Proteger a Amazônia sem ciência: quais são as chances de sucesso?

O que menos se ouve nas posições do governo diante da crise ambiental é a voz da ciência.

COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE*
Especial para Direto da Ciência.**

Domingo, 12 de julho de 2020, 7h56.


A indignação com o avanço do desmatamento e da degradação florestal na Amazônia alimentados pela política aniquiladora do Ministro Ricardo Salles que, sob as bênçãos do Palácio do Planalto, tolera e até incentiva crimes ambientais e violações de direitos humanos de povos indígenas e populações tradicionais, chegou a grupos de investidores internacionais e a uma parte do empresariado brasileiro.

Na tentativa de sinalizar a representantes de fundos internacionais de investimento uma alegada preocupação com a pauta ambiental na Amazônia, foi organizada uma videoconferência coordenada pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Participaram da reunião virtual, além do vice-presidente, os ministros da Casa Civil, das Relações Exteriores, da Agricultura, das Comunicações e do Meio Ambiente. Também estiveram presentes os presidentes do Banco Central e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos.

Com tantos representantes, chama atenção a ausência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Embora o MCTI faça parte do Conselho da Amazônia, o que menos se ouve nas posições do governo diante da crise ambiental é a voz da ciência.

Cabe lembrar que o MCTI tem, entre suas unidades de pesquisa, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que monitora a Amazônia com reconhecida competência. Talvez, se a ciência do monitoramento por satélite tivesse sido consultada, o vice-presidente Mourão teria evitado declaração incorreta e tão constrangedora:

“Só no ano que vem, quando vai passar o satélite de novo, vamos poder comprovar que nossos esforços para reduzir o desmatamento na Amazônia surtiram efeito. Até lá, é conversa de bêbado: eles dizendo umas coisas e nós argumentando outras.”
(“Mourão sobre negociações com europeus: ‘até ano que vem, é conversa de bêbado'”, coluna Lauro Jardim, O Globo).

O MCTI conta ainda com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o centenário Museu Paraense Emílio Goeldi, duas das mais importantes instituições de pesquisa sediadas na Amazônia. Talvez, se a ciência gerada no Inpa e no Museu Goeldi sobre os ecossistemas amazônicos tivesse sido consultada, o ministro Fábio Faria, das Comunicações, teria evitado declaração imprecisa e ainda mais constrangedora:

“Hoje nós mostramos um mapa [na reunião com investidores estrangeiros], que ficou muito claro para eles, né? Onde estava preservado… o tamanho, a dimensão que é toda a Amazônia, o que representa pro Brasil… Nós temos hoje, se você for chegar em Manaus e pousar, e se você quiser pedir um avião. ‘Ah, eu quero aqui ver Mata Atlântica’, você fica ali três horas sem parar vendo Mata Atlântica atrás de Mata Atlântica. Mas também se você quiser fazer o que muitos jornalistas fazem no exterior, alguns artistas, “Ah, eu quero ver aqui queimadas”, também tem. Ele vai mostrar ali a região onde tem algumas queimadas que, no total da Amazônia 87%. Nós tínhamos 87% de Mata Atlântica e 13 de queimadas”.

Uma declaração que confunde dois biomas distintos e em regiões distintas do continente.

O MCTI fomenta e coordena redes de pesquisa que reúnem instituições públicas, federais e estaduais, que estudam a biodiversidade brasileira e seus potenciais usos para bioeconomia. Conta também com a organização social Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, com 21 anos de atuação e sólida experiência no manejo de recursos naturais e desenvolvimento social na Amazônia. Em fevereiro de 2020, por ocasião da recriação do Conselho da Amazônia, o vice-presidente Mourão afirmou:

“O desenvolvimento da Amazônia passa pela bioeconomia, pelo ordenamento territorial, temos que conversar com as pessoas que estão no terreno e conhecem, de modo que nós tenhamos condições de fazer um alinhamento e estabelecer efetivamente uma política do Estado brasileiro”.
(“Conselho da Amazônia vai unificar ações do governo, diz Mourão”, Agência Brasil)

Se tais intenções são revestidas de seriedade, é crucial que a ciência seja realmente considerada nas ações que a Amazônia demanda com tanta urgência.

O vice-presidente Mourão disse ainda ao jornalista Lauro Jardim:

“Os europeus, assim com a maioria dos brasileiros, desconhecem o que é a Amazônia. Basta dizer que tem quase o mesmo tamanho da União Europeia: uma tem 4,4 milhões de metros quadrados, a outra, 4,2 milhões. Não é brincadeira”.

Pois bem, cabe então relembrar que há cientistas e instituições de pesquisa brasileiros que conhecem profundamente a Amazônia e estão prontos a contribuir na solução dos complexos problemas da região (a propósito, a Amazônia Legal tem uma extensão de aproximadamente 5 milhões de quilômetros quadrados).

Também, muitos cientistas europeus conhecem a Amazônia por participarem há anos em projetos de pesquisa em colaboração com pesquisadores brasileiros. Além disso, podem acompanhar as alterações na Amazônia por meio de uma constelação de satélites que também monitoram a floresta. Por isso, talvez o governo deva reavaliar o investimento em novos recursos de propaganda para melhorar a imagem do país no exterior, pois a comunidade internacional tem meios para avaliar independentemente o que está acontecendo. Faz mais sentido, em vez de tentar uma propaganda cosmética pouco efetiva, investir em fazer uso do capital de conhecimento que já temos acumulado.

Ainda como parte da tentativa do governo de reagir aos danos de imagem que o país tem sofrido no exterior, o ministro Ricardo Salles anunciou um decreto para suspender queimadas legais no Brasil por 120 dias. Primeiro, o maior dano à imagem do país na área ambiental é o próprio ministro. Depois, é inócuo pensar nas queimadas legais e não considerar a rede criminosa que consorcia o desmatamento clandestino com queimadas ilegais. Outro lembrete: temos no Brasil tecnologia altamente efetiva para o monitoramento de incêndios e queimadas e especialistas em ecologia do fogo que devem fazer parte de uma discussão nessa temática tão importante.

Por fim, com o registro do recorde de alertas de desmatamento feito pelo Inpe em 10 de julho, o vice-presidente Mourão admitiu que o governo começou tarde e operação na Amazônia, e pode não ter impacto nas taxas de desmatamento este ano. Já havíamos alertado sobre isso, mas fomos ignorados.

Dados o histórico de inação e o descaso com a ciência sobre a Amazônia, as declarações equivocadas de membros do governo federal não surpreendem, mas não deixam de ser profundamente tristes.

* A COALIZÃO CIÊNCIA E SOCIEDADE é formada por cientistas de instituições de ensino e pesquisa de todas as regiões brasileiras. Você pode conferir todos aqui.

** Os artigos de colaboradores não exprimem necessariamente a opinião de Direto da Ciência, e são publicados com os objetivos de promover o debate sobre a ciência, a cultura, o meio ambiente e o ensino superior e de refletir a pluralidade de ideias sobre esses temas.


Na imagem acima, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, e os ministros de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante coletiva de imprensa. Foto: Romério Cunha/VPR.

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