Resto do desmatamento de 2019 pode pesar ainda mais sobre o SUS na pandemia

Estudo revela que área desmatada de 4.500 km² está prestes a ser queimada, o que pode agravar problemas respiratórios na população.

MARCELO COPPOLA *
Sábado, 13 de junho de 2020, 8h11.

Os incêndios que castigaram a Amazônia no ano passado atingiram seu auge em agosto, quando as imagens da floresta em chamas provocaram comoção no mundo todo. Naquele mês, ocorreram 30,9 mil focos de fogo na região. Pressionado, o governo federal enviou tropas para áreas afetadas e proibiu as queimadas por 60 dias. Em setembro, o número caiu para 19,9 mil focos de incêndio e, em outubro, para 7,8 mil, o menor já registrado nesse mês. O período mais seco da floresta, que tradicionalmente começa em junho, acabou de forma mais positiva do que sugeriam os dados iniciais.

Uma nota técnica divulgada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) na segunda-feira (8) revela, porém, uma realidade preocupante por trás daqueles números. De acordo com o Ipam, 3.848 km² de floresta foram derrubados no ano passado, mas não foram queimados. O mesmo aconteceu com outros 661 km² entre janeiro a abril deste ano. Ao todo, existem hoje 4.509 km² de áreas destruídas prontas para serem incendiadas, o equivalente, conforme lembra o instituto, a três municípios de São Paulo.

Os pesquisadores sabem que o risco de queimada é alto porque essas áreas foram desmatadas para virarem pasto ou novas áreas de cultivo, processo no qual o uso do fogo desempenha função importante. Na Amazônia, boa parte dos incêndios é feito por grileiros, que invadem terras públicas, retiram as árvores mais valiosas e derrubam a mata restante com a ajuda de correntes presas a tratores. Após algumas semanas de secagem, colocam fogo e vendem a nova área de pasto. Muitas vezes fazendeiros fazem queimadas para expandir a produção em sua propriedade, mesmo que isso infrinja as limitações impostas em 2012 pela lei que substituiu o Código Florestal, que exige, na Amazônia Legal, a manutenção de 80% da mata nativa.

 

Nova temporada de incêndios

O Ipam alerta ainda que muita floresta será derrubada em maio, junho e julho, meses nos quais o corte da mata costuma ser mais acentuado. Os autores do estudo estimam que, somadas a destruição já feita até agora com a que está por vir, 9 mil km² de mata nativa pode estar no chão no início de agosto, quando ocorre o grosso das queimadas. Em um cálculo conservador, se 60% dessa área for queimada, a temporada de incêndios será igual à do ano passado, que tanto assustou o mundo.

“O problema é que, em 2019, o governo combateu apenas as chamas, mas não o desmatamento. E a derrubada da floresta continuou nos meses seguintes. Há um risco enorme de que essa área queime na próxima estação seca”, afirma Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam e um dos autores da nota técnica.

Concentração da estimativa de áreas desmatadas de janeiro de 2019 a abril de 2020 que não foram queimadas. Fonte: IPAM, a partir de dados do Deter e de focos de calor disponibilizados pelo Inpe.

Concentração da estimativa de áreas desmatadas de janeiro de 2019 a abril de 2020 que não foram queimadas. Fonte: Ipam, a partir de dados do Deter e de focos de calor disponibilizados pelo Inpe.

 

Danos a pulmão e coração

A população da Amazônia Legal é a primeira vítima do fogo na floresta. No ano passado, os municípios que mais tiveram queimadas ficaram com o ar 53% mais poluído, em média, na comparação com 2018, o que afeta principalmente crianças e idosos. Um estudo da Fiocruz revelou que viver em áreas afetadas pela fumaça das queimadas aumenta em 36% o risco de uma criança ser internada por problemas respiratórios. Em maio e junho do ano passado, cerca de cem municípios da região registraram 5 mil internações a mais por conta da fumaça, com um custo extra de R$ 1,5 milhão ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O componente mais tóxico presente na fumaça é o chamado “material particulado”, uma mistura de compostos químicos formado por partículas de diferentes tamanhos. As menores conseguem atingir os alvéolos pulmonares e chegam à corrente sanguínea. Segundo estudos, o material particulado pode ocasionar uma série de doenças respiratórias e cardíacas.

O cenário é ainda mais grave dessa vez porque as queimadas coincidem com a pandemia provocada pelo novo coronavírus, que castiga os Estados da Amazônia Legal. Em 10 de junho, a incidência de casos da Covid-19 (972 por 100 mil habitantes) e de mortes relacionadas à doença (40,1 por 100 mil habitantes) registrada no Norte era a mais elevada entre todas as regiões do país. Os hospitais locais não dão conta dos infectados. Em 10 de junho, todas as UTIs públicas em Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC) já estavam ocupadas.

As populações indígenas estão entre as principais vítimas da Covid-19. Levantamento do Ministério da Saúde apontava, também em 10 de junho, que 73 índios já morreram da doença. A coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira apresenta número muito maior: 228 vítimas fatais entre essas populações da Amazônia Legal.

Um cenário que pode se agravar ainda mais com as queimadas. “Levados pelos ventos, o material particulado pode atingir até populações indígenas isoladas”, afirma o físico Paulo Artaxo, um dos autores do estudo do Ipam. Quando combinados, poluentes e o novo coronavírus têm seu potencial destrutivo aumentados. É o que revela estudo de pesquisadores de Harvard, segundo o qual o aumento de material particulado no ar eleva em 8% a taxa de mortalidade da Covid-19.

 

Tempestade perfeita

A “tempestade perfeita”, expressão usada pela nota técnica para definir as ameaças que se armam contra a população amazônica, pode se tornar ainda mais violenta. O professor Irving Foster Brown, da Universidade Federal do Acre, lembra que o Oceano Atlântico apresentou nos primeiros meses deste ano as mais altas temperaturas já registradas em sua série histórica. “O risco é que a Amazônia, especialmente sua região sudoeste, tenha uma seca prolongada, o que facilita a propagação dos incêndios florestais”.

Segundo Brown, as condições climáticas no Acre do mês passado se assemelham hoje às registradas em 2005. No período mais seco daquele ano, quando a umidade do ar chegou a 25%, a fumaça das queimadas encobriu as cidades acreanas e provocou doenças respiratórias em 10% da população do estado. O Aeroporto Internacional de Rio Branco suspendeu suas operações por várias vezes e as escolas foram obrigadas a interromper as aulas.

A nota técnica do Ipam pede que o governo federal prorrogue até outubro, quando acaba a estação seca, o prazo de vigência do decreto 10.341, que autoriza o uso das Forças Armadas no combate ao desmatamento e aos focos de incêndios. Dois dias após a nota ser divulgada, o presidente Jair Bolsonaro estendeu por um mês o uso das tropas militares, até 10 de julho, o que não contempla o pedido dos cientistas.

Além da prorrogação do decreto, os pesquisadores pedem ainda que as Forças Armadas atuem nas áreas, apontadas na nota técnica, que já estão desmatadas e não queimadas. De acordo com o Ipam, a maioria fica nos estados do Pará (42%), Mato Grosso (23%), Rondônia (13%) e Amazonas (10%). O decreto do governo prevê o uso das tropas somente para a faixa de fronteira, terras indígenas e unidades federais de conservação ambiental. “Isso significa que os militares não vão chegar às áreas mais degradadas e sujeitas a queimadas”, lamenta Moutinho.

* MARCELO COPPOLA é jornalista e foi editor na revista Época. Trabalhou também no jornal Folha de S. Paulo e na revista Veja.
Na imagem NO ALTO, incêndio florestal em Tocantins em setembro de 2019. Foto: Fernando Alves/Governo de Tocantins.

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