Pesquisa pós-pandemia deve privilegiar ciência aberta, avaliam especialistas

Crise da Covid-19 mostra modelo tradicional de comunicação científica como entrave para o desenvolvimento da pesquisa.

CÍNTHIA LEONE
Terça-feira, 28 de abril de 2020, 8h07.

A emergência sanitária causada pela Covid-19 resultou em uma inédita mobilização internacional de cooperação científica. Ela começou em janeiro, quando pesquisadores chineses publicaram o sequenciamento genético do novo coronavírus (Sars-Cov-2) no GenBank, uma base aberta de dados de DNA mantida pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH). Desde então, o compartilhamento de dados sobre a doença se multiplicou exponencialmente, com contribuições de laboratórios do mundo inteiro.

A maior parte dessas publicações foi feita em bases abertas, como bioRxiv e medRxiv, voltadas à divulgação de preprints, como são chamados os artigos com resultados preliminares e que não passaram por revisão por pares. Para não ficar de fora da produção em massa de estudos sobre a Covid-19, periódicos tradicionais abriram seus repositórios para manuscritos não revisados e liberaram o acesso de suas publicações sobre o tema.

Para entender se a ciência aberta será o “novo normal”, Direto da Ciência conversou com Abel Packer, diretor do Programa SciELO (Scientific Electronic Library Online), um dos principais incentivadores do modelo aberto no país. Também entrevistamos Bianca Amaro, coordenadora-geral de Pesquisa e Manutenção de Produtos Consolidados do Ibict (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), um órgão do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, que tem como uma de suas funções a promoção da ciência aberta no Brasil.

Os dois pesquisadores são bastante enfáticos: sem a ciência aberta, seria impossível combater o novo coronavirus. Para eles, uma doença desconhecida de rápida propagação requer uma produção de conhecimento igualmente ágil e disseminada.
“O movimento de abertura da ciência é inexorável, e a crise da Covid-19 acelerou notavelmente essa tendência”, declara Packer. “Crises mundiais terminam por revelar de forma clara e inequívoca que o modelo tradicional de comunicação científica representa um entrave para o desenvolvimento da ciência em todas as áreas do conhecimento”, afirma Amaro.

 

Validação

Além dos preprints, a ciência aberta pressupõe que a avaliação de manuscritos seja igualmente aberta. Isso significa que todo estudo deve ser avaliado por qualquer pesquisador da área e não somente pelos pares selecionados por uma revista.
“Há resistência dos autores, que têm medo de abrir seus dados em uma revisão ampla, e há resistência dos publicadores, que perdem sua condição única de chancelar como válido o resultado de um artigo”, explica Packer. Para ele, o procedimento tradicional de validação por pares é pouco transparente e não tem conseguido blindar os periódicos de fraudes científicas.

Para Amaro, é necessário desmistificar o processo de avaliação paritária. “Há sistemas inclusive que permitem que de um preprint o autor possa elaborar versões melhoradas do seu trabalho”, afirma. Ela destaca ainda que o modelo aberto obrigará todo pesquisador a ter uma leitura mais crítica dos artigos.

Outra preocupação de quem defende a transição para um novo modelo de comunicação acadêmica é com a chamada ‘morte de dados’. No paradigma aberto, modelos, códigos, fórmulas, softwares e outros dados de um estudo devem ser divulgados, indexados e arquivados.

“No modelo normal, um percentual elevado dos estudos não é replicável porque os dados se perdem, seja pela morte de pesquisadores ou pelo fechamento de laboratórios e descontinuação de pesquisas”, explica Packer. “A ciência aberta se centra na preservação de dados e por isso promove também o auto-arquivamento.”

 

Experiência

Nos anos de 1990, pagamentos em moeda estrangeira para acesso ou publicação de artigos nas revistas tradicionais oneravam de maneira desproporcional os acadêmicos latino-americanos. O nível de proficiência em inglês exigido pelos grandes publicadores acarretava, ainda, custos adicionais com traduções e revisões. Esse cenário impulsionou iniciativas independentes de publicação e indexação na América Latina, em especial no Brasil, que hoje é o terceiro do mundo em número de revistas de acesso aberto.

Como em sua maior parte essas publicações são editadas por instituições públicas, elas passaram a ser avaliadas sistematicamente por programas nacionais a partir de parâmetros estabelecidos internacionalmente, como o Qualis-Periódicos, mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Com orçamento sempre restrito, esses títulos adotaram pioneiramente o formato online, incomum até então.

A criação da SciELO é um marco desse desenvolvimento. A biblioteca eletrônica teve origem em um projeto iniciado em 1997 pela Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo) em parceria com a Bireme (Centro Latino-americano de Informação em Ciências da Saúde). Embora a intenção inicial fosse estabelecer uma metodologia de publicação, armazenamento, disseminação e avaliação da produção científica brasileira em formato eletrônico, a plataforma internalizou o movimento pelo acesso aberto, influenciando sua promoção também em outros países latino-americanos.

Segundo Packer, esse contexto dá ao Brasil e à América Latina condições favoráveis em um cenário de transição do modelo tradicional para a ciência aberta. Ele destaca que as agências brasileiras de fomento à pesquisa promovem ativamente essa mudança de paradigma. Ele cita a Fapesp, que definiu em fevereiro de 2019 que todo trabalho financiado pela instituição deve obedecer a diretrizes de acesso aberto, a exemplo do que já fazem Capes e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

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Na imagem acima, pesquisadora do Laboratório Nacional de Tecnologia do Bioetanol (LTBE), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP). Foto: CTBE/Divulgação.

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