Corrida por drogas e vacinas contra o coronavírus resvala na segurança

Demorar meses para desenvolver um modelo eficiente e seguro antes de ele ser testado em humanos é um tempo bem gasto, explica pesquisador chinês.

EDUARDO GERAQUE
Segunda-feira, 23 de março de 2020, 7h40.

Na falta de uma vacina testada em humanos ou de algum medicamento que pudesse pelos menos acelerar a recuperação de quem está internado, os estudos científicos publicados diariamente sobre a pandemia de coronavírus são claros. Apenas o isolamento dos infectados e a quarentena dos grupos que podem estar contaminados vão conter a dispersão do vírus e, consequentemente, evitar a morte de milhões de pessoas no mundo.

Com a contenção da explosão de casos, segundo vários especialistas, ganha-se tempo. O sistema de saúde não fica sobrecarregado e os cientistas podem mergulhar na pesquisa de novas drogas.

Mas, se de um lado, testes, isolamentos e quarentenas são fundamentais como mostram os dados oficiais da Organização Mundial de Saúde, de outro, no médio prazo, o desenvolvimento de drogas e de vacinas contra o novo coronavírus é praticamente o único caminho para se conseguir o controle da pandemia.

“O melhor cenário possível para uma vacina é ela ser distribuída no ano que vem”, afirma Atila Iamarino, pesquisador da USP e divulgador científico. Por isso, até lá, o microbiologista, que participa de estudos coordenados pelo professor Paolo Zanotto, um dos principais virologistas do país, é enfático. “A China é o único país que conseguiu parar e reverter o número de casos. E fez isso com um número insano de testes”, diz Iamarino. Segundo ele, quanto mais medidas forem tomadas para realmente evitar o contato social, melhor será. Mesma posição defendida por Zanotto, em uma reunião na sede do Instituto de Estudos Avançados da USP na semana passada.

 

Protocolos severos

O problema, como defende Shibo Jiang, pesquisador chinês radicado nos Estados Unidos, em artigo na revista científica Nature, é que os severos protocolos de segurança, tanto na fabricação de vacinas quanto na de medicamentos, não podem ser negligenciados. Sob pena de fazer uma longa história de eficiência das vacinas ser destruída.

Demorar semanas e até meses para desenvolver um modelo eficiente e seguro, antes de ele ser testado em seres humanos, é um tempo muito bem gasto, segundo Jiang. Apesar de alguns grupos de pesquisadores no mundo, principalmente na China, terem anunciado o início dos testes em humanos de uma vacina para o mês de abril.

 

‘Tempo bem gasto’

“Investir em um modelo pré-clínico bom é um tempo bem gasto”, defende o cientista no artigo. Segundo ele, “o trabalho com o vírus SARS mostra que respostas imunológicas preocupantes foram observadas em furões e macacos, mas não em camundongos. Além disso, alguns fragmentos de proteínas virais podem provocar respostas imunes mais potentes ou menos arriscadas do que outros, e faz sentido aprender isso em estudos com animais antes de experimentá-los em pessoas”. Desde 2003, Jiang trabalha no desenvolvimento de drogas contra a Sars, também causada por um tipo de coronavírus.

Sem dúvida que a corrida por uma vacina ou droga é importante para frear a pandemia, mas os órgãos reguladores, segundo Jiang, devem continuar exigindo que os desenvolvedores de vacinas verifiquem respostas potencialmente prejudiciais em estudos com animais. “Eles também devem ter o cuidado de avaliar voluntários humanos saudáveis quanto a anticorpos contra qualquer coronavírus antes de incluí-los em testes de segurança. Os financiadores, por sua vez, precisam liberar mais doações para testes apropriados ao desenvolvimento de medicamentos e vacinas contra o coronavírus.”

Na imagem acima, ilustração do novo coronavírus (SARS-Cov-2). Imagem: U.S. Army Photo.

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