Contágio, o filme: ‘profecias‘ sobre cloroquina e o (mau) uso da internet

Dentre os diversos acertos do filme, o que mais impressiona é sua abordagem sobre o fluxo de informação e seus impactos na sociedade.

ALEXANDRE CAMPOS*

Domingo, 31 de maio de 2020, 8h00.


O que assistir durante a quarentena? Para algumas pessoas, o período de isolamento social tem sido entediante, com aquela sensação de não saber bem o que fazer com o tempo disponível (claro que isso não vale para todo mundo, pois há muita gente que está trabalhando ainda mais). No comando do controle remoto, há aquelas pessoas que querem se distrair, esquecer um pouco o problema do coronavírus, mas, por incrível que pareça, muitas não conseguem se desligar da situação e buscam nas telas um pouco mais do contexto em que estão vivendo. Prova disso é o filme Epidemia (Outbreak, 1995) ter voltado para a lista dos 10 mais assistidos da Netflix.

Se você é desses que não se desligam, buscam mais do mesmo e têm estômago suficiente, recomendo duas obras: a série documental Pandemia, disponível na Netflix e lançada assertivamente no início deste ano, e o filme Contágio (Contagion, 2011), disponível na HBO GO. É dele que falaremos. Trata-se de uma obra de ficção, mas que impressiona de tão realista.

Dirigido por Steven Soderbergh (o mesmo de Onze Homens e um Segredo), o filme, estrelado por Matt Damon, Gwyneth Paltrow, Jude Law e Laurence Fishburne, foi redescoberto pelo público e vem sendo chamado de “profético”, tamanha a semelhança com alguns aspectos da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Assim como Epidemia, Contágio está ‘bombando’: o filme se tornou um dos mais comentados no Letterboxd, rede social focada em cinema, e está na segunda posição na lista de mais procurados da Warner Bros. Em dezembro, ele estava na modesta 270ª posição dessa mesma lista.

 

Ciência e imaginação

Contágio merece ser chamado de profético? Na verdade, cinema e literatura são pródigos em antever situações. No campo da ciência isso é bem perceptível. Em 1902, nos primórdios da arte cinematográfica, o diretor Georges Méliès, um dos pais dos efeitos especiais, lançou Viagem à Lua, baseado no romance Da Terra à Lua, de Júlio Verne, ambos lançados muito antes de Neil Armstrong pôr os pés em solo lunar, em 1969. A escritora Mary Shelley, com seu Frankenstein, antecipou no século 19 discussões sobre clonagem e bioética que cresceriam ao longo do século 20.

Ao falar sobre o mito de Frankenstein, o pesquisador Jon Turney nos lembra que “não é convincente a separação que alguns fazem entre o reino da imaginação e o domínio científico” (2005, p. 105). Isso porque a imaginação não serve somente para a arte, é preciso algumas doses dela na ciência. E por isso com frequência a arte irá “prever” feitos e contextos de caráter científicos.

Os acertos de Contágio se devem muito mais a um roteiro antenado com os nossos tempos e uma boa consultoria científica, incluindo o apoio de epidemiologistas, do que a algum tipo de misticismo profético. Epidemias não são novidade e, dois anos antes de o filme ser produzido, o mundo havia passado por um surto de H1N1, a chamada gripe suína. Muitas situações típicas de uma epidemia são bem caracterizadas em Contágio: a expressão moribunda dos infectados, com sudorese, tosse e palidez; as formas de contaminação, retratadas por meio de closes em objetos, em carnes expostas nas feiras e em situações de proximidade entre as pessoas; o isolamento social, com ruas, igrejas e diversos estabelecimentos vazios; dentre outros aspectos. Em tempos de coronavírus, tudo fica ainda mais realista.

 

O vírus das fake news

Mas, dentre os diversos acertos de Contágio, o que mais impressiona é a abordagem que o filme faz sobre o fluxo de informação em tempos de epidemia e seus impactos na sociedade. Os perigos das notícias falsas, que se proliferam tanto ou mais do que o próprio vírus, possuem um amplo espaço no filme. Em 2011, a internet e suas boatarias já não eram mais nenhuma novidade, mas é interessante ver o assunto retratado de uma forma tão atual antes de termos como “pós-verdade” e “fake news” tornarem-se tão populares. Logo no início do filme, de dentro de uma redação de jornal, a fala do jornalista freelancer interpretado por Jude Law é icônica de nossos tempos: “a mídia impressa está morrendo!”. Daí em diante acompanhamos a empreitada do personagem como blogueiro.

Parte do problema em Contágio não está propriamente no vírus, mas na convulsão social causada, em grande medida, por esse pseudojornalista. É ele o principal responsável por disseminar que uma substância chamada “forsítia” seria a cura para o vírus. Imediatamente ocorre uma corrida às farmácias, incluindo invasões e saques, ao ponto de a substância desaparecer das prateleiras. Tudo seguindo a receita das teorias conspiratórias: a forsítia seria a cura, mas a indústria farmacêutica, o governo e a comunidade médica, todos em conluio, trabalham para omitir ções e garantir seus interesses escusos. Impossível não relacionar a forsítia do filme com a cloroquina da vida real, no contexto da Covid-19.

 

Discurso conspiracionista

O pseudojornalista se passa por uma espécie de porta-voz de uma verdade escondida, tal e qual o modo como os conspiracionistas em geral gostam de se sentir. Aqui fica clara a descrença nas instituições, outra característica marcante de nossos tempos. O estado e suas instituições públicas, a mídia tradicional (caso dos grandes jornais impressos, que o jornalista blogueiro disse estarem morrendo) e até a própria ciência passam a ser sistematicamente desacreditados e desqualificados. Movimentos antivacina e o terraplanismo estão aí para mostrar isso.

Em um momento memorável do filme, o médico Ellis Cheever (interpretado por Lawrence Fishburne), é confrontado pelo blogueiro em um programa de TV. O blogueiro insiste na forsítia e, com bom domínio do debate e eloquência no discurso conspiracionista, joga o médico contra a parede. Doutor Cheever, que trabalha nas pesquisas por uma vacina, responde que tipos diferentes de drogas estão sendo testados, mas, na falta de resultados conclusivos, o ideal é a manutenção do isolamento social. Parece até que o personagem está falando diretamente com o presidente Jair Bolsonaro, um entusiasta da cloroquina e crítico da quarentena.

Entretanto, é Jude Law quem parece se sair melhor no debate, mesmo sem ter razão. Aqui, Contágio reforça mais um traço dos nossos tempos com relação às tecnologias midiáticas e à midiatização: a forma se sobrepondo enormemente ao conteúdo. No contexto atual, técnicas de relações públicas, propaganda, marketing e boas ferramentas algorítmicas podem convencer a opinião pública de qualquer coisa, ainda que essa coisa seja frontalmente contrária às evidências científicas. Isso pode fazer com que certos assuntos que são consensuais ou praticamente consensuais na comunidade científica pareçam controversos para a opinião pública. Um exemplo é o aquecimento global antropogênico (ou seja, causado pela ação humana). Para quem quiser saber mais sobre o assunto, recomendamos o documentário Mercadores da Dúvida, baseado no livro homônimo, que mostra as táticas persuasivas dos negacionistas climáticos.

Uma das principais armas dos propagandistas das controvérsias é saber explorar uma regra jornalística que é a de ouvir sempre os dois lados da história. A regra é justa e necessária, diga-se de passagem, mas o “outroladismo” pode gerar algumas dissonâncias e distorções, dando para ideias extremamente minoritárias o mesmo espaço na mídia que posições consensuais com maior corpo de evidências e com fundamentos mais sólidos.

 

Ficção e realidade

Contágio exagera em alguns traços e dramas da epidemia. Afinal de contas, é cinema, e o cinema joga com a emoção. A rapidez e letalidade do vírus fictício são bem maiores que as do coronavírus (ainda bem!) e a convulsão social é bem mais intensa (ao menos por enquanto), mas, em alguns aspectos, é a realidade que supera a ficção. Embora o filme mostre de forma brilhante os efeitos nocivos das teorias conspiratórias aliadas à internet, não há em Contágio grandes autoridades políticas reproduzindo tais teorias e propondo como cura substâncias sem efeito comprovado.

Já na vida real (cada vez mais surreal), presidentes como Donald Trump e Jair Bolsonaro defendem o uso da cloroquina em suas declarações públicas. A substância ainda não tem efeito cientificamente comprovado na cura da Covid-19, por isso é preciso cautela. Isso mostra que, no mundo real, todo esse modus operandi conspiracionista de internet retratado no filme vem aos poucos se fundindo ao próprio estado e suas instituições. Trump, nos EUA, e o Brexit, na Grã-Bretanha, são frequentemente apontados como exemplos de êxitos eleitorais imbricados com o fenômeno da pós-verdade (ou pós-fato), termo que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. As novas mídias digitais, principalmente as redes sociais, têm protagonismo nesse cenário perigoso.

A eleição de Bolsonaro não foge dessas características. O êxito de sua campanha à Presidência foi conquistado por conta das redes sociais (principalmente do Whatsapp), a despeito do pouquíssimo tempo de TV que tinha na propaganda eleitoral oficial. Como se não bastasse a defesa prematura da cloroquina (não necessariamente um equívoco, mas, no mínimo, uma imprudência), o presidente do Brasil virou uma espécie de garoto-propaganda antiquarentena. Uma coisa é se antecipar à comunidade científica defendendo uma eficácia ainda não comprovada, a outra é contrariar deliberadamente essa comunidade, que recomenda o isolamento social como a melhor forma de prevenção no momento, assim como o doutor Cheever faz em Contágio.

O pseudojornalista interpretado por Jude Law também estava certo em um ponto: a mídia impressa está mesmo morrendo. O problema é se o que estamos colocando no lugar é melhor ou pior e quais as transformações sociais decorrentes dessa substituição. O historiador da ciência David Wootton, autor de Uma breve história dos fatos na revista History Today, em que discute a visão peculiar de Trump sobre fatos e verdades, vê com muita ressalva essas transformações:

A internet cria uma enchente de pontos de vista diferentes e você não consegue diferenciar o certo do errado, pois todos parecem igualmente convincentes na tela. E acho que, com isso, a fofoca está sendo transformada em opinião, e fica bem mais difícil distinguir argumentos bem fundados de preconceito. Acho que a internet está nos levando de volta a um mundo medieval no qual as histórias se espalham rapidamente, sejam verdadeiras ou falsas, e fica impossível descobrir de onde vieram e se são confiáveis. (2017).

Referências

TURNEY, Jon. Resposta popular à ciência e à tecnologia: ficção e o fator frankenstein. In: MASSARANI, Luisa; TURNEY, Jon; MOREIRA, Ildeu de Castro (Org.). Terra incógnita. A interface entre ciência e público, Rio de Janeiro: Vieira & Lente : UFRJ, Casa da ciência: FIOCRUZ, 2005. pp. 99-114.

WOTTON, David. A internet está nos levando de volta a um mundo medieval. Consultor Jurídico. 10 jul 2017. Disponível em <http://www.conjur.com.br/2017-jul-10/milenio-david-wootton-autor-breve-historia-fatos> Acesso em: 15 ago 2017.

* Alexandre Campos é pesquisador em divulgação e política científicas, mestre em Mídia e Cotidiano (UFF), especialista em Comunicação Pública (UGF) e Sociologia Política (Ucam), graduado em Cinema/Audiovisual e Jornalismo (UFF) e graduando em História (UVA). Trabalha em gestão pública e na cobertura de políticas públicas há mais de 10 anos.

Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, o ator Jude Law no papel de blogueiro divulgador de fake news no filme Contágio. Foto: Claudette Barius/Warner Bros. Entertainment/Divulgação.

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