Lições da pandemia de 1918 mostram que isolamento foi eficaz

Nos Estados Unidos, durante a Gripe Espanhola, as primeiras cidades que pararam tiveram as menores taxas de mortes.

EDUARDO GERAQUE
Quinta-feira, 9 de abril de 2020, 9h18.

O mundo era outro, o conhecimento científico também, mas são muitas as lições apreendidas com a pandemia de 1918 que ainda podem ser aplicadas na atual. Em maio de 2007, a revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) publicou três artigos para relembrar os então quase 90 anos da pandemia de 1918, conhecida como Gripe Espanhola, que matou pelo menos 50 milhões de pessoas no mundo, quase 2,5% da população mundial estimada na época. Os registros oficiais mostram que só nos Estados Unidos foram mais de 450 mil perdas de vida.

Além de lembrar a relevância das pesquisas porque novas epidemias poderiam surgir, os autores dos estudos também analisaram em profundidade como algumas cidades dos EUA se comportaram durante a pandemia do século passado, causada pelo vírus influenza, que tinha um período de incubação muito curto, por volta de um a dois dias. Segundo eles, apesar de todas as limitações de se voltar mais de cem anos no tempo, as medidas de distanciamento social, e várias delas implementadas ao mesmo tempo, tiveram uma efetividade de até 30% na redução do número total de mortes.

As cidades de San Francisco, Saint Louis, Milwaukee e Kansas City foram as que se saíram melhor, porque levaram a epidemia a sério e fecharam escolas, igrejas e limitaram ao máximo a circulação das pessoas muito cedo. O mais importante, segundo os pesquisadores, foi realmente o tempo escolhido para as intervenções. Quem agiu mais cedo, antes de a curva epidêmica começar a subir, saiu da tragédia contando menos mortos em relação ao tamanho da população. Nas 23 cidades analisadas, aquelas que conseguiram imprimir quatro ou mais intervenções a favor do isolamento das pessoas registraram em média, no pico da curva, 65 mortes por 100 mil habitantes. Três ou menos intervenções resultaram, também na média das cidades, em 146 mortes por 100 mil habitantes.

Uma diferença gritante, segundo os epidemiologistas, ocorreu entre Filadélfia e Saint Louis. Na primeira cidade, onde houve descaso com o problema de saúde pública, o primeiro caso ocorreu no dia 17 de setembro. Onze dias depois, os governantes locais ainda permitiram um grande desfile militar pelas ruas que reuniu quase 200 mil pessoas, um pouco menos de 20% da população da cidade na época. O fechamento dos espaços públicos e das escolas ocorreria em 3 de outubro. Enquanto em Saint Louis, o distanciamento social foi implementado em 5 de outubro, dois dias depois do primeiro caso ser registrado na cidade. Se em Filadélfia o pico semanal de mortes atingiu 257 em 100 mil habitantes, na cidade que agiu com mais rapidez, no caso, Saint Louis, a taxa ficou em 31 por 100 mil pessoas.

 

Foco nas cidades

A cidade de Nova York, centro da atual pandemia de coronavírus nos Estados Unidos, ficou no meio do caminho em termos de intervenções contra a pandemia de 1918. Ao todo, 30 mil pessoas morreram, por volta de 20 mil delas em uma segunda onda da doença, em uma população de 5,6 milhões de habitantes, segundo um estudo publicado em 2010 na revista Public Health Reports.

A cidade já tinha um sistema de saúde eficiente na época, o que ajudou. E medidas de isolamentos e restrição de circulação também foram tomadas. Mas o responsável pela saúde na cidade, Royal Copeland, tomou duas decisões consideradas polêmicas. As escolas permaneceram abertas, porque ele achava que seria mais seguro para as crianças continuarem nelas, e os teatros, em uma época sem internet, televisão ou rádio em massa, também continuaram funcionando, apesar de terem sofrido algumas restrições. Principalmente para transmitirem informações de como a população deveria se proteger da pandemia.

“Entre os vários estudos realizados ao longo dos últimos anos sobre a gripe espanhola, os que nos trazem mais ensinamentos são os que comparam diferentes cidades, pois as estatísticas, quando existem, são as melhores”, afirma João Malaia, professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria. Segundo o pesquisador, pandemias como a do coronavírus também mostram que a discussão precisa ter foco nas cidades. “A realidade de diferentes regiões dentro de uma mesma cidade é específica, imagina discutir os dados em um nível estadual ou nacional”, afirma.

Se uma das lições apreendidas de 1918, segundo Malaia, como atestam os estudos de 2007, é que o isolamento precoce, como o fechamento de escolas, é um bom caminho para diminuir os danos, existem várias outras que transcendem a questão da saúde, chegando às áreas políticas e sociais. Mesmo tomando todos os cuidados necessários para diferenciar períodos, pandemias, tempo de incubação, condições de vida nas cidades e nível de informação das pessoas, “é possível e importante traçar esses paralelos históricos para compreendermos o que estamos vivendo”, diz o historiador.

 

No Brasil

A pandemia gerou inúmeras crises políticas no Brasil, segundo Malaia. Uma das primeiras envolveu a queda do diretor da Direção de Inspeção da Saúde Pública, órgão vinculado ao Ministério da Justiça e dos Negócios Interiores, Carlos Seidl. “Era o cargo máximo da saúde no país e o dirigente caiu em meio ao crescimento da pandemia. Ele era severamente criticado pela imprensa. Estas crises políticas são fruto de um comportamento de descontrole e desconhecimento face ao que se enfrenta e nos ensina muito sobre o momento atual.”

A análise sobre as procissões religiosas que ocorreram em 1918 no Rio de Janeiro, no momento em que as curvas das mortes cresciam assustadoramente também mostra uma trágica coincidência, segundo Malaia, que junto com um grupo de 28 alunos, tem alimentado, com dados da Gripe Espanhola, o perfil “Mais História, por favor!”, no Twitter, nome também de um podcast sobre outros assuntos.

“O comportamento social daquela época nos dá boas pistas para compreendermos não apenas as atitudes sociais tomadas frente à pandemia, como a devoção religiosa a despeito das recomendações de evitar aglomerações, mas também quanto aos resultados dessas reuniões de pessoas em relação à disseminação do vírus.” Em 1918, entre os dias 20 e 27 de outubro, 6,4 mil corpos foram enterrados nos cemitérios do Rio de Janeiro. No mesmo período, os registros mostram várias procissões que reuniram, sem crítica na imprensa, centenas e até milhares de pessoas.

“São muitos paralelos que podemos traçar. E ao traçá-los, podemos refletir sobre nosso comportamento atualmente e tomar as melhores atitudes como indivíduos que fazem parte de uma sociedade que está enfrentando um grande desafio”, diz o historiador da Universidade Federal de Santa Maria.

Na imagem acima, membros da Cruz Vermelha Americana removem vítima da Gripe Espanhola em St. Louis, nos EUA, em 1918. Foto: St. Louis Post Dispatch/Wikimedia Commons.

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