Mapa da Covid-19 indica avanço para 19 terras indígenas de Mato Grosso

Encontram-se em risco nove etnias, somando cerca de 27 mil pessoas, 63% da população indígena do estado.

JOSÉ ALBERTO GONÇALVES PEREIRA
Quarta-feira, 29 de abril de 2020, 8h42.

Mais de 60% da população indígena de Mato Grosso vive em áreas próximas de cidades em que há casos confirmados de Covid-19. A população indígena do estado foi estimada em 42.538 pessoas no Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), último levantamento demográfico oficial sobre os povos originários do Brasil.

A reportagem utilizou o painel Covid fora das Aldeias para verificar as etnias mais ameaçadas pela pandemia em função da proximidade de cidades com casos confirmados da doença. Atualizada diariamente, a ferramenta foi lançada há pouco mais de uma semana pela equipe de inteligência territorial do Instituto Centro de Vida (ICV), sobrepondo dois mapas – o dos municípios com casos de Covid-19 e o das 73 terras indígenas (TIs) do estado.

Das 73 TIs de Mato Grosso, 19 têm suas bordas situadas a menos de 230 km por vias rodoviárias de cidades com casos confirmados da doença. São habitadas por aproximadamente 27 mil índios de nove etnias – Arara, Bororo, Cinta Larga, Guató, Kayapó, Nambiquara, Paresí, Umutina e Xavante. Pelo menos oito TIs encontram-se a no máximo 100 km de municípios com casos confirmados de Covid-19, como as TIs Tadarimana, Utiariti, Sararé e Aripuanã.

 

Infecções e óbitos

Habitada pelos Bororo, a TI Tadarimana situa-se a 35 km de Rondonópolis, de acordo com o ICV. Ainda mais perto de cidade com caso confirmado de Covid-19, a TI Utiariti (etnia Paresí) dista 21,7 km de Campo Novo do Parecis. A 39 km de Conquista d’Oeste, Sararé é uma das nove TIs dos Nambiquara, enquanto a TI Aripuanã, onde vivem os Cinta Larga, fica a 52 km do município homônimo de Aripuanã.

Uma das situações mais preocupantes revelada pela ferramenta do ICV é a dos Bororo das TIs Jurudore, Tadarimana e Tereza Cristina, muito próximas de Rondonópolis, com 28 casos confirmados da doença no boletim de 25 de abril da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT). Trata-se do segundo município mato-grossense em número de casos confirmados de Covid-19, só atrás da capital Cuiabá (43 registros de um total de 776 casos confirmados no estado e nove óbitos).

As 13 TIs restantes são Arara do Rio Branco (Arara), Paukalirajausu (Nambikwára), Juininha (Paresí), Uirapuru (Paresí), Vale do Guaporé (Nambiquara), Ponte de Pedra (Paresí), Pimentel Barbosa (Xavante), Wedezé (Xavante), Parque do Xingu (Kayapó), São Marcos (Xavante), Perigara (Bororo), Baia dos Guató (Guató) e Umutina (Umutina).

 

Índice de vulnerabilidade

Não bastasse a proximidade geográfica, 16 das 19 TIs também aparecem na relação de TIs vulneráveis à doença em estudo publicado na semana passada pela Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) e noticiado pela Agência Pública.

Liderado pela demógrafa Marta Azevedo, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o trabalho desenvolveu um índice de vulnerabilidade combinando variáveis críticas para a situação de risco à Covid-19 dos povos indígenas – percentual de idosos, média de moradores por domicílio, presença de banheiro de uso exclusivo, rede de água, disponibilidade de unidades de terapia intensiva (UTI) e situação fundiária.

Há 57 TIs de Mato Grosso no índice. Paukalirajausu (Nambiqura), Wedezé (Xavante) e Baia dos Guató (Guató) constituem as três TIs próximas a cidades com casos de Covid-19, mas não incluídas no índice de vulnerabilidade são Paukalirajausu (Nambiqura), Wedezé (Xavante) e Baia dos Guató (Guató).

O boletim da Sesai sobre a Covid-19 de segunda-feira ( 27) indica a existência de quatro casos suspeitos da doença nas terras indígenas de Mato Grosso, nenhum deles confirmado e nenhum óbito registrado.

 

Governo de MT responde

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) enviou ofício aos governadores dos 26 estados e do Distrito Federal em 3 de abril passado, inclusive ao de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), com dez propostas de ações para proteger da Covid-19. as comunidades indígenas

Entre as ações propostas, estão o fornecimento aos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIS) de testes rápidos para diagnosticar a doença e controlar a entrada e saída das TIs, inclusão dos indígenas nos planos emergenciais de atendimento de pacientes graves, equipamentos de proteção individual (EPIs) para profissionais da saúde indígena, materiais de higiene para pacientes e seus acompanhantes e inclusão das organizações indígenas nas reuniões de planejamento das ações sobre a Covid-19 nos estados.

“O Governo do Estado está analisando as ponderações feitas por entidades indígenas e as respostas serão encaminhadas à entidade em tempo oportuno, de acordo com a competência do Estado de Mato Grosso”, comunicou a Secretaria Adjunta de Comunicação (Secom) em resposta à solicitação da reportagem por posicionamento do governador a respeito do documento da Apib.

A reportagem também enviou questões sobre a proximidade de 19 TIs de municípios com casos confirmados de Covid-19 e da vulnerabilidade à doença em 57 TIs apontada pelo estudo publicado pela Abep à Secom/MT e à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. A Secom reiterou a resposta enviada anteriormente, sem comentar as perguntas, e voltou a elencar ações gerais para conter a disseminação da Covid-19, sem medidas voltadas especificamente às comunidades indígenas. Já a Sesai não se manifestou sobre as questões.

 

Índios apontam omissão

“Nenhum governador entrou em contato para discutir uma atuação conjunta com as entidades indígenas”, reclama Dijanan Tuxá, um dos coordenadores executivos da Apib. Ele acusa os governadores de omissão e racismo institucional contra os indígenas: “estão usando como pretextos para não agir a barreira da língua e a atribuição federal para cuidar da saúde indígena. Mas também somos cidadãos dos estados. Tanto é que os índios também votam nas eleições estaduais”.

“Nós, povos indígenas, não somos prioridade para os governantes”, critica Eliane Xunakalo, liderança Bakairi e assessora da Federação das Organizações e dos Povos Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt). “Estamos nos articulando para apoiar os DSEIs com álcool em gel, máscaras, alimentos e ferramentas para a roça”, conta Eliane Xunakalo, liderança Bakairi e assessora da Fepoimt. Mato Grosso possui seis DSEIs, que são os braços operacionais da Sesai.

“Não se vê nenhuma atitude em direção à busca de possíveis colaborações, alianças e parcerias com as entidades indígenas nas ações de prevenção e combate à Covid-19 nas terras indígenas”, diz Ivar Busatto, coordenador geral da Operação Amazônia Nativa (Opan). “A atuação mais direta na saúde indígena é da Sesai, mas, quando as coisas complicarem, os indígenas vão acessar a rede pública, onde o estado tem uma participação importante.”

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Na imagem acima, mapa Interativo do painel Covid Fora das Aldeias, do Instituto Centro de Vida (ICV). Imagem: reprodução.

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