Desmonte ambiental faz Amazônia ter maior desmatamento anual desde 2008

Governo ignorou alertas que apontavam risco de aumento descontrolado da devastação.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Segunda-feira, 18 de novembro de 2019, 17h57.

Não foi surpresa a notícia, anunciada nesta segunda-feira (18) pelo governo federal, do aumento de 29,5% do desmatamento da Amazônia. Os 9.762 km² de corte raso na floresta de 1º de agosto do ano passado a 31 de julho deste ano – a maior taxa de desmatamento na região desde 2008 – são o resultado direto de uma política de governo que há seis meses provocou a seguinte advertência.

Estamos diante de um risco real de aumento descontrolado do desmatamento na Amazônia. Os frequentes sinais contraditórios no combate ao crime ambiental podem transmitir a ideia de que o desmatamento é essencial para o sucesso da agropecuária no Brasil.

O alerta foi feito em um comunicado divulgado em 8 de maio, assinado por oito ex-ministros do Meio Ambiente – Rubens Ricupero (1993-1994), José Carlos Carvalho (2002), Marina Silva (2003-2008), Carlos Minc (2008-2010), Izabella Teixeira (2010-2016), Sarney Filho (2016-2018), Edson Duarte (2018). No documento, eles afirmaram também que “a governança socioambiental no Brasil está sendo desmontada, em afronta à Constituição”. E acrescentaram:

Estamos assistindo a uma série de ações, sem precedentes, que esvaziam a sua capacidade de formulação e implementação de políticas públicas do Ministério do Meio Ambiente, entre elas: a perda da Agência Nacional de Águas, a transferência do Serviço Florestal Brasileiro para o Ministério da Agricultura, a extinção da secretaria de mudanças climáticas e, agora, a ameaça de “descriação” de áreas protegidas, apequenamento do Conselho Nacional do Meio Ambiente e de extinção do Instituto Chico Mendes. Nas últimas três décadas, a sociedade brasileira foi capaz, através de sucessivos governos, de desenhar um conjunto de leis e instituições aptas a enfrentar os desafios da agenda ambiental brasileira nos vários níveis da Federação.

 

Alertas ignorados

A importância desse alerta foi ignorada pelo ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, integrante da ala “ideológica” do primeiro escalão do governo do presidente Jair Bolsonaro, que desde sua campanha eleitoral vinha ameaçando represálias para fiscais do Ibama e do ICMBio que autuam garimpeiros e madeireiros ilegais e outros devastadores.

Salles ignorou também o significado dos alertas do sistema Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe, que indicam a tendência da taxa anual de desmatamento. Bolsonaro, por sua vez, lançou suspeita sobre o instituto e acusou seu então diretor, Ricardo Galvão, de estar “a serviço de alguma ONG”.

Como bem sintetizou o Observatório do Clima ao comentar a taxa anual divulgada hoje,

O dado é decorrência direta da estratégia implementada por Bolsonaro de desmontar o Ministério do Meio Ambiente, desmobilizar a fiscalização, engavetar os planos de combate ao desmatamento dos governos anteriores e empoderar, no discurso, criminosos ambientais. O próprio presidente já declarou, com orgulho, que havia mandado seu antiministro do Ambiente, Ricardo Salles, “meter a foice no Ibama”. Salles obedeceu.
(“Alta no desmate coroa desmonte ambiental de Bolsonaro e Salles”)

 

‘Pária ambiental’

Assim como ignorou esses alertas de perigo, o presidente e seu ministro desconsideraram também avisos de oportunidades, como explica o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) em nota distribuída nesta tarde:

Às vésperas de mais uma Conferência do Clima da ONU, o aumento do desmatamento, somado às queimadas em agosto na Amazônia e a denúncias de ataques a populações tradicionais, tende a enfraquecer a posição do Brasil como defensor da floresta e do clima. Corre-se o risco de o país tornar-se um pária numa época em que a commodity ambiental tem grande valor nas relações internacionais.
(“Aumento do desmatamento na Amazônia coloca o Brasil na berlinda ambiental”)

Apesar de a taxa anual divulgada hoje se referir ao período de 1º de agosto do ano passado a 31 de julho deste ano, o governo Bolsonaro nem sequer pode alegar que a responsabilidade por essa alta do desmatamento é também da gestão de seu antecessor, Michel Temer. Na verdade, no segundo semestre do ano passado houve queda nos alertas do Deter.

Na entrevista coletiva hoje no Inpe, em que foram anunciados os dados do Prodes, Salles foi sucessivamente questionado por jornalistas sobre se a alta do desmatamento não estaria relacionada à retórica antiambientalista do presidente Bolsonaro. Após dar respostas evasivas, a saída do ministro mais uma vez foi encerrar abruptamente a entrevista.

Veja a evolução do corte raso anual e do acumulado desde o início do monitoramento feito pelo Inpe em 1989 em

Na imagem no alto, área de floresta derrubada em início de queimada na Amazônia. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

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