MG não testa 100 mil casos suspeitos de Covid-19 e deixa de publicar o dado

Para pesquisadores, subnotificação no Estado pode ser o quádruplo da média nacional.

MARCELO SOARES,
Do Lagom Data
Sexta-feira, 15 de maio de 2020, 12h01.

Em sua propaganda oficial, o Estado de Minas Gerais afirma ser um dos mais eficientes no combate ao novo coronavírus, a ponto de já estar implementando um plano de reabertura do comércio. Até ontem, o governo Romeu Zema contabilizava 3.950 casos confirmados (18 por 100 mil habitantes) e 139 mortes reconhecidas (7 por milhão de habitantes). As proporções médias nacionais são de 96 por 100 mil e 66 por milhão, respectivamente.

O problema é que, ao lado de números oficiais tão baixos, existia um número alto: ontem, Minas ultrapassou a marca de 100 mil pacientes suspeitos de coronavírus mas sem teste confirmado ou descartado, acumulados desde março. Ontem, parou de publicar os casos suspeitos e em seu lugar passou a informar os casos recuperados.

Esta é a tendência dos casos no Estado:

Todos os Estados brasileiros confirmam menos casos de coronavírus do que os realmente existentes na população. É o que entrou no discurso popular como “subnotificação”, embora não seja exatamente o caso – os pacientes que chegam aos sistemas de saúde com sintomas compatíveis com os de coronavírus são notificados e acompanhados como suspeitos, mas muitos não são testados. Nas primeiras semanas da pandemia, reservava-se os testes escassos para os casos mais graves e trabalhadores da saúde, mas essa orientação mudou em vários Estados.

Dentre os Estados que divulgam o dado de testagem, Minas é o segundo que menos testa proporcionalmente sua população. Pesquisadores da UFMG analisaram padrões de internações por doenças com as quais a Covid-19 pode ser confundida, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), e estimam que a subnotificação em Minas pode ser o quádruplo da média nacional, devido à baixa testagem da população.

 

‘Nem ótimo, nem terrível’

Sem teste, um sistema de saúde navega às cegas, mais ou menos como aquela cena da série “Chernobyl” onde o camarada Dyatlov, chefete da usina alinhado ao governo soviético, diz que o resultado máximo de um contador Geiger de baixa capacidade era “nem ótimo, nem terrível” (a realidade era quatro mil vezes maior que a medição considerada tranquila).

Questionado a respeito em entrevista coletiva, o secretário de saúde Carlos Eduardo Amaral disse que a falta de testes não é um problema grande o suficiente para impedir a reabertura do comércio. Focar na testagem é uma visão míope, disse Amaral, na contramão das recomendações da Organização Mundial da Saúde implementadas na maior parte dos países do mundo.

Melindrado com a pressão, o governo do Partido Novo recorreu à forma mais antiga de resolver esse problema: comunicou que não abriria mais o número de casos suspeitos que denunciavam a falta de testagem.

“Conforme nova definição de caso preconizada pelo Ministério da Saúde e Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais – SES, os casos anteriormente definidos como ‘suspeitos’ passam a ser registrados nos sistemas oficiais de notificação como síndrome gripal inespecífica, por não preencherem, em sua integralidade, critério para investigação laboratorial”, diz o boletim epidemiológico desta quinta (14).

 

Microdados

Minas Gerais era um dos poucos Estados que publicavam esse dado, útil para identificar gargalos de testagem. A importância dele só pôde ser observada no final de abril, quando a Secretaria de Saúde mineira começou a publicar os microdados dos pacientes que chegaram ao sistema com suspeita de coronavírus.

A base mineira tinha mais de 90 mil linhas, uma por paciente, indicando algumas características demográficas (sexo, idade, cidade de residência) e status de confirmação (suspeito, descartado, confirmado ou morto), embora não tivesse outros pontos de informação disponíveis nos microdados de outros Estados, como sintomas e comorbidades de cada paciente. O Espírito Santo, por exemplo, publica seus microdados com 27 variáveis.

Microdados detalhados permitem que as informações sejam utilizadas em estudos que usam machine learning, uma aplicação da inteligência artificial, para descobrir regularidades que escapam ao olho nu e identificar os casos mais prováveis entre os suspeitos. No Reino Unido, o National Health Service (NHS) compilou uma base com dados detalhados de 17 milhões de pacientes, o que permitiu a realização de um estudo robusto sobre os principais fatores que levam à morte de pacientes de coronavírus.

Quando Minas começou a publicar microdados de mais de 90 mil pacientes, o Estado foi elogiado pela Open Knowledge Brasil. A entidade produz semanalmente um índice que compara o grau de transparência dos governos com os dados da pandemia. Esse índice criou uma saudável competição informal entre os Estados, que toda semana abrem mais informações visando subir no ranking. Em seu boletim de 29 de abril, a diretora Fernanda Campagnucci afirmou que microdados transparentes da maneira ideal teriam “a completude dos dados do Espírito Santo com a abrangência dos dados de Minas Gerais”.

Coincidentemente ou não, os mineiros tiraram os microdados de suspeitos do ar logo após a publicação da mais recente edição do índice, publicado toda quinta-feira. Minas havia empatado com outros dois estados na quarta posição do ranking dos mais transparentes.

MARCELO SOARES é jornalista, fundador da consultoria de inteligência de dados Lagom Data e membro do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ).
Na imagem acima, cartaz nas ruas de São Paulo com frase e efígie do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. 

Acompanhe dados detalhados da Covid-19 nos Estados e municípios brasileiros no site da Lagom Data, parceiro de Direto da Ciência.


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