Desmatamento da Amazônia será maior neste ano, alerta líder agro

‘A grilagem está correndo frouxa’, afirma Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quarta-feira, 8 de abril de 2020, 16h33.

Não será surpresa a notícia, a ser divulgada no final deste ano, de que o desmatamento da Amazônia no período 2019-2020 será maior que em 2018-2019. De agosto a novembro de 2019, assim como em janeiro e fevereiro últimos, os alertas registrados pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), já indicavam aumento em relação aos mesmos períodos um ano antes, como mostra o gráfico a seguir.

 

Sistema Deter – Alertas de desmatamento desde 2015

Fonte: Terra Brasilis/Instituto de Pequisas Espaciais. (Clique na imagem para ampliá-la em outra aba ou janela.)

A situação deverá piorar. Em 27 de março, dia seguinte ao fechamento dos dados desse gráfico, o próprio diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo, afirmou à agência Reuters que serão reduzidos os os esforços de combate aos crimes ambientais durante o surto de coronavírus.

O Ibama não tem renovado seus quadros há anos por causa dos cortes orçamentários do governo, e suas equipes têm mais de um terço co  idade acima de 60 anos. “Você não tem como colocar as pessoas que estão no grupo do risco, expor essas pessoas ao vírus”, disse o dirigente do instituto ao repórter Jake Spring.

Ou seja, já tínhamos os alertas do Deter mais uma vez apontando tendências de alta para a próxima taxa anual de desmatamento na Amazônia. E já temos o aviso do próprio Ibama de que a fiscalização está reduzida.

Chegou a vez da chamada “verdade terrestre”, a informação com base na realidade de campo. Não, não é nenhum agente de órgão ambiental ou pesquisador de alguma universidade ou ONG. É o próprio Marcello Britto, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que atua há anos na produção de soja em Mato Grosso. Região de onde, afirmou ele, têm chegado alertas de colegas ruralistas sobre ações de grileiros.

Em entrevista ao jornalista Bruno Blecher, no canal Agro Voz, Britto afirmou:

Lamentavelmente, os números do desmatamento deste ano com certeza sairão maiores do que do ano passado. Porque, enquanto nós estamos aqui preocupados com a questão de saúde, a grilagem está correndo frouxa. As polícias foram puxadas para os centros urbanos porque precisam dar suporte nesse momento. O Ibama não consegue fazer fiscalização. As secretarias estaduais também. Grilagem e desmatamento correndo frouxo.

Na entrevista, Brito faz um prognóstico preocupante para o pós-pandemia na esfera ambiental:

Isso é muito ruim porque, depois que passar essa poeira, onde a busca é pela sobrevivência econômica – primeiro pela proveniência própria, da sua saúde, da sua família, depois pela sobrevivência econômica, a reestruturação do seu negócio e fazer andar –, o mundo volta ao normal. E, ao voltar ao normal, dentro do médio prazo, a notícia que nós vamos estar entregando pra eles é que tudo aquilo que foi gritado contra o país no ano passado vai retornar.

Na verdade, a coisa chegou a esse ponto graças à política de desmomte da infraestrutura de governança ambiental executada pelo governo do presidente Jair Bolsonaro desde seus primeiros dias por seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A situação é consequência direta de ações como a extinção de órgãos e atribuições, o estrangulamento orçamentário e o sucateamento dos recursos humanos  do Ministério do Meio Ambiente, a desmobilização de equipes de fiscalização e o apoio discursivo governamental a infratores e criminosos ambientais.

Clique aqui para assistir à entrevista de Marcello Brito, presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), no canal Agro Voz, no YouTube.

Na imagem no alto, composição de imagens de satélite do projeto Prodes, que mostra em verde as áreas preservadas de floresta; em vermelho, áreas de cerrados e cerradões; e, em amarelo, as áreas originais de floresta desmatadas. Imagem: Prodes/Inpe/Divulgação.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

Top