Mudança do clima pode causar sumiço de quase metade das praias do mundo

Todos os continentes seriam afetados pela elevação do nível do mar até 2100, segundo estudo publicado na revista nature Climate Change.

EDUARDO GERAQUE
Quinta-feira, 5 de março de 2020, 9h16.

A erosão das praias de areia em todo o mundo vai se agravar ainda mais se as emissões de gases de efeito estufa que contribuem com as mudanças climáticas globais não forem, ao menos, atenuadas. Uma pesquisa publicada na edição de fevereiro da revista Nature Climate Change estima que quase metade das praias de todo o planeta vão desaparecer até 2100. A principal causa dessas alterações na paisagem mundial é o aumento do nível do mar atrelado ao novo panorama climático.

“É um estudo muito relevante e bem feito. Sabemos que o aumento do nível do mar vai fazer com que um grande número de praias desapareçam. É um trabalho que modelou todo este processo com cuidado”, afirma o físico Paulo Artaxo, professor da USP, especialista em ciências climáticas e um dos cientistas brasileiros membros do IPCC, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas.

 

Simulações

De acordo com a pesquisa, afirma Artaxo para Direto da Ciência, as praias podem perder, em média, entre 80 e 250 metros de faixa de areia, o que representa um impacto muito grande para toda a costa brasileira. “Na prática, elas não vão existir mais. Por isso, o Brasil precisa urgentemente de um plano de adaptação climática bem elaborado, baseado em ciência. Sem isso, os prejuízos para nossas cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, Recife, Vitória entre outras serão sérios. A hora de pensar em soluções é agora. A pior ação é imaginar que o problema não existe”, diz Artaxo.

Assinado por Michalis Vousdoukas, do Centro Conjunto de Pesquisa da Caomunidade Europeia, em Ispra, na Itália, e vários colaboradores, o artigo fez várias simulações com base em cenários de mudanças climáticas apresentados pelo IPCC tanto para 2050 quanto para 2100. O grupo de pesquisadores usou um conjunto robusto de imagens de satélite e modelos matemáticos para obter os resultados. Além de cenários de subida do nível do mar.

 

Ações urgentes

O método tem incertezas e limitações, mas, mesmo assim, os cientistas afirmam no texto que a necessidade de os países desenharem e implementarem medidas efetivas de adaptação é urgente. Grande parte das áreas costeiras do mundo são muito habitadas. A elevação do nível do mar, nesse caso, teria sérios impactos. Além da adaptação, a redução moderada de emissões de gases de efeito estufa nos próximos anos, como prevê, por exemplo, o Acordo de Paris, poderia reduzir os efeitos sobre o desaparecimento das praias em até 40%.

O sudeste da América do Sul, que engloba as regiões Sudeste e Sul do Brasil, e o Nordeste do país serão afetados pelas mudanças nas linhas de costa, mas não estão entre as regiões mais problemáticas, segundo as análises. Até o final do século, vários países terão mais de 60% do seu litoral afetado segundo as projeções. A lista inclui a República Democrática do Congo, Gâmbia, Ilhas Jersey, Suriname, Comores, Guiné-Bissau, Paquistão e Mayotte (França). Em todos esses locais, o impacto não será apenas social, mas também econômico, porque as praias, nestas regiões, são grandes atrativos turísticos.

 

Países mais afetados

Em números absolutos de quilômetros de litoral, vários dos grandes países do mundo serão os mais afetados. Mas, na lista feita pelos pesquisadores, não está o Brasil. A Austrália aparece potencialmente como o país mais atingido. Os dados mostram que 11.426 km de praias serão erodidas em um cenário menos dramático. O que representa 50% do litoral australiano. Pelo mesmo critério, o ranking mundial de um eventual desaparecimento de praias de areia tem ainda o Canadá (6.426 km), Chile (5.042 km), México (4.507 km), China (4.300 km), Estados Unidos (3.945 km), Rússia (3.056 km) e Argentina (2.948 km).

Em todos os casos, as atividades antrópicas vão desempenhar um papel essencial, não apenas em nível global, mas também local, segundo os cientistas. O papel do homem pode aumentar e muito a erosão das praias que já estará acelerada por causa do novo clima do planeta. Ou então, com medidas inteligentes e bem programadas, as políticas públicas podem também evitar que a erosão litorânea se intensifique e gere prejuízos tanto humanos quanto econômicos.

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Na imagem acima, praia na Costa Dourada em Queensland, na Austrália. Foto: Petra, sob licença Creative Commons Attribution 2.0 Generic.

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