Investidores cobram dos governos mais ambição nas metas climáticas

Mudança do clima prejudicará a economia, afirmam na COP-25 administradores de mais de US$ 37 trilhões em ativos.

JOSÉ ALBERTO GONÇALVES PEREIRA
Quinta-feira, 12 de dezembro de 2019, 14h35.

Um grupo 631 investidores institucionais tendo sob sua gestão US$ 37 trilhões em ativos cobram compromissos climáticos mais ambiciosos dos quase 200 países reunidos na 25ª Conferência do Clima (COP-25), em Madri, na Espanha.

Numa das mais contundentes declarações já publicadas sobre mudanças climáticas por nomes de peso do mercado financeiro, o documento alerta que “há um hiato na ambição: a implementação total das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) levaria a um aumento inaceitável na temperatura, causando substanciais impactos econômicos negativos.” As NDCs são as metas de redução nas emissões de gases de efeito estufa assumidas pelos países no âmbito do Acordo de Paris.

A COP-25 começou no dia 3 e terminará oficialmente amanhã, sexta-feira (13), podendo ser estendida até sábado, a depender da necessidade de superar impasses na negociação sobre o artigo 6 do Acordo de Paris. Tópico mais relevante entre as diversas discussões travadas na COP-25, o artigo 6 refere-se à cooperação entre os países nas ações de redução das emissões de gases de efeito estufa por meio do mercado de carbono.

Divulgada esta semana pela iniciativa The Investors Agenda, a declaração foi subscrita por alguns dos maiores gestores de ativos do mundo, a exemplo do USB Asset Management e do California Public Employees’ Retirement System. O documento pede o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis, a eliminação do uso do carvão na geração de energia elétrica e que se estabeleça um preço “significativo” para o carbono.

 

Risco para o sistema financeiro

Chama a atenção, porém, a ausência dos dois maiores gestores de ativos, o BlackRock e o Vanguard. Eles têm rotineiramente votado contra moções exigindo ações contra as mudanças climáticas em assembleias de acionistas de companhias ligadas aos combustíveis fósseis, de acordo com o jornal The Guardian. Apenas dois fundos brasileiros aderiram à iniciativa, ambos pertencentes ao Grupo Integral.

Os investidores temem que a falta de regras para uma transição ordenada rumo à economia de baixo carbono coloque em risco a estabilidade do sistema financeiro. “É vital que os governos se comprometam com o aprimoramento de padrões de relato financeiro relacionado ao clima, manifestando apoio público à adoção das recomendações da TCFD”, assinala um trecho da declaração.

Liderada pelo empresário de comunicações e ex-prefeito de Nova York (2002-2013) Michael Bloomberg, a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD) foi criada em dezembro de 2015 para promover padrões de transparência na divulgação pelas empresas dos riscos financeiros associados às mudanças climáticas. Em julho de 2017, a TCFD publicou um influente relatório com recomendações para as empresas proverem investidores e o mercado financeiro de informações sobre esses riscos.

 

Carvão, petróleo e gás

Uma das principais preocupações dos investidores é a de que ativos nos setores de carvão, petróleo e gás fiquem encalhados no futuro em decorrência de legislações climáticas restritivas aos combustíveis fósseis. Segundo análise publicada este ano pelos Princípios para o Investimento Responsável (PRI), iniciativa apoiada pela ONU, os mercados acionários globais poderão perder entre US$ 2,3 trilhões e US$ 4,5 trilhões, representando 3,1% a 4,5% do valor de mercado das maiores empresas de capital aberto do mundo, a depender do grau de restrição ‘restritivo’ das legislações que serão implementadas.

Se não se movimentar, o setor financeiro vai pagar a conta”, afirma Lauro Marins, diretor executivo do CDP América Latina, que lançou na última terça-feira na COP-25 a metodologia do Índice CDP/Resultante, desenvolvida conjuntamente com a Resultante Consultoria. O índice estreará em março, fornecendo aos investidores informações mais abrangentes sobre a política climática das empresas, de modo a orientar suas decisões de compra e venda de ações.

Ontem, dia 11 de dezembro, os ministros assumiram a coordenação das negociações na COP-25. Eles têm até amanhã para concluir um complexo acordo para a regulamentação do artigo 6 do Acordo de Paris. Um dos itens mais controversos é a discussão sobre a possibilidade de os países desenvolvidos completarem suas metas de cortes nas emissões com créditos da redução no desmatamento nos países em desenvolvimento (offsetts).

Na imagem acima, figura ilustra mudanças de temperatura de 1880 a 2015 como uma média de cinco anos. A coloração laranja representa temperaturas mais quentes que a média da linha de base 1951-1980, e a azul representa temperaturas mais baixas que a linha de base. Imagem: Goddard Flight Space Center/Nasa/Divulgação.

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