Consumo de água contaminada turbinou efeito do vírus zika

No Nordeste, grande quantidade de casos de microcefalia está associado à má qualidade dos recursos hídricos.

EDUARDO GERAQUE
Quinta-feira, 12 de março de 2020, 16h00.

A explosão de casos de microcefalia no Nordeste brasileiro principalmente entre 2015 e 2016 intrigou cientistas e médicos brasileiros. Por que o Nordeste? Era uma pergunta recorrente que eles se faziam. Neste contexto, conversas entre o grupo do neurocientista Stevens Rehen, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o do professor Renato Molica, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), jogaram suspeitas sobre algum outro fator ambiental que poderia estar turbinando a infeção viral e causando danos ainda mais potentes ao sistema nervoso das pessoas.

“Nossa hipótese estava em cima da existência de um co-fator ambiental evitável capaz de tornar a infecção do vírus zika mais danosa ao sistema nervoso”, afirmou Rehen a Direto da Ciência. Apesar de os casos de microcefalia terem explodido no Nordeste, a maior concentração de casos da doença sem as complicações neurológicas provocadas pelo vírus transmitido por mosquitos ocorreu no Centro-Oeste do país.

Como Molica é especializado em estudar os efeitos nocivos de cianobactérias sobre a saúde humana, e o Nordeste do Brasil, no mesmo período da epidemia do zika, passava por uma estiagem sem precedentes, a ingestão de água por meio de caminhões-pipa e outras fontes, como reservatórios higienizados de forma precária, poderia ser uma pista importante. Entre 2015 e 2016, segundo os números oficiais, 1.709 casos de microcefalia foram registrados nos estados do Nordeste associados ao vírus zika.

 

Cianobactérias

Os dados começaram a iluminar cada vez mais o problema. Uma análise dos números tabulados pelo SisAgua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), por exemplo, constatou que um terço da água consumida na região do Semiárido nordestino apresentava 20 mil cianobactérias por mililitro. Em termos comparativos, nas outras regiões do Brasil, essa mesma incidência foi bem menos expressiva, não chegando a 5% em alguns estados e atingindo um máximo de 25%, na região Sudeste.

Os cientistas também descobriram, e essa foi uma informação bastante relevante no decorrer da pesquisa, que metade dos reservatórios de água do Nordeste, usados para consumo humano, tinha uma alta incidência de saxitoxina, substância produzida pelas cianobactérias e potencialmente prejudiciais ao sistema nervoso tanto de humanos quanto de outros animais.

Um dos objetivos principais na bancada era testar se a saxitoxina, ao se combinar com o vírus da zika, realmente tinha um potencial maior de gerar danos ao sistema nervoso. As pesquisas analisaram as respostas tanto em camundongos que nasceram infectados pelo vírus quanto em organoides cerebrais humanos.

Nos dois casos, a combinação entre a toxina e o vírus agravou a neurotoxicidade do zika, segundo mostra o estudo do grupo, publicado na edição desta quinta-feira (12) da revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases.

 

Exposição crônica

“Existe uma carência histórica de saneamento básico em todo o Brasil, principalmente no Nordeste”, afirma Rehen. “Independente disso, o que estamos propondo é rediscutir as concentrações de toxinas que podem ser consideradas seguras na água, principalmente diante de epidemias virais e outros problemas de saúde”, afirma o pesquisador do Rio de Janeiro, que trocou uma promissora carreira no exterior no passado, para fazer pesquisa em seu país.

Segundo Rehen, não se pode descartar o fato de que a exposição crônica a substâncias tóxicas, ou àquelas cujo efeito sobre o corpo humano é pouco compreendido, pode tornar populações brasileiras, principalmente as mais carentes, vulneráveis a todo tipo de doença, além do próprio zika.

“Sabemos que a baixa qualidade da água consumida é um fator extremamente danoso. Além de rever as concentrações de toxinas (no caso, cianotoxinas) consideradas seguras em reservatórios, é preciso mais investimento em saneamento básico, monitoramento da qualidade das águas e vigilância sanitária”, afirmou o pesquisador do IDOR.

Direto da Ciência foi informado sobre o estudo por meio da Agência Bori, inaugurada em fevereiro com a missão de aproximar pesquisadores e jornalistas para promover a divulgação da produção científica do Brasil.

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Na imagem acima, organoide cerebral (minibrain) infectado com o vírus da zika por 13 dias. Em verde, as células infectadas, em vermelho os neurônios e, em azul, os núcleos de todas as células do organoide. Imagem: Divulgação dos pesquisadores.

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