Estudo da Covid-19 faz Brasil criar plataforma no modelo de ciência aberta

Grande volume de pesquisas sobre a pandemia estimula editores de revistas científicas a usarem repositório para artigos preliminares.

CÍNTHIA LEONE
Quinta-feira, 28 de maio de 2020, 8h51.

O Brasil lançou na semana passada (20) um repositório de preprints motivado pela pesquisa da Covid-19. O EmeRI (Emerging Research Information) foi idealizado para atender à urgência de comunicação de resultados de estudos sobre o novo coronavírus. A iniciativa é uma ação conjunta da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) e o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).

Preprint” é o termo usado para definir um artigo com resultados preliminares e que não passou por revisão por pares, um procedimento que pode levar meses. Uma boa parte do conhecimento sobre a Covid-19 está sendo disseminada nesse formato, em bases como a bioRxiv, a medRxiv e a brasileira SciELO (Scientific Electronic Library Online).

O EmeRI integra um novo portal sobre a Covid-19 do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Na cerimônia de lançamento, o ministro Marcos Pontes destacou que as ações reunidas na nova página “têm uma capacidade gigantesca de ajudar os nossos cientistas a conhecerem melhor o problema e achar soluções para ele e para os seus impactos”.

A bibliotecária Bianca Amaro, coordenadora-geral de Pesquisa e Manutenção de Produtos Consolidados do Ibict, explica que a diferença do EmeRI para outras plataformas é que ele é exclusivo para editores de periódicos. Segundo a pesquisadora, as revistas científicas têm recebido um volume excepcional de estudos sobre o novo coronavírus, e os editores buscavam uma maneira de colocar rapidamente esse material à disposição de outros especialistas.

Para entrar no EmeRI, os preprints devem ter passado pelo processo de desk review, isto é, aprovados para prosseguir para a etapa de revisão por pares de cada periódico, com critérios que seguem padrões internacionais, mas que variam de acordo com cada revista. Os artigos também devem ter a autorização expressa dos autores.

 

Futuro aberto

O modelo de publicação em preprint é um dos pilares da chamada ‘ciência aberta’ por privilegiar a agilidade na troca de informações científicas. Nesse formato, a validação dos resultados é feita livremente pelo conjunto de cientistas de uma determinada área, em vez de pesquisadores selecionados pelas revistas acadêmicas. O autor pode submeter posteriormente seu trabalho a uma revista que faça avaliação por pareceristas, acrescentando, inclusive, alterações sugeridas pelos especialistas que tiveram acesso ao texto na fase preliminar.

O Ibict é um órgão do MCTIC que tem como uma de suas metas a promoção da ciência aberta no Brasil. Para Amaro, a crise de Covid-19 está antecipando a tendência de transição do modelo científico tradicional para um paradigma aberto.
“A Ciência Aberta acelera a produção do conhecimento ao promover a intensificação do intercâmbio de informações científicas, a verificação de caminhos que já trilhados e a realização de trabalhos cooperativos”, afirma. “Ela pressupõe a ampla visibilidade da pesquisa científica.”

 

Acesso Aberto

O ibict tem também o objetivo institucional de promover o Acesso Aberto à Informação Científica, que consiste na disponibilização online gratuita e sem restrições dos conteúdos de publicações acadêmicas e demais resultados da investigação científica.

Um estudo divulgado em abril pelo Open Access Heatmap 2020 coloca o Brasil em terceiro lugar em número de revistas em acesso aberto (1.458), atrás de Indonésia e Reino Unido. O Estudo tomou por base os dados do DOAJ (Directory of Open Access Journals), que reúne as revistas científicas publicadas em acesso aberto mundialmente.

Para Amaro, os dados sobre o Brasil usados no estudo podem estar subestimados. Ela afirma que no Diadorim (Diretório de Políticas Editoriais das Revistas Científicas Brasileiras), criado e mantido pelo Ibict, há 2.396 periódicos nacionais que se autodeclaram de acesso aberto. A bibliotecária destaca ainda que o Brasil e a América Latina têm uma tradição de promoção da ciência aberta desde os anos 1990.

Na imagem acima, ilustração do novo coronavírus (SARS-Cov-2). Imagem: U.S. Army Photo.

Siga Direto da Ciência no Twitter e no Facebook.


Você acha importante o trabalho deste site?

Independência e dedicação têm custo. Com seu apoio produziremos mais análises e reportagens investigativas. Clique aqui para apoiar.


Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução de conteúdos de Direto da Ciência.
Clique aqui para saber como divulgar.

Um comentários;

  1. Pingback: Do acesso aberto à ciência à caixa de Pandora - Vermelho

*

Top