Desmatamento dispara na Amazônia e ameaça mais queimadas que em 2019

Estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) destaca aumento da devastação na região por grileiros.

MAURÍCIO TUFFANI,
Editor
Quarta-feira, 22 de abril de 2020, 13h02.

As áreas desmatadas na Amazônia desde o segundo semestre do ano passado e que ainda não foram queimadas poderão alimentar uma nova estação intensa de fogo na região, provocando uma devastação muito maior do que a dos incêndios florestais que tiveram ampla repercussão internacional negativa para o agronegócio brasileiro. O alerta é do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Segundo estudo divulgado pela ONG nesta quarta-feira (20), os incêndios florestais poderão acontecer principalmente em terras públicas que estão sob a guarda da União e dos Estados, onde houve, só no primeiro trimestre deste ano, 50% do desmatamento registrado pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de pesquisas Espaciais (Inpe).

 

Combustível para queimadas

“Quando a estação seca chegar à Amazônia, essas árvores derrubadas vão virar combustível para queimadas. Esse foi o ingrediente principal da temporada de fogo de 2019, uma história que pode se repetir em 2020 se nada for feito para impedir”, explica a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam e autora principal do estudo anunciado hoje.

Os motivos para o alerta são maiores do que os indicadores do ano passado. No primeiro trimestre de 2020 os alertas do Deter corresponderam a uma área 51% maior do que os registros do mesmo período em 2019.

O estudo do Ipam destaca o risco maior de queimadas para as florestas públicas, que têm sido o principal alvo de grileiros. No primeiro trimestre de 2019, essas áreas corresponderam a 22% dos desmatamentos na Amazônia. No mesmo período deste ano, a devastação nessas terras já alcançou 33% do corte raso total na região.

“Isso é roubo de patrimônio dos brasileiros, e deve ser resolvido com polícia”, diz o pesquisador Paulo Moutinho, do Ipam, um dos autores do estudo. “Essas áreas devem ser destinadas à conservação. São um importante ativo para a biodiversidade e para populações tradicionais sim, mas também para a economia brasileira, pois geram a chuva que alimenta plantações e hidrelétricas.”

O avanço do desmatamento e da grilagem neste ano na Amazônia já foi denunciado também pelo presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Britto, ,que atua há anos na produção de soja em Mato Grosso (ver “Desmatamento da Amazônia será maior neste ano, alerta líder agro”, Direto da Ciência, 8/abr).

 

MP da Grilagem

Enquanto isso, avança no Congresso a articulação para aprovar a Medida Provisória 910/2019, que está pautada em regime de urgência. A “MP da Grilagem”, como é conhecida, permite que terras públicas sem destinação com até 15 módulos rurais – o equivalente a 1.650 hectares na Amazônia – se tornem propriedade de quem as ocupou irregularmente. Pela nova regra, o processo pode ser feito por autodeclaração, sem a necessidade de vistoria.

Clique aqui para ler o estudo do Ipam.

Clique aqui para ler a nota “Desmatamento em terras públicas explode e pode alimentar estação de fogo”, do Ipam.

O Observatório do Clima compilou notas técnicas, posicionamentos públicos e vídeos informativos sobre a grilagem e a MP da Grilagem, para você entender por que a proposta não interessa ao país.

Clique aqui para ler a nota “Veja por que todos são contra a MP 910 (menos quem defende bandido)”.

Na imagem acima, área de floresta desmatada e queimada na Amazônia brasileira. Foto: Fernanda Cruz/Agência Brasil.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

*

Top