Sem sistema geoespacial para Covid-19, gestão Doria ignora acervo da Emplasa

Sistemas georreferenciados e informações estratégicas estão indisponíveis desde o início da extinção da estatal.

JOSÉ ALBERTO GONÇALVES PEREIRA
Segunda-feira, 20 de abril de 2020, 13h45.

Enquanto na cidade de São Paulo, epicentro da pandemia no Brasil, a Covid-19 avança do centro expandido para a periferia e o interior do estado, permanece inoperante um valioso arsenal de mapas e sistemas de informações geoespaciais da Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa), que está em processo de extinção desde o ano passado. O governo do estado de São Paulo, sob o comando de João Doria (PSDB), não está utilizando este arsenal para fortalecer a retaguarda de sua estratégia de prevenção, monitoramento e combate à pandemia causada pelo Sars-CoV-2, o novo coronavírus.

Os sistemas da estatal contêm cerca de 800 bases de dados, como um mapeamento de favelas, cortiços e outros tipos de assentamentos precários nas regiões metropolitanas do estado de São Paulo realizado em 2018 como parte das ações do SIM Habitação, desenvolvido pela Emplasa junto com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), agências metropolitanas e prefeituras. Foram identificados e georreferenciados, por exemplo, em torno de dez mil assentamentos precários, incluindo favelas, e centenas de milhares de imóveis na Grande São Paulo e 500 áreas precárias e cerca de 150 mil imóveis na Baixada Santista.

O SIM Habitação é um dos braços do Sistema de Informações Metropolitanas (SIM), que deixou de ser atualizado no início de outubro de 2019. Dos 135 profissionais existentes em agosto passado, hoje a empresa conta com pouco mais de 20 funcionários, sendo dois na área de tecnologia da informação, um no geoprocessamento (que produz mapas em ambiente digital) e os demais nos setores de documentação, recursos humanos e finanças.

 

Desmantelamento

Outros serviços foram removidos do portal da estatal no início de outubro de 2019 e também deixaram de ser atualizados. O artigo 2º da Lei Estadual 17.056/2019, que autorizou o governo a extinguir a Emplasa, determina a continuidade das atividades públicas da estatal depois de extinta.

Conforme reportagem publicada por Direto da Ciência em 16 de março, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) questionou a Secretaria de Governo (SG) sobre o desmantelamento dos sistemas cartográficos e geoespaciais e acervos técnico e bibliográfico da Emplasa. O prazo concedido para a SG respondê-lo expiraria em 18 de março, mas foi estendido até 30 de abril em virtude da pandemia de Covid-19, seguindo resolução do MPSP.

 

Para sair do escuro

Especialistas em biociências, estatísticas, geografia, geoprocessamento, planejamento urbano, geografia e estatísticas e saúde pública consultados pela reportagem mostraram-se surpresos com a ausência de uma plataforma web com informações georreferenciadas para orientar gestores públicos nas ações de prevenção, monitoramento e contenção da pandemia. Bahia e Goiás lançaram recentemente suas plataformas web para o monitoramento georreferenciado da Covid-19.

Segundo uma fonte familiarizada com o funcionamento da Emplasa que pediu para não ser identificada, o desenvolvimento e a operação da plataforma web demandaria equipe técnica com oito a dez analistas de sistema, programadores, geógrafos e cartógrafos mais alguns profissionais de planejamento urbano para fazer a ponte entre os técnicos e provedores de dados e clientes das informações (gestores públicos, universidades, empresas e organizações da sociedade civil). Os primeiros mapas resultantes do cruzamento das camadas de dados já poderiam ser produzidos e utilizados pelos gestores da crise sanitária nos primeiros 15 dias de trabalho da equipe, que precisaria de um total de 30 a 40 dias para implantar a plataforma web.

A opção mais rápida seria a contratação temporária e emergencial de profissionais demitidos da Emplasa no processo de sua extinção, também aproveitando servidores e computadores com elevada capacidade de processamento no Datacenter da empresa. Outra alternativa seria aparelhar o Instituto Geográfico e Cartográfico (IGC) para operar os sistemas da Emplasa, que incluem softwares complexos, como o de banco de dados da Oracle. O governo paulista transferiu os sistemas geoespaciais e a cartografia da Emplasa ao IGC, mas não o estruturou para gerenciá-los, uma vez que o instituto possui apenas cerca de dez funcionários e não foi capacitado para assumir as atribuições da estatal.

 

Áreas precárias

“Como médico, causa-me enorme estranhamento a inexistência de uma plataforma geoespacializada contendo essas informações para o estado de São Paulo, a exemplo das plataformas já disponíveis para Bahia e Goiás”, observa o vereador Gilberto Natalini (PV), coordenador do Comitê Civil contra o Coronavírus da Câmara Municipal de São Paulo. “Muitas vidas poderiam ser salvas nesse esforço coletivo para desenvolver e alimentar a plataforma”, afirma Natalini.

“É necessário que o governo recontrate emergencialmente especialistas que trabalhavam na Emplasa para colocar esses sistemas em funcionamento o mais rapidamente possível para a administração estadual enfrentar a pandemia com uma retaguarda melhor aparelhada”, recomenda Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e especialista em habitação e planejamento urbano.

Bonduki considera o mapeamento de áreas precárias produzido pela Emplasa “importante para montar uma estratégia para enfrentar o coronavírus nas favelas, onde o risco de contágio é ainda maior, devido à alta densidade populacional e precariedade nas condições de habitação e saneamento”.

 

Sobrepor mapas

A plataforma poderia sobrepor mapas com posições de hospitais, informando disponibilidade de leitos, UTIs e respiradores, e os pontos de ocorrência da doença, além de correlacionar estrutura urbana e disseminação da pandemia, sugere o professor Marcos Buckeridge, diretor do Instituto de Biociências (IB/USP). Ele também coordena o programa USP Cidades Globais no Instituto de Estudos Avançados (IEA/USP) e é um dos seis membros do grupo de trabalho Sars-Cov-2 USP, estabelecido pelo reitor Vahan Agopyan em 4 de março último.

“Ter uma base georreferenciada para acesso público seria algo fantástico e ajudaria bastante gestores públicos e pesquisadores, ainda mais se fosse atualizada em tempo real”, comenta Paulo Guimarães Júnior, professor de ecologia do IB/USP. Ele coordena um grupo de 21 pesquisadores de 14 instituições acadêmicas no âmbito do Observatório Covid-19 BR, que produziu seis relatórios sobre a propagação da doença em função dos fluxos rodoviário e aéreo entre cidades e regiões do país. Além do Centro de Coordenação das Operações do Comando Conjunto do Sudeste, que coordena as ações das Forças Armadas contra a doença, os relatórios subsidiam a tomada de decisões do governo paulista sobre a Covid-19.

 

Iniciativa da Unesp

Na ausência de uma plataforma web georreferenciada com interfaces pública e restrita a gestores da pandemia, a administração estadual paulista tem considerado estudos como o do Observatório Covid-19 BR e os elaborados pelo Radar Covid-19, iniciativa multidisciplinar de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) dos campi de Presidente Prudente (cartografia, geografia, matemática e computação) e Botucatu (medicina). O projeto utiliza informações da Secretaria Estadual de Saúde e minera dados do Twitter e de rumores sobre a disseminação do Sars-CoV-2 para apontar tendências sobre a evolução da doença.

O geógrafo Christovam Barcellos da Fiocruz sugere quatros grupos de indicadores para uma eventual plataforma Covid-19 SP: 1) dados primários da pandemia, como casos e óbitos confirmados e suspeitos, taxa de letalidade, testes e internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG); 2) serviços de saúde, tais como hospitais, leitos e UTIs totais e disponíveis para Covid-19 e EPIs; 3) mobilidade e isolamento social, como fluxos aéreo, ferroviário, hidroviário, metroviário e rodoviário entre cidades e dentro das cidades e o uso de celulares para monitorar aglomerações; 4) indicadores econômicos e socioambientais, incluindo dados sobre densidade populacional, faixa etária, uso e ocupação do solo e informações sobre populações vulneráveis.

“Sem uma plataforma comum, a tendência é que grupos diversos desenvolvam suas próprias plataformas nos estados”, diz Barcellos. que faz um alerta: “É necessário um cardápio comum de indicadores para as plataformas e sua padronização para facilitar comparações.”

 

O que diz o governo

A reportagem questionou o governo paulista sobre a não utilização dos sistemas geoespaciais e equipamentos da Emplasa para desenvolver uma plataforma web de informações georreferenciadas sobre a Covid-19 com interfaces pública e restrita a gestores da pandemia.

Sem comentar as perguntas específicas sobre a Emplasa, a assessoria de imprensa da Secretaria de Governo (SG) informou que a administração estadual desenvolveu uma plataforma Covid-19. Mas não esclareceu se a plataforma é georreferenciada, nem que bases de dados contém e se há cruzamentos de informações por geoprocessamento. A SG diz que ela ainda não é publica. “Estão fazendo os últimos ajustes para colocá-la online. Por enquanto, ela é de uso interno dos comitês extraordinários de combate ao coronavírus”, informa a pasta, que menciona as seguintes ferramentas da plataforma:

– Sistema de Monitoramento Inteligente de São Paulo (Simi), operado em parceria com as operadoras Vivo, Claro, Oi e Tim para medir a adesão à quarentena por meio dos sinais de celular;

– monitoramento das rodovias estaduais com os sistemas já existentes (sem detalhar que sistemas são estes);

– estatísticas da doença monitoradas pelo Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) e Centro de Contingência do Coronavírus, incluindo dados sobre leitos hospitalares e laboratórios para testes; e

– estatísticas e informações estratégicas da pandemia no mundo, oferecidas pela consultoria Deloitte Brasil.

 

Projetos para Covid-19 com geotecnologias

Covid Goiás UFG – Monitora a pandemia nos 246 municípios do estado por meio de mapas e gráficos, contendo dados georreferenciados da área das cidades, número de habitantes, densidade populacional, casos confirmados, óbitos e projeções sobre a evolução do contágio no estado. Foi desenvolvida pelo Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (LAPIG/UFG), parceiro da iniciativa MapBiomas. Mais informações podem ser consultadas na reportagem publicada por Direto da Ciência sobre o projeto.

MonitoraCovid-19 – Sistema desenvolvido pelo Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (ICICT/Fiocruz) para agrupar e cruzar dados sobre o novo coronavírus no Brasil e no mundo. A partir de gráficos e mapas, a ferramenta online permite monitorar os casos de Covid-19, projetar cenários para sua evolução em estados e municípios brasileiros e efetuar comparações com países em que a pandemia encontra-se em estágios mais avançados.

Observatório Covid-19 BR – Sítio com códigos de fonte aberta que possibita acompanhar o estado atual da epidemia de Covid-19 no Brasil, incluindo análises estatísticas e previsões elaboradas por um grupo de aproximadamente 40 pesquisadores de 21 universidades e institutos de pesquisa.

Plataforma Covid-19 do Pará – Iniciativa desenvolvida para o monitoramento da Covid-19 no Pará pela Solved – Soluções em Geoinformação, empresa de tecnologia especializada em espacialização de dados por geoprocessamento. A Solved integra a coordenação do tema transversal “zonas costeiras” na iniciativa MapBiomas.

Portal Bahia Covid-19 – Plataforma com espacialização dos casos da doença na Bahia, assim como dos leitos hospitalares e UTIs por cidade e curvas de progressão do contágio para cenários mais e menos restritivos de circulação. Ela foi construída por pesquisadores das Universidades Estaduais de Feira de Santana (UEFS) e Santa Cruz (UESC) e Federal da Bahia em parceria com a startup Geodatin, parceira da iniciativa MapBiomas. Para saber mais sobre o projeto, veja reportagem publicada por Direto da Ciência sobre a iniciativa.

Radar Covid-19 – Equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) nos campi de Presidente Prudente (departamentos de cartografia, geografia e matemática e computação) e Botucatu (Faculdade de Medicina). O projeto utiliza informações da Secretaria Estadual de Saúde e minera dados do Twitter e de rumores sobre a disseminação do Sars-CoV-2 para apontar tendências sobre a evolução da doença.

Na imagem acima, Viaduto do Chá, em São Paulo, durante a quarentena. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

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2 Comentários

  1. Luis Otávio Calagian said:

    Fundamental esta questão, parabéns pela matéria. O tamanho do equívoco da destruição das retaguardas em política pública se tornam evidentes nos momentos de crise.
    Enquanto a cidade de São Paulo avançou na espacialização de dados, através do Geosampa, o GESP fez questão de jogar as RM e a Macrometrópole de volta à década de 1960, antes do CODEGRAN e do GEGRAN…lamentável esse raciocínio do estado mínimo.

  2. Ivan Carlos Maglio said:

    Cada vez fica mais claro o erro de desmontarem essa inteligência espacial. Agora precisamos recompor isso rapidamente e a sofrer uma quantidade de erros incríveis.
    Que falta faz a o conhecimento técnico acumulado da Emplasa sobre as regiões metropolitanas e a macrometropole Paulista. Se não controlarmos os fluxos de transporte não essenciais na Macrometropole paulista com seus 30 milhões de habitantes, num estado com essa densidade desbalanceada, o vírus vai se expandir para a Baixada Santista, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos.
    Por exemplo, urge o GESP tomar medidas no sentido de redução de fluxos de viagens desnecessárias para controlar a propagação da doença para a Macrometropole ( raio de 150 km de SP) e para o interior
    Pra quem ainda não sabe a EMPLASA foi esvaziada pelo governador do Estado de São Paulo sem colocar essa base de conhecimento em outro órgão. Foi dissolvido em vários órgãos! Parabens pela excelente matéria

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