Precisamos proteger a ciência que nos protege dos desastres naturais

Está em curso um enfraquecimento das ações e estruturas geradas a partir de investimentos públicos feitos ao longo de décadas.

COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE*,
especial para Direto da Ciência.**
Sexta-feira, 22 de novembro de 2019, 12h50.

Ainda sob o impacto do desastre de derramamento de petróleo em vasta extensão da costa brasileira e da recente divulgação dos dados que demonstram o aumento do desmatamento na Amazônia (previsto, infelizmente), o início do período de chuvas em várias regiões brasileiras nos remete a outra situação complexa que demanda alertas precoces e monitoramento continuado.

No Brasil, a maior parte das ameaças naturais com risco de desastre está relacionada a fatores climáticos. Geralmente, é nos períodos chuvosos que acontecem as inundações e os deslizamentos de terra, assim como durante a seca aumentam os riscos de estiagem e incêndios. Isso foi lamentavelmente constatado pelo maior desastre natural da história do país, que ocorreu em 2011 na região serrana do Rio de Janeiro e que, sem qualquer alerta aos moradores, ceifou mais de 900 vidas.

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) foi criado naquele ano como uma resposta imediata a essa tragédia. Sua criação objetivou capacitar o país em pesquisas multidisciplinares sobre desastres naturais e atuar diretamente no monitoramento e na emissão de alertas de risco, baseados na melhor ciência disponível. O sistema de alerta de risco de desastres naturais desenvolvido pelo Cemaden é único na América Latina, e tem como foco a prevenção de riscos de enxurradas, enchentes, inundações, movimentos de massa e impactos devastadores de secas, para evitar perdas de vidas e de bens materiais, e colapso de safras e de infraestrutura (estradas, pontes, redes elétricas, etc.).

Como parte integrante do sistema nacional de gestão de riscos de desastres naturais, ao longo dos seus oito anos de atuação o Cemaden ajudou a desenvolver e implantar um sistema de detecção e prevenção de desastres naturais. Com esse sistema, evita-se a morte de milhares de pessoas, particularmente nos municípios com maior risco de desastres no Brasil, em função da qualidade dos alertas e da articulação com profissionais da Defesa Civil.

 

Rede de monitoramento

Milhares de sensores automáticos espalhados por todo o país (pluviômetros, sensores hidrológicos e sensores geotécnicos para detecção de movimentos de massa) formam uma rede de monitoramento com a mais moderna tecnologia, coordenada em uma Sala de Operações de alerta funcionando 24 horas por dia e 365 dias por ano, com um corpo técnico-científico altamente capacitado com mestres e doutores em hidrologia, geologia, meteorologia, geografia e ciências sociais e em outras áreas relevantes. Tais profissionais analisam a interação complexa entre os impactos causados pelo meio físico, deflagrador dos desastres naturais, e as vulnerabilidades dos sistemas sociais e naturais.

As atividades de monitoramento e avaliação de riscos de desastres incluíram, por exemplo, os impactos das secas no Sistema Cantareira em São Paulo em 2014 e 2015 e no Semiárido brasileiro de 2012 a 2018, além de milhares de alertas de riscos de deslizamentos em encostas e inundações, gerando subsídios para a tomada de decisão por gestores públicos. A consolidação do Cemaden, que levou o Brasil a elevar seu patamar de entendimento e alerta de desastres naturais por meio de ciência robusta e inovadora, combinada com uma estrutura operacional sem precedentes no país, aponta o melhor caminho para reduzir a vulnerabilidade de numerosas populações humanas que vivem em áreas de risco.

Há importantes lições a serem aprendidas com o exemplo do Cemaden: emissão de alertas precoces, redes de monitoramento contínuo e gestão integrada de situações de crise com respaldo da melhor ciência disponível.

 

Dificuldades e incertezas

Sabemos como fazer. No entanto, parece que avançamos na direção contrária. Está em curso um enfraquecimento das ações e estruturas geradas a partir de investimentos públicos feitos ao longo de décadas e que alavancaram a ciência no Brasil, permitindo a geração de respostas para a sociedade brasileira no enfrentamento de complexos problemas socioambientais. Vemos uma série de dificuldades e incertezas associadas a propostas de restruturação de instituições, cortes orçamentários que afetam a condução de projetos de pesquisa, reduzindo bolsas de estudo e de pesquisa e a manutenção da infraestrutura das instituições.

A questão é por que não avançamos na prática e na expansão da experiência bem-sucedida de alerta e monitoramento de desastres naturais para outros setores que envolvem riscos ambientais severos e sistemas socioecológicos vulneráveis, em vez de questionar a credibilidade e a transparência de dados científicos e propor mudanças arbitrárias de reorganização de órgãos de fomento e instituições de pesquisa que comprometem o funcionamento da ciência brasileira e, consequentemente, o desenvolvimento pleno do país?

* A Coalizão Ciência e Sociedade reúne 70 pesquisadores de instituições de pesquisa de todas as regiões brasileiras.


** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, Sala de Situação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em São José dos Campos (SP). Foto: Cemaden/Divulgação.
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