Em 95% dos pontos analisados, rios da Mata Atlântica não têm boa qualidade

Água está em boas condições em apenas 5% dos 240 pontos analisados por 3.500 voluntários em 181 trechos de rios.

EDUARDO GERAQUE
Sexta-feira, 20 de março de 2020, 11h48.

Em tempos de mudanças climáticas e pandemias, dados divulgados nesta sexta-feira (20) pela Fundação SOS Mata Atlântica mostram que o sinal amarelo continua aceso para a qualidade dos rios que cortam os estados da Mata Atlântica.

Segundo o relatório “Retrato da Qualidade da Água nas Bacias Hidrográficas da Mata Atlântica”, publicado anualmente pela fundação, apenas 5% dos 240 pontos analisados estão com água em boas condições. O documento, lançado nas vésperas do Dia Mundial da Água (23/03), apresenta um panorama sobre a qualidade dos recursos hídricos de 181 trechos de rios brasileiros no ciclo hidrológico de março de 2019 a fevereiro de 2020.

Os autores do estudo, com base em dados comparativos coletados desde 2014 de forma voluntária, mas seguindo metodologia científica consolidada, reforçam o alerta. O Brasil precisa investir, com urgência, em ações voltadas à segurança hídrica. Por meio da universalização do saneamento básico integrado e de soluções baseadas na natureza, como a conservação dos ecossistemas e recuperação de florestas nativas, é que a qualidade dos rios do bioma Mata Atlântica vai melhorar, dizem os pesquisadores.

O trabalho feito por 3.500 pessoas de 199 grupos de monitoramento do projeto Observando os Rios engloba 95 municípios dos 17 estados abrangidos pelo bioma Mata Atlântica, com acompanhamento e supervisão técnica da fundação. Entre os 240 pontos analisados, 189 (78,8%) apresentaram índice de qualidade de água regular. Em 38 pontos (15,8%), a qualidade é ruim e, em um único ponto (0,4%), péssima. Somente 12 pontos (5%) apresentam qualidade boa na média do ciclo de doze meses e nenhum dos rios e corpos d’água tem qualidade ótima. Ou seja, 95% dos pontos monitorados apresentam qualidade da água longe do ideal.

 

Estado crítico

“Em termos regionais, os Estados de Goiás, do Mato Grosso do Sul e do Espírito Santo apresentam a melhor condição ambiental nos trechos de rios monitorados. Enquanto São Paulo apresenta maior tendência de melhoria”, afirma Malu Ribeiro, gerente da causa Água Limpa, da Fundação SOS Mata Atlântica. Apesar desse quadro, diz a ambientalista, é necessário destacar que a situação da água do Brasil não vem melhorando de forma considerável nos últimos anos.

“Os esforços dispendidos não têm apresentado grandes resultados. Há alguns exemplos distribuídos pelo país, como demonstram os dados, e que devem ser usados como modelo, reforçando que, quando há um investimento contínuo e bem planejado, é possível sucesso. Mas no geral, precisamos acender a luz amarela. Se não houver ações que tratem da gestão integrada da água como elemento de cooperação e sustentabilidade e, sobretudo, de inclusão e participação ativa nos espaços de tomada de decisão, o cenário pode piorar“, afirma Malu.

Os dados que atestam uma qualidade ruim ou péssima revelam que 39 trechos de rios estão com água sem poder ser utilizada para nenhum fim. O principal responsável por essa situação, segundo o estudo, é a poluição da água e as condições precárias destas bacias hidrográficas. Uma situação que leva à problemas de saúde pública e ao agravamento de insegurança hídrica.

 

Nascentes preservadas

“Para que tenhamos metas progressivas de qualidade da água nos milhares de rios e mananciais das nossas bacias hidrográficas na Mata Atlântica, é necessário fortalecer as políticas públicas de meio ambiente e água, além de reforçar a urgente necessidade de incluir a água na agenda estratégica do Brasil“, afirma Gustavo Veronesi, coordenador técnico do projeto Observando os Rios.

O próprio estudo mostra um exemplo positivo. Um dos pontos em que a qualidade da água foi considerada boa é o que existe na nascente do córrego Água Preta, um dos vários que foram engolidos pela metrópole paulistana. O riacho fica em plena zona oeste da cidade, no bairro da Pompeia. Antes de seguir seu curso, e ser canalizado, ele surge em uma área que está bem preservada, devido a iniciativa de moradores da região, que cuidam da mata nativa do local. Ali, ainda existe água de boa qualidade.

Na imagem acima, Rio Tietê no Parque de Lavras, em Salto (SP). Foto: Divulgação.

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