Editora decide reavaliar artigo favorável à hidroxicloroquina para Covid-19

Aprovação muito rápida por revista científica e participação de editor-chefe despertaram suspeita sobre estudo que teve ampla repercussão.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quarta-feira, 15 de abril de 2020, 8h11.

Um dos maiores grupos editoriais do mundo, o Elsevier, especializado em publicações acadêmicas, anunciou no sábado (11) que ordenou uma investigação independente sobre um estudo a respeito do uso de hidroxicloroquina no tratamento de pacientes de Covid-19 publicado por uma de suas revistas científicas, a International Journal of Microbial Agents.

Assinado por 18 pesquisadores, dos quais 15 ligados ao instituto de pesquisas IHU-Méditerranée Infection, em Marselha, na França, o estudo foi publicado online em 20 de março e relatou melhoras no quadro clínico de pacientes tratados com hidroxicloroquina e com o antibiótico azitromicina e teve ampla repercussão internacional.

Mesmo para os leitores não familiarizados com essa área de pesquisa, salta aos olhos o curtíssimo espaço de tempo – um dia – entre as datas de recebimento (16 de março) e de aceitação (17 de março) exibidas junto ao resumo do estudo “Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial”.

Apesar desse intervalo exíguo e suspeito para serem cumpridos rigorosamente os procedimentos necessários para a revisão por pares, esta foi seguida na publicação desse artigo, alega a declaração conjunta da Elsevier e da Sociedade Internacional de Quimioterapia Antimicrobiana (ISAC), que coedita a revista.

 

‘Viés em potencial’

A essa rapidez inusual para um periódico sério, junta-se a participação, como coautor do estudo, do editor-chefe da revista, Jean-Marc Rolain, professor da Universidade Aix-Marseille e também pesquisador do IHU-Méditerranée Infection. Segundo o comunicado conjunto da Elsevier e da ISAC,

Para minimizar o viés em potencial, como um dos autores do artigo é o editor-chefe da revista, o editor-chefe não estava envolvido na revisão por pares do manuscrito e, após o processo padrão estabelecido, a revisão por pares do manuscrito foi delegada para um editor associado.

A declaração conjunta acrescenta que “dependendo da natureza de sua resposta, uma correção no registro científico pode ser considerada, de acordo com as políticas da Elsevier e do Comitê de Ética em Publicações (COPE)”.

No final das contas, pesou também negativamente o baixo número de participantes do estudo: 42, dos quais somente 26 foram submetidos ao tratamento com hidroxicloroquina e azitromicina.

 

‘Padrão esperado’

Em 3 de abril, oito dias antes da manifestação conjunta com a Elsevier, a própria ISAC já havia publicado uma declaração afirmando que “compartilha as preocupações sobre o artigo” e que

acredita que o artigo não atende ao padrão esperado da Sociedade, principalmente relacionado à falta de melhores explicações sobre os critérios de inclusão e à triagem de pacientes para garantir a segurança do paciente.

O autor principal do artigo é o francês Didier Raoult, polêmico diretor do instituto IHU Méditerranée Infection, em Marselha, professor da Universidade Aix-Marseille e primeiro lugar no ranking mundial de especialistas em doenças transmissíveis da Expertscape.

Raoult pode ser considerado o principal defensor do uso da hidroxicloroquina combinada com azitromicina logo no início do tratamento da Covid-19. Na sexta-feira (10) ele apresentou pelo Twitter números mais promissores com o resumo e a tabela de um estudo com dados de 1.061 pacientes tratados com essas drogas.

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Na imagem acima, o instituto de pesquisas IHU-Méditerranée Infection, em Marselha, na França. Foto: divulgação.

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