‘Cidades’ dentro da capital paulista são entraves para isolamento vertical

Estudo do Programa USP-Cidades Globais mapeia áreas vulneráveis onde a pandemia da Covid-19 pode explodir.

EDUARDO GERAQUE
Segunda-feira, 30 de março de 2020, 8h32.

A cidade de São Paulo não é homogênea. Muito pelo contrário, é marcada por desigualdades sociais chocantes. Agora, um estudo do Programa USP-Cidade Globais, do Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP), revela que a capital paulista tem oito grandes zonas diferentes, que estão misturadas dentro de toda a cidade.

Em tempos de pandemia, o mapa, elaborado em 2019, antes das notícias da eclosão do novo coronavírus, serve claramente para mostrar onde pode ser praticamente impossível de ser implantado o chamado isolamento vertical, ação que separaria a população mais idosa e com doenças pré-existentes dos demais grupos durante o confinamento para o coronavírus não causar mais mortes nem sobrecarregar o sistema de saúde, segundo Marcos Buckeridge, coordenador do programa.

Mapeamento do estudo “Os padrões urbano-demográficos da capital paulista”, de Marcelo Batista Nery, Altay Alves Lino de Souza e Sergio Adorno, Estudos Avançados, dez. 2019. (Clique na imagem para ampliá-la em outra aba ou janela.)

Para se chegar ao mapeamento das oito cidades dentro de uma só, Marcelo Nery, Altay de Souza e Sergio Adorno, pesquisadores do programa do IEA/USP, usaram variáveis sensíveis a condições e alterações populacionais, ambientais, criminais, habitacionais, de mobilidade e de expansão urbana.

As oito zonas mapeadas no trabalho não coincidem com a divisão política das subprefeituras da capital. O estudo “Os padrões urbano-demográficos da capital paulista” foi publicado em dezembro de 2019 na revista Estudos Avançados.

 

Bombas-relógios

“Estamos chamando as zonas D, E e F como as bombas que podem explodir, se o vírus entrar nelas e medidas concretas não forem tomadas”, afirma Buckeridge. Em comum, os três grupos têm maior quantidade de moradias precárias e aglomerados urbanos. Além de condições ambientais ainda mais precárias, como falta de saneamento básico e baixa coleta de lixo. As zonas A, B e C, que praticamente coincidem com o centro expandido paulistano, permitiriam o bom isolamento vertical, ao contrário das outras. A G e H estão nas franjas do município.

A ocorrência de casos de Covid-19, segundo Buckeridge, ainda se concentra, em sua grande maioria, nos bairros de classe média de São Paulo, nas zonas sul e oeste. “Mas se o fim do confinamento for realmente decisivo e o vírus  se espalhar em grande velocidades nas zonas D, E e F, a bomba explodirá e aí teremos sérios problemas de fato”.

Nas zonas críticas, explica o biólogo e coordenador do Cidades Globais, o confinamento eficiente separando crianças e jovens adultos dos idosos parece impossível a esta altura.
“Neste caso, vamos precisar contar com a solidariedade, que os brasileiros têm de sobra. Mas será preciso que as autoridades ou o Exército organizem muito bem isso. Apenas quem conhece profundamente essas regiões poderá ajudar”. Opinião semelhante é a do epidemiologista Eduardo Massad, da FGV-RJ, em entrevista ao site Ciência na Rua, em 20 de março. “Não existem [condições], o distanciamento nesse caso é impossível”.

 

Poucos hospitais

Quando se analisam os instrumentos urbanos disponíveis nessas regiões, problema fica ainda mais complexo nas chamadas zonas D, E e F, onde estão ainda as grandes favelas e também áreas de risco geológico. “Os dados que temos mostram que há muito pouco, quase nada, de postos de saúde, hospitais, delegacias e escolas nesses locais. Isso é um problema. Mesmo que exista uma estrutura suficiente para isolar os mais velhos e evitar mortes, isso será uma tarefa complicada, por causa da aglomeração habitacional destes locais.

Os dados gerados pelo programa do IEA/USP também servem para lançar luz sobre quando chegar o momento de as atividades da população começarem a voltar. “É algo que precisa ser gradativo. No caso como o das regiões mais críticas, seria importante consolidar fórmulas de confinamento, explicando didaticamente e de uma forma rápida, por meio das redes sociais, o que as comunidades devem fazer”. Segundo Buckeridge, é importante se comunicar tanto com a população que ainda precisará ficar em isolamento social quanto aquelas que voltarão ao trabalho ou à escola.

Na imagem no alto, vista da Favela Jaqueline, no distrito de Vila Sônia, em São Paulo. Foto: Dornicke/Wikimedia Commons.

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