, que entrevistou alguns dos autores desse estudo e publicou hoje no Globo a reportagem “Amazônia teve maior perda de floresta desde 2008, diz estudo”. A ser conferido amanhã.

 

Prodes não mostra devastação total

Sempre é bom lembrar que a devastação total é ainda maior do que mostram os dados do Prodes, que correspondem somente às superfícies onde houve eliminação total da cobertura vegetal por meio de corte raso. Eles não consideram áreas muito degradadas pela extração seletiva de madeira e também por incêndios ocorridos anteriormente, que até dezembro de foram monitoradas por outro projeto do Inpe, o Mapeamento da Degradação Florestal da Amazônia Brasileira (Degrad)Depois disso, a degradação pasou a se monitorada pelo Deter.*

O monitoramento da Floresta Amazônica pelo Degrad começou em 2007. Seus dados mais recentes apontaram que em 2016 essa devastação chegou a 27.370 km², uma área pouco menor que a do estado de Alagoas. No Prodes finalizado nesse ano ano (2015-2016), o corte raso alcançou 7.893 km².*

A extensão dessas áreas degradadas sem corte raso é muito variável devido à influência das oscilações das condições climáticas. Nos anos mais secos, essa degradação tende a ser maior.

 

Dando tempo para esfriar

No final das contas, neste ano os dados do Prodes acabam sendo anunciados relativamente mais cedo em comparação com anos anteriores, quando a divulgação ocorreu no final de novembro e até no início de dezembro.

Isso acontece apesar de toda a desconfiança que o atual governo lançou sobre os dados do Inpe desde o início do ano, com declarações completamente sem noção do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, culminando na estapafúrdia acusação do presidente Jair Bolsonaro contra o então diretor do instituto, Ricardo Galvão, de estar “a serviço de alguma ONG”.

A razão para isso talvez seja uma rara compreensão inteligente em meio ambiente por parte do atual governo federal: dar mais tempo para que a explosiva taxa anual de desmatamento da Amazônia a ser divulgada amanhã possa esfriar até que tenha início, em 2 de dezembro, a 25ª Conferência das Partes da Convenção do Clima (COP-25), que será realizada em Madri, na Espanha.

Além de não ter conseguido reduzir suas emissões de carbono, o Brasil está muito longe de cumprir sua própria meta de reduzir até 2020 para 3.925 km2 sua taxa anual de desmatamento da Amazônia (fixada pela Lei nº 12.187/2009 e pelo Decreto nº 9.578/2018).

Reduzir emissões de carbono será cada vez mais difícil com retrocessos como a recente investida do agronegócio para anular a moratória da soja, por meio da qual desde 2006 as maiores comercializadoras de grãos garantem não comprar o grão de áreas ilegalmente desmatadas no Cerrado e na Amazônia. Sem falar no Decreto nº 10.084, publicado por Bolsonaro no dia 6, que abruptamente revogou a proibição do cultivo de cana-de-açúcar na Amazônia e no Pantanal, vigente há dez anos.

*Trechos em verde acrescentados às 13h29.

Na imagem acima, corte raso de 160 hectares em área de Reserva Legal em Tapurah (MT). Foto: Mayke Toscano/Gcom-MT.

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