Editores científicos buscam sobrevida para o Acesso Aberto

Publishers tentam novos modelos de captação de recursos para aliviar a cobrança de mais taxas dos autores de artigos.

EDUARDO GERAQUE
Quarta-feira, 11 de março de 2020, 7h00.

Dois editores de periódicos científicos sem fins lucrativos, segundo reportagem publicada na revista Science, estão tentando novas fórmulas de subsidiar o Acesso Aberto para suas revistas, sem transferir integralmente os recursos para o bolso dos autores. Como os custos das revistas de acesso grátis não desaparecem por mágica, atualmente, eles são cobertos normalmente pela cobrança de assinaturas das universidades. E também pelas chamadas taxas de processamento de artigos (APCs).

Se der certo, a estratégia piloto usada pela Annual Reviews, que publica dezenas de revistas, entre elas a Annual Review of Cancer Biology, vai transformar por completo sua forma atual de assinaturas. A ideia é disponibilizar de forma livre o conteúdo científico de cinco de suas revistas que estão entre as mais citadas em suas áreas pelo preço da assinatura que as universidade já pagam hoje, mas com um desconto de 5% no preço anual. A editora pretende assim manter todos os seus clientes ativos. Caso isso não ocorra, o acesso aos papers será fechado novamente, e cobrado de forma individual.

O projeto piloto está sendo bem-sucedido até agora, disse à Science Richard Gallagher, presidente e editor-chefe da Annual Reviews. “Por volta de 90% dos assinantes fecharam assinaturas que incluem a Annual Review of Cancer Biology.” Com isso, a publicação teve o seu acesso totalmente liberado no dia 9 de março. Outras revistas podem ir na mesma direção do Acesso Aberto nos próximos meses se os contratos continuarem a serem feitos. “O sistema de assinatura para o livre acesso é a nossa melhor opção como alternativa à cobrança de taxas dos autores. Não temos muitos outros modelos”, diz Curtis Brundy, administrador de bibliotecas na Iowa State University.

 

Em fase de teste

Outra inovação em fase de teste foi criada pela Association for Computing Machinery (ACM) no início de 2020. A editora está sugerindo, segundo a Science, que as instituições que publicam uma quantidade maior de artigos em um dos 59 periódicos do grupo passem, na verdade, a desembolsar uma quantia superior àquela que é paga atualmente por meio das assinaturas.

Em alguns casos, esse aumento pode ser de dez vezes no ano ou, no total, chegar ao equivalente a US$ 100 mil. Quem pagar mais terá o direito de publicar nas revistas de forma ilimitada sem o desembolso da taxa para publicação de artigos, cobrada atualmente dos autores. Com esse mecanismo, a ACM pretende manter todos os 21 mil artigos publicados todos os anos liberados gratuitamente para os interessados.

Nestes primeiros meses do ano, algumas universidades começaram a adotar o modelo proposto pela ACM. Em janeiro, o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e a Universidade Carnegie Mellon assinaram contratos de validade de três anos com a editora. As instituições aceitaram pagar mais pelo direito de publicar de forma ilimitada nas publicações.

 

Onde podem falhar

Pelos cálculos da ACM, as 11 universidades que publicam mais de 75 artigos por ano em suas revistas são as que pagariam a taxa mais alta de US$ 100 mil, um valor 10 vezes maior do que elas pagam hoje. Em outra categoria, as 90 instituições de ensino que publicam anualmente entre 20 a 29 trabalhos pagariam US$ 35 mil por ano. Em um cálculo arredondado, a ACM estima que se metade das mil principais universidades do mundo fecharem contratos pelo novo método, todos os seus periódicos serão Acesso Aberto em um prazo de sete anos.

Apesar do sucesso inicial nos dois casos, a solução está longe de ser apontada com algo realmente eficaz no longo prazo. Os editores, em primeiro lugar, não estão convencidos que este é um modelo que pode se espalhar para todas as editoras. Segundo, é sempre complicado fazer com que as instituições paguem mais. Muitos podem se perguntar: Por que vou ter um maior custo se tem muitas pessoas com acesso ao mesmo material de graça?

Além disso, ainda segundo os números da ACM, dois terços de sua receita de assinatura saem de aproximadamente 1.700 instituições que publicam até três artigos por ano. Ou seja, elas terão um bom motivo para cancelarem suas assinaturas assim que os periódicos se tornarem gratuitos. Segundo a ACM, a renda obtida com as taxas cobradas dos autores não é suficiente para suprir esse eventual déficit. Pela tabela feita pela editora, quem publicar até três artigos anuais terá que pagar o equivalente a US$ 8 mil.

 

No Brasil

Segundo Abel Packer, diretor do Programa Scielo/Fapesp, o movimento feito no exterior pelas grandes editoras é uma reação à pressão de agências governamentais que financiam as pesquisas. “O acesso aberto à literatura científica vem evoluindo nos últimos 20 anos. Entretanto, a maior parte da produção científica indexada internacionalmente permanece acessível somente via assinaturas, o que limita o amplo uso do conhecimento científico”, diz Packer. Por isso, estão atrás de novas fontes de recursos tanto as editoras comerciais, que lucram bastante com as revistas, quanto as sociedades científicas, que revertem a comercialização das revistas para financiar as atividades, afirma Packer.

No caso específico do Brasil, onde os novos modelos de financiamento do acesso às revistas científicas comercializadas estão batendo às portas, segundo Packer, o desafio é um pouco diferente. “Aqui, o acesso às revistas é operado em grande parte de modo centralizado pelo portal Periódicos [da] Capes. Por isso, a questão será como redistribuir os recursos do custeio do portal para financiar o acesso aberto”, diz o diretor do Scielo. Muitas das revistas científicas brasileiras de Acesso Aberto, também, seguem o modelo de financiamento sem fins lucrativos. O que deve facilitar o acesso ao conteúdo pelos leitores.

Na imagem acima, logo do movimento Open Access. Imagem: Wikimedia Commons.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

Um comentários;

  1. Roberto Berlinck said:

    Caro Tuffani, o modelo de acesso aberto se mostrou ruim, por três motivos: a) a comunidade acadêmica permitiu o surgimento e a ampliação do número de periódicos de forma exagerada; b) a cobrança de valores exagerados, e ; c) a maioria dos periódicos de acesso aberto faz peer-review ruim e publica artigos ruins, bem ruins. O resultado é ruim, ou muito ruim. É um modelo que precisa se re-inventar.

Deixe uma resposta para Roberto Berlinck Cancelar resposta

*

Top