Usuários voltam a relatar falhas para atualizar currículos Lattes

CNPq afirma não ter registrado instabilidade, mas promete melhorias e modernização da base de dados.

CÍNTHIA LEONE
Terça-feira, 4 de fevereiro de 2020, 6h33.

Pesquisadores entraram em contato com Direto da Ciência nas últimas semanas para relatar dificuldades para atualizar seus currículos na Plataforma Lattes do CNPq. Desde 2017 o site vem acompanhando os problemas, que persistiram ao longo de 2018, 2019 e agora, no início de 2020. As reclamações são referentes a erros de processamento para o envio de dados de produção acadêmica.

Criado em 1999 e nomeado em homenagem ao físico Cesare Mansueto Giulio Lattes (1924-2005), o “Currículo Lattes”, como é conhecido, tem cerca de 6,5 milhões de currículos cadastrados. A plataforma é a principal ferramenta de padronização de dados dos pesquisadores que trabalham no Brasil e passou a ser elemento obrigatório em avaliações de concursos públicos e de concessão de bolsas. Sem conseguir informar artigos publicados, bancas realizadas ou apresentações em congressos, candidatos que buscam participar de processos seletivos podem ser prejudicados.

Ana Brito, que é mestre em Ciências Ambientais, desde 10 de janeiro tenta sem sucesso acessar seu currículo para atualizações. Segundo a pesquisadora, ao tentar inserir a publicação de capítulo de livro, com o ISBN e o ano da publicação, a plataforma “trava” no segundo passo . “O mesmo está ocorrendo com tentativas de atualização de outras produções, como apresentação de trabalho e palestra ou trabalhos publicados em anais de eventos”, afirma Brito, que diz ter conseguido atualizar o Lattes pela última vez em novembro de 2019. “Nem o resumo estou conseguindo editar, mas tenho conseguido acesso ao perfil para consulta.”

A estudante de medicina veterinária Heloíse Rose Farias Rocha não conseguiu acessar seu currículo na base de dados mesmo informando dados de login e senha corretos. Ela também não consegue receber o link no e-mail alternativo indicado para recuperação de senha em casos de problemas com o login. “Não consegui resolver, tive que realizar meu cadastro novamente com outro endereço de e-mail”.

 

Mensagem de erro

Keila Resende, que faz especialização em Educação a Distância, afirma que não consegue atualizar seu cadastro na plataforma e que está apelando para os colegas para saber o que fazer. “Na mensagem de erro não mostra a quem eu devo me reportar”, diz. “Acho que deveria ter uma mensagem com o e-mail e contato do suporte, ao menos para que a gente falasse com alguém para tentar resolver.”

Segundo Flávia Maria Bastos, coordenadora da Coordenaria Geral de Bibliotecas da Unesp, os membros daquela instituição estão com dificuldades apenas em relação à integração do Lattes com o identificador ORCID (Open Researcher and Contributor ID). Pesquisadora da área de Ciência da Informação, ela pondera que a base brasileira tem outras fragilidades em relação ao que é praticado internacionalmente.

Para a estudiosa, ao integrar dados pessoais, informações referentes a grupos de pesquisa e produção científica, o Lattes se assemelha à plataforma DeGóis de Portugal. Por outro lado, continua Bastos, a falta de padrão para o preenchimento e validação dos dados pode fazer com que a base seja considerada inconsistente e não confiável para o propósito institucional que tem atualmente. “De acordo com o conceito de repositório institucional adotado, é necessário armazenar não somente os metadados, mas também o texto completo [de cada artigo publicado]”, afirma.

 

Envelhecimento

A primeira reportagem de Direto da Ciência sobre instabilidades na Plataforma Lattes é de fevereiro de 2017. Em 2018, os problemas voltaram a se repetir, e o CNPq, órgão federal que administra a base de dados, se pronunciou indicando que as falhas eram pontuais. Foi então que em uma entrevista exclusiva para o site, Mario Neto Borges, presidente do CNPq naquela época, informou que a plataforma tinha envelhecido e que havia um projeto em curso para sua modernização e integração com o ORCID.

Segundo Borges, pelo tamanho da base de dados e pelos elementos que a compõem (informações sobre grupos de pesquisa, redes de pesquisadores e avaliações institucionais, por exemplo), o Lattes demandaria o uso de tecnologia de Big Data. Outro problema é que a plataforma estaria excessivamente voltada ao mundo acadêmico brasileiro.

Desde então o órgão não se pronunciou novamente a respeito do andamento do projeto e negou rumores de que o Lattes poderia ser extinto. No início de 2019 todas as dificuldades relatadas anteriormente voltaram a se repetir e novamente no começo deste ano.

 

Modernização

Questionado se as falhas estariam relacionadas com o fim do prazo de entrega dos relatórios anuais dos bolsistas (31/jan), o CNPq afirma que não registrou instabilidade de forma ampla na plataforma recentemente. Apesar disso, o órgão informa que estão sendo feitas melhorias, principalmente em relação à integração com outras bases de dados. Essas mudanças seriam parte de um processo de modernização, que inclui a criação de um aplicativo pelo qual o usuário poderá, futuramente, cadastrar e atualizar currículos, além de trocar mensagens com o CNPq. O órgão declara ainda que outras melhorias dependem de dotação orçamentária.

O CNPq orienta os usuários com dificuldade a entrar em contato com o órgão pelos canais oficiais de atendimento: pelo telefone +55 61 3211-4000 das 8h às 20h, ou pelo formulário http://cnpq.br/web/guest/central-de-atendimento.

Segue a reprodução da nota do CNPq na íntegra:

Nota sobre instabilidade na Plataforma Lattes e iniciativas de modernização e aprimoramento

Em relação à Plataforma Lattes, não temos registros de instabilidade ampla, que tenha comprometido a funcionalidade de forma geral. Contabilizamos, por exemplo, nos últimos sete dias, 114.450 atualizações de currículos. Sabemos que a Plataforma Lattes congrega informações relevantes da comunidade científica e tecnológica que são usadas por centenas de instituições nacionais e internacionais e, por isso, há um permanente comprometimento do CNPq com a manutenção e o aprimoramento da Plataforma. Nesse sentido, estão sendo desenvolvidas integrações e melhorias. Encontram-se em fase final de homologação algumas integrações como a do Banco Digital de Teses e Dissertações (BDTD/OASIS-BR) com o IBICT; o preenchimento do identificador ORCID está funcionando adequadamente, e será incluído, no próximo dia 5 de fevereiro, no arquivo XML que é fornecido às instituições por meio do serviço Extrator Lattes. Além disso, estão sendo avaliadas integrações diretas que permitam a sincronização de dados. A nova diretriz da Plataforma, como aprovada por sua Comissão de Gestão (COMLATTES), é a de autopopulação de dados, evitando que o usuário preencha novamente os mesmos dados que estejam em outras bases.

Ainda como parte do processo de modernização da Plataforma Lattes, o CNPq desenvolveu um aplicativo para smartphones (APP CNPq), disponível, neste momento, para o sistema Android, que permite receber mensagens do CNPq, visualizar e compartilhar o Currículo Lattes. Esse aplicativo está sendo aperfeiçoado e funcionalidades mais avançadas, como editar e atualizar o currículo, serão disponibilizadas tão logo tenham sido concluídas.

A implementação de outras iniciativas depende da existência de condições orçamentárias adequadas.

Mantemos o suporte aos usuários por meio do atendimento do CNPq, disponível pelo telefone +55 61 3211-4000 das 08:00 às 20:00, e via eletrônica, por meio do formulário http://cnpq.br/web/guest/central-de-atendimento. Recomendamos, no entanto, que quaisquer atualizações sejam feitas com, pelo menos, 24 horas de antecedência, para que seja realizada, tempestivamente, a devida publicação no Busca Textual do Currículo Lattes.

Na imagem acima, formulário online para cadastramento de currículos na Plataforma Lattes. Imagem: Reprodução.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

*

Top