Coronavírus, Drauzio Varella e a formação de opiniões científicas

Controvérsia envolvendo vídeos antigos nos dá oportunidade para refletir sobre o que significa agir com base em evidências e a pensar cientificamente.

THIAGO FRANÇA,
especial para Direto da Ciência.*
Domingo, 12 de abril de 2020, 8h22.

Recentemente começou a recircular na internet, em parte graças a integrantes do governo brasileiro, um vídeo do médico Drauzio Varella sobre o novo coronavírus, o Covid-19. No vídeo, publicado em 30 de janeiro e não mais disponível em seu canal, Drauzio minimizava a gravidade do Covid-19. A repercussão do vídeo se deveu em parte ao fato de que, de lá pra cá, a opinião do médico mudou – em seus novos vídeos sobre o assunto, ele reavalia sua opinião anterior e pede às pessoas que levem o vírus a sério e sigam as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No intervalo de tempo entre a publicação original do vídeo e o seu retorno aos holofotes digitais, os governos de vários estados também mudaram sua postura – passaram da inércia frente ao vírus à ação para frear seu avanço. O aumento rápido no número de casos no Brasil e as limitações na disponibilidade de leitos e respiradores para lidar com casos sérios de Covid-19 no SUS levaram muitos à ação para tentar desacelerar o vírus e impedir que um número muito grande de pessoas adoeça ao mesmo tempo. Isso poderia colocar em risco a vida de muitos que dependem, ou que podem vir a depender, do SUS – seja por causa de complicações decorrentes da doença ou de outras condições que levem a pessoa a uma UTI. Seguindo as recomendações de especialistas no mundo todo, a principal medida adotada foi o isolamento social – método que tem se mostrado eficiente para frear o avanço do Covid-19 na China, o país onde surgiu o vírus e o primeiro a adotar essa estratégia na atual crise.

Todo esse esforço para salvar vidas, porém, veio com um forte impacto econômico. Diante disso, o presidente sem partido Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em 24 de março minimizando a ameaça do vírus e pedindo o fim do isolamento social e o retorno às atividades econômicas para pessoas que não estejam no principal grupo de risco. Durante o pronunciamento, Bolsonaro fez uma menção velada ao vídeo de janeiro de Drauzio, o qual foi também compartilhado por integrantes do governo. De fato, existem claras similaridades entre a opinião de Bolsonaro sobre o Covid-19 e a opinião expressa pelo médico no seu vídeo de janeiro. Dessa forma, no embate do governo Bolsonaro com os especialistas de saúde, a mudança significativa de opinião de Drauzio tem sido explorada para fins políticos pelo governo e seus apoiadores.

Mas afinal de contas, qual opinião está certa nessa história? Por que Drauzio Varella, um médico sério, que alega basear suas opiniões nas evidências científicas, mudaria marcadamente de opinião sobre um assunto como esse em um intervalo de dois meses? Qual a causa da crescente convicção de especialistas, incluindo órgãos centrais como a OMS, a respeito da gravidade da situação e da necessidade de combater ativa e urgentemente o avanço do vírus?

Eu acredito que essa seja uma boa oportunidade para pararmos um pouco e refletirmos sobre o que é uma opinião “científica” e sobre como opiniões científicas se formam – e se transformam – ao longo do tempo. Tenho convicção de que toda essa confusão em torno do que fazer sobre o Covid-19 sumiria se a população fosse melhor informada a respeito de como funciona a ciência. Por esse motivo, acho que é um momento importante para discutirmos sobre como surgem os “consensos de especialistas” que embasam as recomendações de órgãos como a OMS.

 

O consenso na ciência

O velho bordão já dizia: cada um tem direito a sua opinião. Opiniões, porém, não são todas iguais – especialmente quando lidamos com questões científicas, questões de fato. Idealmente, o que torna uma opinião superior a outra não é a autoridade de quem fala, seja a pessoa Jair Bolsonaro ou Drauzio Varella. A medida de uma opinião na ciência é a sua concordância com as evidências. E é essa relação entre opinião e evidência que é a chave para entender a formação e a evolução das opiniões científicas.

Toda vez surge uma nova descoberta – a possibilidade de uma nova tecnologia, um novo fenômeno natural, ou um novo vírus – surgem diversas opiniões e hipóteses a respeito das suas implicações. Essas hipóteses e opiniões, quando bem pensadas e embasadas, nada mais são do que tentativas rigorosas de aplicar nosso conhecimento prévio à nova descoberta. Essa nova descoberta se torna então objeto de investigação – estudos são conduzidos, dados são coletados, e as evidências encontradas são publicadas e discutidas. Com o passar do tempo e o acúmulo das evidências, começa a ficar claro que algumas das opiniões e hipóteses formuladas originalmente estão erradas – elas podem não concordar com as novas informações que temos sobre o nosso objeto de estudo. Essas opiniões datadas e rejeitadas pela realidade são então gradualmente descartadas.

Conforme as evidências vão se acumulando e começam a apontar numa direção cada vez mais clara, as opiniões dos especialistas começam também a convergir em pelo menos alguns aspectos principais do fenômeno. Assim, o consenso das evidências cria um consenso de opinião. É por isso que quando se ouve falar de um “consenso de especialistas”, o que realmente importa não é a autoridade dos especialistas, mas o consenso de evidências que levou os especialistas a convergirem nas suas opiniões. É nas evidências que está a autoridade, não nas credenciais dos indivíduos.

 

De volta ao Covid-19

Esse processo descrito acima é o que tem acontecido com o novo coronavírus – em ritmo acelerado. Isso por que epidemias e pandemias não são novidade, e há muito se sabe que uma nova viria, cedo ou tarde. A OMS já possuía protocolos para lidar com esse tipo de situação, protocolos baseados em lições aprendidas a duras penas com epidemias e pandemias anteriores. Além do nosso conhecimento prévio sobre epidemias/pandemias em geral ser considerável, informações específicas sobre esse vírus tem sido coletadas e disponibilizadas numa velocidade extraordinária. Pesquisadores no mundo inteiro têm trabalho dia e noite para descobrir o máximo possível sobre o Covid-19, de modo que possamos usar essas informações, combinadas com nosso conhecimento prévio, para prever o avanço do vírus, para descobrir quais as melhores terapias e para criar vacinas.

Ainda há muitas dúvidas, muitas lacunas a serem preenchidas, mas algumas coisas já estão mais do que claras – e a necessidade de combater ativamente o vírus praticando o isolamento social é uma delas. Nada tem sido mais eficiente em convencer governantes céticos sobre a seriedade da situação do que ver em tempo real os efeitos devastadores que o vírus tem por onde passa. É por isso que países inicialmente hesitantes em tomar ação contra o Covid-19 – como os EUA, o Reino Unido e o próprio Brasil – começaram a adotar medidas de isolamento social conforme novas informações reforçavam a gravidade da situação.

Olhando as estatísticas mundiais e nacionais do Covid-19 hoje, é difícil dizer que a situação não é séria, e que está em rota para ficar ainda mais grave. E a verdade é que quando Drauzio Varella fez seu primeiro vídeo sobre o coronavírus, no final de janeiro, as coisas já pareciam bastante ruins. O número de casos na China subia disparado, o vírus avançava pela Europa e tinha acabado de chegar às Américas. Portanto, é justo dizer que a opinião Drauzio quanto à possível gravidade do vírus quando esse chegasse aqui estava dessoando, já naquele momento, das melhores informações disponíveis. Com o acúmulo das evidências sobre o vírus e o agravamento da crise, a lacuna entre a opinião expressa no vídeo de janeiro e as evidências se tornou cada vez maior, impelindo Drauzio a mudar sua opinião. Essa mudança de opinião não é fraqueza nem incoerência. É ciência. A ciência, na sua essência, é buscar evidências e ajustar nossa opinião de acordo com elas. Pensar cientificamente nada mais é do que nos comprometer a deixar a nossa visão da realidade ser moldada pela própria realidade.

Uma vez que paramos para pensar como a ciência avança, fica claro que não tem absolutamente nada de errado na mudança de opinião do Drauzio. Errado seria se agarrar à opinião já ultrapassada pelas evidências. Porém, com os efeitos econômicos do vírus sendo sentidos e a necessidade de ação do estado para amparar aqueles que estão vulneráveis, o governo decidiu fazer exatamente isso – explorando politicamente, no processo, a mudança de opinião totalmente justificada de Drauzio. Com seu posicionamento, o presidente e seus aliados tentam nadar contra a corrente das evidências em direção a uma opinião que já sabemos estar errada, com apelos desonestos à autoridade (visto que Drauzio já havia descartado essa opinião frente às novas evidências), por achar que esse é o caminho mais fácil para sair da situação. Isso não é pensar criticamente, não é ser sensato frente à “histeria”. Isso é ser ou ignorante ou desonesto. E, em ambos os casos, é ser irresponsável.

 

A importância de entender a ciência

A necessidade de isolamento social não passou a ser a opinião correta porque Drauzio Varella e outras autoridades da área da saúde passaram a endossá-la. Ela passou a ser a opinião correta porque as evidências passaram a endossá-la. Os especialistas só seguiram a deixa da realidade. Isso seria algo evidente para a maioria da população se tivéssemos uma boa educação em ciência no Brasil. Mas não temos. A exploração política da mudança de opinião do Drauzio só foi possível pelo desconhecimento de muitos sobre o processo científico. Por ter uma grande parcela da população que não entende como a ciência funciona é que nós, como sociedade, ficamos à mercê da desinformação e dos perigos que ela traz.

Em tempos como este é mais importante do que nunca entender a ciência. E com isso eu não me refiro a ter conhecimentos sobre física, biologia ou ciências humanas. Ter conhecimento de diferentes áreas da ciência é sempre bom, mas o fato é que ninguém vai virar epidemiologista da noite para o dia para entender os detalhes do avanço do Covid-19. Eu mesmo não sou epidemiologista. Porém, sou pesquisador e sei como funciona o processo científico, visto que o pratico. Por entender como a ciência procede, eu tenho uma ideia clara de como os especialistas chegaram às conclusões que chegaram, eu entendo como o consenso sobre os pontos principais da pandemia do Covid-19 se formou, e entendo como esse processo torna essas informações confiáveis.

Hoje em dia, a internet põe quantidades inimagináveis de informação – de qualidade altamente variável – na ponta dos nossos dedos. Para encontrar conhecimento confiável em meio ao mar de informações dúbias, todos temos que ser, de uma forma ou de outra, pesquisadores. No mundo em que vivemos é imprescindível que todos entendam como a ciência funciona, entendam o processo pelo qual se produz conhecimento confiável e verificável. Uma vez que isso é entendido, fica claro por que recomendações de órgãos sérios como a OMS são confiáveis. O que as torna confiáveis é o processo pelo qual se produz o conhecimento que as embasa. Esse é o mesmo processo que fez Drauzio mudar sua opinião, e o mesmo que está sendo usado por cientistas no mundo todo para tentar criar uma vacina para o Covid-19 e para descobrir quais medicamentos funcionam. A essência desse processo é simples: siga as evidências. Só assim é possível distinguir, em meio ao turbilhão de informações disponíveis, as opiniões bem embasadas em evidências das opiniões que tentam varrê-las para debaixo do tapete. Só assim é possível “tirar suas próprias conclusões” sobre as diferentes opiniões disponíveis de forma coerente com a realidade.

THIAGO FRANÇA é biólogo e doutor em fisiologia. é biólogo e doutor em fisiologia. É pesquisador na área de neurociência e escritor nas horas vagas, escrevendo sobre a prática científica nos dias hoje e sobre a intersecção entre ciência e sociedade.
E-mail:  thiago.fa.franca@gmail.com.

* Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, o médico Drauzio Varella em vídeo em seu canal no YouTube. Foto:Reprodução.

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