Sem plano concreto para conter devastação, governo só tem ‘conversa fiada’

Dinheiro supostamente ‘prometido’ por países ricos é o factoide mais recente da tática do ministro Salles de gerar distrações para a imprensa.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quinta-feira, 21 de novembro de 2019, 14h25.

Cheguei a pensar em usar para este artigo o título “Estadão cai na lorota de Ricardo Salles sobre ‘dinheiro prometido’ por países ricos”. Não o fiz porque na verdade o erro do centenário jornal paulistano aconteceu apenas com a manchete, e não com a reportagem “País pedirá verba antidesmate em COP; Bolsonaro fala que queimada é ‘cultural’”, dos jornalistas André Borges e Mateus Vargas. Não bastasse afirmar “País vai a conferência da ONU ‘cobrar’ verba contra desmatamento”, a chamada de capa tem o desastroso subtítulo “Ministro do Meio Ambiente diz que reivindicará na COP-25 recursos ‘prometidos’ ao país”.

Uma coisa é o jornal ser fiel aos termos empregados pelo personagem da notícia. Outra coisa é “bater palmas para louco dançando”. Com a crescente e lamentável tendência crescente de a maior parte das pessoas não ler nem sequer parte das reportagens e só prestar atenção aos títulos, escrever chamadas e, principalmente, manchetes tornou-se uma tarefa de responsabilidade cada vez maior.

Antes que distorçam o que estou dizendo, ressalto que não estou afirmando que jornalistas não devem reproduzir afirmações cuja divulgação considerem prejudicial para a sociedade. Independentemente de serem mentiras ou falácias certas declarações de autoridades, a imprensa não pode deixar de mostrá-las para seus leitores fielmente à forma como foram expressas. O que estou dizendo é que títulos e especialmente manchetes não podem fazer o jogo da propaganda governamental. Pior ainda, quando essa propaganda não passa de desinformação.

Desmonte ambiental

Já antes de assumir o governo, o então candidato a presidente Jair Bolsonaro prometeu represálias contra fiscais ambientais. Nos seus primeiros dias de gestão, deu início ao esvaziamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Entre outros desmandos, seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, manteve desocupados vários cargos de direção e chefias da pasta e precipitou a perda do bilionário Fundo Amazônia, mantido com doações da Alemanha e da Noruega para projetos ambientais.

Quando os primeiros resultados dessa política antiambiental chegaram na forma de dados de alertas de desmatamento da Amazônia gerados pelo Instituto de Nacional de Pesquisas Ambientais (Inpe), Bolsonaro atacou a credibilidade do órgão e de seu diretor, Ricardo Galvão, que foi demitido. Mesmo após o vexame internacional por esse e outros ataques à ciência, o governo manteve sua ofensiva no desmonte da política ambiental brasileira.

Na segunda-feira (18), com o governo desmoralizado internacionalmente ao confirmar o maior aumento do desmatamento na Amazônia nos últimos 11 anos, Salles precisava anunciar uma resposta à crise que ele próprio ajudara a criar. Em entrevista coletiva ontem, quarta-feira (20), o ministro mais uma vez não apresentou nenhum plano de ação concreto e afirmou que pretende “cobrar”, na COP-25, recursos estrangeiros “que foram prometidos e até agora não recebemos”. E limitou-se a mencionar a previsão de US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020, previstos no Fundo Verde para o Clima (GFC). No entanto, além de não haver nada disso prometido para o Brasil, o país não conseguiu reduzir suas emissões de carbono.

Cortina de fumaça

Apesar de tantas táticas retóricas do ministro, não há para elas uma estratégia. “O governo federal continua sem planos para conservar a Amazônia e evitar sua devastação. O anúncio de hoje parece mais uma tentativa do ministro de se desviar dos problemas reais”, afirmou ontem o Observatório co Clima na nota “Ímprobo Ricardo Salles faz anúncio vazio para a Amazônia”.

O presidente Jair Bolsonaro tem usado e abusado da tática de para manter a sociedade ocupada e até mesmo entorpecida com múltiplas distrações. “O diversionismo parece ser o único método de Bolsonaro”, como bem disse hoje na Folha o colunista Bruno Boghossian (“Após criar distração ambiental, Bolsonaro lava as mãos para desmatamento”).

Embora não recorra a esse tipo de estratagema com mesma frequência do presidente, Salles tem gerado desinformações e também tem conseguido reverberá-las com relativo sucesso nas redes sociais e em parte da imprensa. E tem conseguido explorar com eficácia veículos que o ajudam com perguntas que só servem para, como se diz no jargão do vôlei, “levantar para ele cortar”, ou que não o submetem a questionamentos constrangedores nem apontam suas contradições e desinformações.

A contumácia de Salles com essas práticas motivou as entidades ClimaInfo, Greenpeace Brasil e Observatório do Clima a elaborar o “Ricardo Salles Fakebook – Um guia para as falsidades e retóricas do Ministro de Meio Ambiente do Brasil”. Para jornalistas que queiram estar “vacinados” contra a tóxica “cortina de fumaça” gerada pelo ministro, esse documento é leitura obrigatória.

Na imagem acima, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em entrevita coletiva em 20/nov/2019. Imagem captada de vídeo do canal do MMA no YouTube.

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3 Comentários

  1. Thelma Krug said:

    Ministro Salles: o senhor quer ir à COP em Madri para reinvidicar dinheiro internacional para a Amazonia. Ministro, permita-me sugerir que o senhor se informe melhor sobre como funciona o processo multilateral da Convencao do Clima, para não se decepcionar e, acima de tudo, tentar justificar o que está acontecendo na Amazônia por falta de recursos internacionais. Aliás, se a Amazonia é nossa, então temos que agir de acordo. Infelizmente, nesta COP, o Brasil nao está levando noticias muito boas. Primeiro, o aumento do desmatamento na Amazonia Legal e segundo, um conjunto de ações que não são convincentes e, além de tudo, não são novidade para ninguem. Caso o senhor venha a ler o Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento na Amazonia Legal, atualmente na sua 4a fase (a primeira fase foi em 2004) veria que regularizacao fundiaria, monitoramento e controle e fomento à ações produtivas sustentáveis são três dos quatro pilares do Plano, além de uma governança envolvendo grande número de ministérios e estados amazônicos. Nesta última fase do Plano, foi incluído um eixo adicional de incentivos econômicos, que, entendo, é um eixo que tem potencialmente grande efeito na redução do desmatamento, ao lado de monitoramento e controle. Como o senhor menciona a questão de pagamentos por serviços ambientais, seria interessante ver também que esta não é uma idéia nova, e que já foi encaminhada anos atrás para consideração do Congresso, sem sucesso. Além disso, senhor ministro, talvez o senhor seja abordado na COP para explicar a revogação do Decreto 6.961/2009 sobre o zoneamento da cana-da-açucar e também sobre a moratória da soja, que foi uma iniciativa das próprias empresas produtoras de soja para estimular o mercado internacional, na demonstração que a soja sendo exportada não era produzida às custas do desmatamento, principalmente na Amazonia. Permita-me dizer, senhor ministro, que a cada novo dia, o país acorda com mais um tiro no próprio pé. Com tudo isso, o senhor ainda espera que a comunidade internacional se sensibilize? Sugiro que mostre primeiro resultados e intenções críveis e, tenho certeza, que sua chance de sucesso será muito maior. Com tudo isso, senhor ministro, espero que o senhor viaje em classe econômica, fique em um hotel bom porém modesto e se alimento em restaurantes simples. Esta sempre foi a forma como os negociadores brasileiros enfrentaram dias e noites de negociações nas COPs. Desejo ao senhor boa sorte.

    • Maurício Tuffani said:

      Thelma Krug, para quem não conhece, é pesquisadora do Inpe, foi diretora do Departamento de Florestas e de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente (MMA), secretária nacional adjunta da Secretaria de Programas e Políticas de Ciência e Tecnologia no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), secretária nacional da Secretaria de Mudança Climática e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e é vice-presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) desde outubro de 2015.
      Mais informações sobre ela estão na reportagem “Diretora de combate a desmatamento no MMA cai por criticar ‘falta de transparência’”.

    • Paulo Artaxo said:

      Sugestões MUITO Claras ao Ministro, Thelma. Excelente texto. Basta manter os instrumentos que JÁ temos hoje e não incentivar a ilegalidade, que o desmatamento na Amazônia pode cair rapidamente. É barato, mas requer que a lei seja cumprida. A imagem do Brasil vai melhorar substancialmente.

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