Pandemia coloca em risco pesquisas sobre mudança climática

Cancelamento de missões científicas e redução de verba vão bloquear coleta e geração de dados.

EDUARDO GERAQUE
Quarta-feira, 1º de abril de 2020, 6h54.

A pandemia causada pelo novo coronavírus praticamente parou a circulação de pessoas entre os países. Com isso, há algumas semanas, para proteger a saúde dos habitantes do planeta, importantes eventos científicos foram cancelados. Mais que isso, cruzeiros científicos importantes para monitorar, por exemplo, o aumento do nível do mar, também foram adiados por tempo indeterminado, o que provavelmente vai gerar um intervalo preocupante na geração de dados, segundo Jefferson Simões, glaciólogo brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para Simões, que dirige o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, os desdobramentos relacionados ao aumento do nível do mar são hoje a incerteza mais perigosa dentro das mudanças climáticas em termos mundiais. Por isso, o cancelamento da campanha de campo conhecida como EastGRIP 2020, por exemplo, que iria coletar amostras de gelo no Hemisfério Norte, é preocupante.

De acordo com Dorthe Dahl-Jensen, pesquisador de clima e gelo da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, o cancelamento da pesquisa significa que o mundo perde um pouco de tempo na corrida para descobrir o quão rápido e alto o nível do mar irá subir nas próximas décadas. A expedição científica tinha como objetivo principal, por meio de perfurações no gelo, entender como o aquecimento global afeta os fluxos de gelo que transportam icebergs para o mar. “As correntes de gelo são responsáveis por 50% da perda de massa da camada de gelo da Groenlândia, disse Dahl-Jensen ao site Inside Climate News.

 

Adiamentos e cancelamentos

Segundo Simões, a comunidade científica que estuda a região antártica também já mudou sua programação por causa da pandemia. “Já está nos afetando. Nós cancelamos o encontro bienal do SCAR (Scientific Committee on Antarctic Research), que seria em agosto na Austrália. Um dos programas que está sendo montado pelo comitê científico, de acordo com o pesquisador brasileiro, é exatamente sobre cenários da mudança do nível do mar no continente antártico.

Várias pesquisas que estariam em curso no Hemisfério Norte nesta época do ano foram adiadas ou canceladas principalmente por razões logísticas e porque os cientistas temem espalhar o vírus entre populações autóctones do Ártico ou da Groenlândia, região dinamarquesa que fechou suas fronteiras no dia 16 de março após o primeiro registro de um caso de coronavírus na ilha.

 

E depois?

Os cruzeiros da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), dos Estados Unidos, continuam em curso, mas os pesquisadores estão tomando todos os cuidados para não se contaminarem, segundo a instituição. Vários conjuntos de equipamentos também estão sendo monitorados de forma remota e continuam a coletar dados, como os instalados para medir concentrações de carbono na atmosfera em uma das ilhas do Havaí.

Os impactos sobre as ciências climáticas podem ser ainda maiores, segundo o glaciólogo brasileiro, se as consequências da pandemia se avolumarem cada vez mais, o que parece ser a tendência atualmente. “A grande questão agora é como a pandemia e provável corte de recursos financeiros, que já estão reduzidos em termos de Ciência e Tecnologia, afetarão as missões brasileiras no verão 2020/2021. Por enquanto, seguimos o cronograma de preparação das atividades para o próximo verão. Todos, claro, trabalhando em suas casas”, afirma Simões.

Na imagem acima, vista parcial da Baía do Almirantado, na Antártida. Foto: Eduardo Geraque.

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